abril 05, 2011

A OUSADIA DE UM POTIGUAR VAI A PARIS

“Sonda Intergalática”, uma escultura com 13 metros de altura e 10 toneladas

A OUSADIA DE GUARACI VAI A PARIS

Por

Yuno Silva

Cosmopolita e ousado. Se tivéssemos poucas palavras para descrever o trabalho do artista visual Guaraci Gabriel, certamente essas duas estariam no topo da lista. Visto como polêmico por uns e louco por outros, Guaraci já representou o RN em diversas Bienais de abrangência internacional como a de São Paulo; do Mercosul, realizada em Porto Alegre (RS); de Cuba e do Fim do Mundo, em Ushuaia, Argentina. Sua arte também cruzou o Atlântico, quando participou de uma exposição coletiva na Áustria, e o próximo destino do potiguar é a França, onde desembarca para nova temporada entre os dias 18 e 31 de maio. Na bagagem, três infogravuras com mais de 12 metros quadrados cada – montagens fotográficas onde se vê suas gigantescas esculturas ‘invadindo’ os jardins do Museu do Louvre.

Quem não conhece o trabalho de Guaraci Gabriel, vale salientar que ele figura no livro dos recordes, quando, em 1998, materializou a maior obra feita com material reciclado do mundo: “Guerra e Paz”, de 50 toneladas e 24 metros de altura, na época exposta na Via Costeira. Para manter essa mania de grandeza, o artista está levando a Paris sua mais recente criação: a “Sonda Intergalática”, uma escultura com 13 metros de altura e 10 toneladas exposta em Mossoró, que será ‘tele-transportada’ através da infogravura criada especialmente para a exposição L’Univers Bresilien 2011, em cartaz na Galerie Everarts.

Mas a viagem internacional de Guaraci ainda não está 100% garantida, por isso o artista abre mostra no próximo dia 7 de abril, na galeria do Bardallos, onde irá apresentar os três trabalhos que seguirão para a França – a versão reduzida (60 cm x 90 cm) dos trabalhos estará à venda. Na ocasião, também aproveita para lançar escultura inédita em ferro e aço, intitulada “Ilusão I”, e relançar o “Passaporte Galático”, trabalho que levou para a 10ª Bienal de Cuba em 2009. “Também estarei fazendo um retrospectiva de meus 30 anos de produção artística, com projeção de fotos”, adiantou. Apesar do convite oficial em mãos, o potiguar precisa comprovar recursos para cobrir despesas com hospedagem e alimentação para não ser barrado na polícia de imigração.

“Consegui apoio da Fundação José Augusto na compra das passagens, e a Assembleia Legislativa também chegou junto. Agora quero ver se dá certo o apoio da Prefeitura de Natal, por isso estou propondo uma troca: ofereci o trabalho ‘Primavera Perfeita’, um painel a ser montado na própria sede do poder executivo municipal com 1.276 fotografias de mulheres que se destacaram na história do RN e anônimas. Juntas, irão formar a imagem da Xanana, flor símbolo da cidade”, adiantou. “Inclusive, as pessoas interessadas em fazer parte da obra podem deixar fotografias 3x4 no Núcleo de Artes Visuais da Capitania das Artes até junho”, adiantou. Pelos planos, o painel deverá ser inaugurado em setembro, no início da Primavera, estação do ano celebrada há quase duas décadas pelo artista.

Sobre sua trajetória, Guaraci verifica que amargou certa descrença por parte do público antes de ter seus trabalhos reconhecidos como obras de arte. “O público só consome cerca de 10% do que é produzido, e muitas obras ainda causam estranheza. As pessoas precisam abstrair, deixar pré-conceitos de lado para perceber a mensagem proposta”, disse. Desde os tempos do Grupo Oxente, coletivo artístico atuante na década de 1980, também formado por Sayonara Pinheiro, Civone Medeiros, Cícero Cunha Mikeas e “vocês”, que Guaraci investe na produção de instalações e intervenções urbanas. Seu interesse pelas grandes obras surgiu após um curso em Brasília com o artista cearense Sérvulo Esmeraldo.

SONDA INTERGÁLATICA

Uma história curiosa circula em torno da obra que será ‘virtualmente’ levada para a exposição na capital francesa. “Primeiro que decido colocar rodas na ‘Sonda Intergalática’, uma mão de ferro que sustenta um pêndulo gigante como se fossem as várias camadas da atmosfera, do universo”, explica. “Essa mão foi construída com apoio dos operários da Brassnox, em Mossoró, que doaram algumas horas diárias de trabalho”, lembra. O próximo passo de Guaraci, e dos operários, é ‘escrever’ com solda, no dedo mindinho da Sonda, um poema do mossoroense Crispiniano Neto. “Vai virar uma nova escultura, chamada ‘Dê a César o que é de César’. Vamos cortar esse dedo mindinho e oferecer ao ex-presidente Lula, que também será convidado para o lançamento marcado para outubro. É uma forma de agradecer pelo seu trabalho como presidente. Tem tudo a ver pois o Lula é colega dos operários”, finaliza.

Em tempo, o artista potiguar Iran Dantas também fará companhia a Gabriel na exposição coletiva em Paris. Os dois irão receber homenagem da academia Arts-Sciences-Lettres Societè, da qual a curadora brasioleira Diva Pavesi faz parte. Foi Pavese que convidou os potiguares para expor e, segundo Gabriel, “ela pretender fazer uma exposição só com artistas do RN”. Iran foi selecionado durante uma exposição no Senado Federal em novembro de 2009, e Guaraci carimbou seu passaporte quando a curadora esteve no RN para conhecer outros artistas.

...fonte...
Yuno Silva
www.tribunadonorte.com.br

...fotografia/ilustração...
Divulgação

...visite...
http://guaracigabrielartesvisuais.blogspot.com/

abril 04, 2011

A DANÇA POTIGUAR CHEGANDO A BERLIM

Gira Dança foi selecionada para o Festival Move Berlim, na Alemanha

FESTIVAL NA ALEMANHA

COMPANHIA DE DANÇA POTIGUAR FAZ APRESENTAÇÃO EM BERLIM

A Companhia Gira Dança foi selecionada para o Festival Move Berlim, na Alemanha. Nos próximos 12, 13, 14 e 16 de abril, o grupo apresenta os espetáculos "A Cura", "Corpo Estranho" e uma intervenção nas ruas da capital alemã. Na próxima quarta-feira, 6, às 9h, ocorre uma coletiva de imprensa e apresentação exclusiva para jornalistas na sede do Ponto de Cultura Giratório, na Ribeira.

O Festival de Dança Brasil Move Berlim leva o melhor da dança brasileira para a Alemanha há 8 anos. No processo de seleção, a curadoria percorre todo o país em busca de bailarinos e companhias que representem a diversidade cultural do país. O Gira Dança está entre os oito grupos do país selecionados. O evento é patrocinado pelos governos dos dois países e está em sua quinta edição, ocorrendo a cada dois anos.

APRESENTAÇÕES

A intervenção urbana que será apresentada em Berlim tem como base os mesmos processos criativos de "A Cura", mas o público torna-se um co-autor. O objetivo é que a coreografia seja montada no momento da apresentação.

"A Cura", por sua vez, questiona qual a solução para um mundo norteado por intolerância e relações interpessoais. Para representar isso, os bailarinos são separados do público por um plástico transparente.

Em "Corpo Estranho", a vida dos bailarinos da Companhia é que vem à tona. Relatos verídicos, documentados em uma série de entrevistas foram o suporte para a montagem da coreografia.

A COMPANHIA

Gira Dança é uma companhia de dança contemporânea formada por pessoas com e sem deficiência que tem como proposta artística ampliar o universo da dança através de uma linguagem própria, voltada para o conceito do corpo como ferramenta de experiências.

A companhia, criada em Natal (RN) em 2005 pelos bailarinos Anderson Leão e Roberto Morais, teve sua estréia nacional na Mostra Arte, Diversidade e Inclusão Sócio-cultural, realizada no Rio de Janeiro, em maio de 2005 e, desde então, tem apresentado em palcos de todo o Brasil um trabalho que rompe preconceitos, limites pré-estabelecidos e cria novas possibilidades dentro da dança contemporânea.

Aliado ao trabalho corpóreo, a companhia usa sua arte para instigar nos espectadores a discussão sobre os limites do corpo, além de desenvolver ações sociais, dentre as quais estão a realização de palestras e oficinas em instituições de ensino e organizações corporativas.

...fotografia...
Rodrigo Sena

ESPAÇO GIRA DANÇA
Rua Frei Miguelinho, 100 • Ribeira
Cep 59012-180 • Natal.RN • Fone: +55 84 3344.4110
giradanca@giradanca.com.br

abril 03, 2011

UM POTIGUAR BRILHA EM NOVA YORK

GEOVÁ RODRIGUES

DE BARCELONA NO RIO GRANDE DO NORTE PARA O MUNDO

O designer potiguar Geová Rodrigues, radicado em Nova York há mais de dez anos, mostrou seu trabalho num evento organizado pelo salão nova-iorquino Maria Bonita Salon & Spa, um dos badalados salões americanos e um aglutinador de eventos de arte e moda. A nova coleção de acessórios de Geová foi inspirada na obra do artista Egon Schiele. A exposição, ocorrida no mês de março, atraiu os holofotes também da moda brasileira.

O "PRECURSOR" DA MODA SUSTENTÁVEL

Brasileiro, nascido em Barcelona, uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, Geová Rodrigues é o quinto de uma família de 13 filhos. Logo cedo aprendeu com sua mãe a reciclar roupas e tecidos. Sua carreira de artista plástico o levou para o exterior, mas em 1998 ele trocou o pincel pela agulha quando ganhou de um amigo uma máquina de costura. Tornou-se um estilista conceituado por ter um trabalho voltado para a criação e recriação de roupas e acessórios, a partir de reciclagem de materiais, descartados de grandes grifes internacionais e outros materiais que reaproveita.

Geová é aclamado como o papa do ''redesign'', pelo conceito de reciclagem de suas criações. Foi um dos pioneiros no mundo da moda do Descontruction Couture, técnica de reestruturar e remontar roupas. Suas peças são verdadeiras obras de arte, desfilam no New York Fashion Week e vestem celebridades como Cindy Lauper, Gisele Bündchen e Fernanda Tavares. Com essa postura ganhou fama internacional e é cotado pelas principais editorias de moda do mundo, tendo suas peças estampadas em inúmeros editoriais das mais conceituadas revistas de moda do mundo. Atualmente, está entre a lista dos 40 brasileiros mais influentes de Nova Iorque.

SAIBA COMO TUDO COMEÇOU

Geová Rodrigues nasceu em 2 de agosto de 1966, no município de Barcelona, no estado do Rio Grande do Norte. Em Barcelona ele viveu até os 16 anos de idade. Em 1980 muda-se para Ceará Mirim/RN e em seguida para São Paulo/SP, iniciando uma bem sucedida carreira como artista plástico.

Na capital paulista, completou o 2° grau e virou habitué do Madame Satã, casa noturna que dominava o cenário underground da época. ''Eu fazia performances e exposições, cheguei a participar de uma coletiva no MAM do Rio'', lembra. Em 1987 com a venda de todos os quadros de uma exposição, ele amealhou US$ 2,5 mil e, pretendia viver em Londres, mas foi estudar técnicas de gravura e pintura em Paris.

''Em Paris, reencontrei um casal que havia conhecido em São Paulo e eles me ofereceram um quarto no apartamento deles'', conta. Lá ele expõe na Escola Molière. Em Paris, ele foi apresentado a um marchand, que passou a vender seus quadros.

Depois de dois anos na França, foi para os Estados Unidos, acompanhando um amigo americano. Lá, desembarcou em Nova Iorque, achou tudo muito feio e seguiu para Charlotte, cidade de 440 mil habitantes na Carolina do Norte, onde além de continuar a pintar revela que estudou inglês e trabalhou cuidando de jardins de conhecidos, “destruí muita flor'', diverte-se.

Em 1993, três anos após sua chegada aos EUA, resolveu tentar a sorte como artista plástico em Nova York. Um amigo, de novo, deu a mãozinha providencial. No caso, Paul Eustace, então diretor de arte da Harpers Bazaar. Foi Eustace quem convenceu o brasileiro, que sempre assinou G. Rodrigues por vergonha do nome, a assumir o Geová. Deu sorte.

Por intermédio de Eustace, o pintor conheceu fotógrafos e produtores de moda e começou a fazer bico para a turma. Batendo perna para buscar e levar roupas a ser fotografadas, Rodrigues percebeu que o lixo da 6ª Avenida (batizada de Fashion Avenue por concentrar dezenas de confecções) era abarrotado de tecidos descartados dos ateliês de Calvin Klein, Anna Sui e Donna Karan.

Em 1994 ele adquiriu uma máquina de costura de um amigo como pagamento por um de seus quadros e decidiu virar estilista. Passa a produzir suas roupas guiado pela "desconstruction costure" ou “redesign”, movimento da moda cuja principal característica é redesenhar roupas de grandes criadores. Ele cria suas roupas e assessórios a partir de materiais nobres como chiffon de seda e couro. Ele se apropria de peças de marcas como Prada, Jean Paul Gautier, Yves Saint Laurent, que são desconstruídas e reformuladas com outro design. Assim, uma saia pode se transformar em uma blusa, uma blusa adaptada para um vestido, e assim por diante.

''Eu tinha trocado um quadro por uma máquina de costura, mesmo sem nunca ter pregado um botão, e comecei a fazer roupas na marra'', lembra. O trabalho do autodidata encantou os amigos produtores, que o incentivaram a fazer um desfile. O début, em outubro de 1998, não poderia ter sido mais bem-sucedido: a coleção foi vendida imediatamente para a sofisticada loja Louis Boston, em Boston. ''Um luxo'', diz Rodrigues, usando sua palavra preferida. Em seu primeiro desfile de estréia estavam presentes, dentre outros, a modelo Naomi Campbel. A supermodelo Kate Moss é uma de suas clientes. As modelos, alias, adoram participar de seus shows, mesmo recebendo roupas em vez de cachê.

Fernanda Tavares

Geová fez um desfile em Nova Iorque em 11 de fevereiro de 2001 patrocinado pela Ford americana. Quase um mês depois ele, junto com a modelo natalense Fernanda Tavares, foi entrevistado pela MTV brasileira e lançou uma coleção no circuito alternativo da 7th on Sixth de Nova York, a Semana de Moda de Nova York.

A modelo Fernanda Tavares é uma grande amiga do estilista. Inclusive, na tarde do dia 25 de dezembro de 2003, ela esteve visitando Barcelona em companhia de seu pai, Fernando Luiz e de seu irmão. A modelo veio conhecer, além da terra e da família de Geová, também Dona Bita, uma velhinha que fazia as bonecas de pano nas quais ele se inspira para fazer as sua criações. Fernanda também fotografou a cidade e visitou a escola onde Geová estudou. Na opurtunidade foi-lhe entregue para que fizesse chegar a Geová um troféu que o estilista havia ganho, como sinal de reconhecimento de seus conterrâneos, durante as comemorações do Dia de Barcelona (ano de emancipação política do município) em 17 de dezembro. As quais ele não pode comparecer.

A ascensão do designer continua nos anos seguintes e ainda hoje, quase desconhecido pelos brasileiros, Geová é disputadíssimo em editoriais de moda de revistas como Baazar, ID, The Face, Interview e Elle. O estilista barcelonense já tem um escritório de representação, o Fashion Brasil e pretende ampliar seus domínios. Umas das coisas que mais chamam a atenção em Geová é que ele nunca esquece Barcelona. E sempre cita com muito carinho sua terra quando dá entrevistas. Inclusive ao propor peças inspiradas no que Barcelona e Nova Iorque tem em comum...Coisas de artista!


...visite o site do artista...
www.geovafashion.com

UMA DIVA CHAMADA MARIA

Uma mulher que marcou profundamente uma fase da vida da cidade do Natal

MARIA BOA

Maria Oliveira de Barros (Campina Grande, PB, 24.06.1920 – Natal, 22.07.1997), proprietária da mais famosa casa noturna de Natal. Maria Boa veio para Natal na década de 40, em plena juventude, na fase áurea dos americanos.

Segundo se informa, teria se exilado de Campina Grande por conta de um desentendimento amoroso com influente político paraibano.

Pessoa de pouco estudo em sua infância, mas bastante inteligente, a nossa biografada, que descendia de família humilde, trabalhou em sua adolescência numa tipografia, o que lhe teria despertado o gosto pela leitura.

Possuía uma biblioteca razoável e arquivava reportagens publicadas nas revistas sobre pessoas famosas. Além disso, gostava de música e cinema. Aquilo que o destino lhe negou – a possibilidade de concluir seus estudos – ela procurou oferecer aos filhos e aos seus familiares, permitindo-lhes acesso à Universidade.

Proprietária do mais famoso cabaré da cidade, que não tinha um nome específico, sendo conhecido no Brasil e até internacionalmente pelo nome de Casa de Maria Boa, no qual pontificava outra figura famosa das noites natalenses, o pianista Paulo Lira.

Mesmo tendo um temperamento reservado, Maria Boa marcou profundamente uma fase da vida da cidade. Deu apenas uma entrevista em toda a sua vida, à professora da UFRN, Maria Emília Wanderley, para um filme que se pretendia rodar em Natal, não permitindo, no entanto, que a conversa fosse gravada.

Vivendo uma época de repressão absoluta ao sexo, a casa de Dona Maria Barros funcionou, igual a tantas outras, como uma válvula de escape aos anseios amorosos da juventude masculina e, até mesmo, de maduros cidadãos da vida natalense.

Entretanto, a Casa de Maria Boa não era apenas isto. Sua fama corria mundo e, muitos visitantes ilustres que aportavam em nossa cidade, eram convidados pelos amigos para uma noitada em Maria Boa, não apenas um simples cabaré, mas uma referência turística da cidade.

A aura em que procurou envolver sua vida e as atividades de sua casa, transformaram-na num mito. Após sua morte, os jornais de Natal dedicaram-lhe páginas inteiras, ressaltando declarações de amigos seus, externando admiração pelo comportamento de Maria Boa.

Como registrou o jornalista Cassiano Arruda Câmara, "A morte de Maria Oliveira de Barros, certamente não vai matar a fama de Maria Boa, cuja lenda estará nas telas do cinema. No filme "For All – O Tampolim da Vitória", a personagem central, muito à propósito, é chamada de Maria Buena".

A PRIMEIRA DAMA DE NATAL

Natal, década de 40, a cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vida dos natalenses. Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros (Maria Boa). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do estado.

Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.

Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura. O seu "estabelecimento" era o refúgio aos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal e servia de referência geográfica na cidade.

B-25, batizada de Maria Boa, uma homenagem dos seus clientes gringos

UMA JUSTA HOMENAGEM

Vários fatos envolveram a personagem. Um episódio muito comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificadas com cores características de cada Base Aérea. Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a cor verde. Os aviões de Recife, com a cor VERMELHA, e os de Fortaleza, com a cor AZUL. Para a Base de Natal foi convencionada a cor AMARELA.

Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia. Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres.

Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros. Outras aeronaves também receberam nomes como "AMIGO DA ONÇA" e "NEGA MALUCA".

Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição "MARIA BOA".

Maria Barros é história. Mesmo sendo paraibana é a Primeira Dama (ou anti-Dama) de Natal. Impera nas lembranças dos seus contemporâneos e se faz presentes nos prostíbulos que ainda resistem nas periferias da cidade ou travestidos de casas de "drinks" nos bairros mais nobres. Ela é citada no filme For All - O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado em 1997) de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz. O filme retrata a cidade do Natal em 1943 quando a base americana de Parnamirim Field, a maior fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.

Para a população local a guerra possuiu vários significados. A chegada dos militares americanos alimentou fantasias de progresso material, romance e, também o fascínio pelo cinema de Hollywood. Em meio aos constantes blecautes do treinamento antibombardeio, dos famosos bailes da base aos domingos, dos cigarros americanos, da Coca-Cola e do vestuário estavam os sonhos natalenses. Sem questionamentos, "Maria Boa" foi uma das principais atrizes no elenco desse belicoso teatro. A Primeira Dama Maria Boa...

..fontes...
"Maria Boa"
texto original de Deífilo Gurgel*
www.guiademidia.com.br

"A Primeira Dama de Natal"
fragmentos do texto original de José Correia Torres Neto *

...fotografias...
autoria desconhecida

UM HERDEIRO DA XILOGRAVURA

O artista desenvolve suas atividades junto aos poetas cordelistas

ERICK LIMA
HERDEIRO DA XILOGRAVURA

Por
Maria Betânia Monteiro

As paisagens do sertão nordestino misturadas aos elementos do imaginário popular, como lobisomens, sereias aladas, cavalos de fogo, são impressos com freqüência nos livros de cordel a partir da técnica da xilografia. A técnica milenar surgiu como recurso de reprodução de impressos e ganhou status de arte nas mãos de grandes pintores europeus. Aqui no Nordeste a xilografia se popularizou e vem sendo preservada por grandes mestres, como o pernambucano J. Borges, considerado o maior gravador popular em atividade no Brasil.

Herdeiro desta tradição e ao mesmo tempo rompendo com ela, o jovem xilógrafo potiguar de 26 anos, Erick Lima, realiza cursos nas escolas públicas de Natal e região metropolitana com o objetivo de divulgar a técnica e a história da xilografia para adolescentes. As oficinas acontecem nas escolas públicas de todas as zonas de Natal e na Região metropolitana, como Parnamirim, Ceará-Mirim, Extremoz, São José de Mipibu e Nísia Floresta. “Antes da oficina eu entro em contato com os professores, para que possamos planejar a inserção do conteúdo na sala de aula”. No dia da oficina é feita uma contextualização histórica e em seguida os alunos põem a mão na "massa".

O xilógrafo diz que ao levar a xilografia e o cordel para as escolas, também está levando um pouco de história e das manifestações populares do estado. Afinal, nas páginas dos livretos é comum encontrar a história de nomes importantes, como de médicos, cangaceiros, artistas e de manifestações como o Boi de Reis e as procissões.

Em suas pesquisas Eick lima descobriu que nomes importantes das artes visuais no mundo usaram a xilografia como recurso. Um deles o norueguês Munch, que pintou a célebre obra O Grito (óleo e pastel sobre o cartão). Os trabalhos feitos no nordeste utilizam a mesma técnica difundida no século VIII, mas imprimem o modo particular do seu povo. A divulgação da xilografia nordestina veio depois de percebida a semelhança entre as gravuras populares feitas pelos xilógrafos e a arte européia. “A xilografia só foi popularizada depois que pesquisadores apontaram semelhanças com o movimento expressionista europeu e passaram a citar as obras em seus trabalhos acadêmicos”.

XILOGRAVURISTA DE MÃO CHEIA

Natural da cidade de Natal-RN , o artista plástico Erick Lima, especializado na xilogravura, vem desenvolvendo suas atividades junto aos poetas cordelistas da Casa do cordel. Em seu ateliê são produzidas gravuras para ilustrações de folhetos, livros, discos, camisetas, cerâmicas decorativas, além de trabalhos sob encomenda, como retratos.

Erick Lima começou a trabalhar sistematicamente com a xilografia apenas em 2007, apesar do pouco tempo dedicado a arte, o jovem que é estudante de Ciências Sociais da UFRN, está imerso no universo da cultura popular nordestina desde a infância. Ele é filho de Erivaldo Leite de Lima, conhecido como Poeta Abaeté, um cordelista atuante no Estado. “Meu pai é de Sertânia, interior de Pernambuco e produz cordel há muito tempo. Ele veio para Natal há quase 30 anos”, disse Erick. E foi para ilustrar as histórias do pai e de seus amigos, que ele fez as primeiras matrizes em madeira.

Os cenários representados em seu trabalho surgem tanto de sua memória da infância, já que na companhia do pai viajou por municípios do sertão nordestino, quanto dos textos dos cordelistas. “Os autores de cordel às vezes viajam na construção do texto. Nestas horas eu não posso fazer as gravuras a partir da minha memória, faço a partir dos textos”, disse.

Para fazer as matrizes em madeira, Erick utiliza ferramentas industrializadas, como as goivas e outras artesanais, como estiletes e pontas de faca. Dependendo do tamanho, o artista leva cerva de uma hora entre lixar a superfície da madeira, desenhar, entalhar e banhar o suporte com tinta de impressão gráfica.

Erick precisou pesquisar na internet sobre xilogravura e bater um papo com aristas que dominam a técnica. A curiosidade do jovem foi tanta, que ele percorreu quilômetros para encontrar dois grandes mestres da xilografia popular. Na cidade de Bezerros, interior de Pernambuco ele conheceu J. Borges, considerado o maior gravador popular em atividade no Brasil e em Caruaru conheceu Seu Dila, o mestre de J. Borges.

A partir das pesquisas e do contato com os mestres, Erick começou a elaborar os seus primeiros trabalhos. “Os cordelistas me pressionavam muito, chegavam para mim e diziam: você tem que fazer isso direito para ilustrar os cordéis”. Dessa pressão nasceu o artista e o difusor da arte e da técnica da xilogravura popular.

XILOGRAVURA

A xilogravura é a técnica da gravura em que se utiliza uma matriz em madeira para a obtenção de reproduções da imagem gravada.O suporte, em geral, é o papel.

O primeiro vestígio da xilografia data do séc VIII na china, com a reprodução de imagens budistas e livros xilográficos.A gravura Europeia data do séc.XIV.A mais antiga xilo Europeia que se conhece e a "Bois protat" de 1370.

No Brasil a xilografia chega sistematicamente com a vinda da família real em 1808, que trouxe consigo a imprensa régia, que dispunha de muitas matrizes xilográficas.

A xilo foi utilizada por muito tempo para ilustrações de periódicos como jornais.Um exemplo é o Jornal "O mossoroense".Um dos mais antigos jornais em atividade no Brasil, continha xilogavuras como vinheta e ilustrações,elaboradas pelo seu dono João da Escóssia.

No nordeste brasileiro foi que se desenvolveu uma das mais singulares e representativas formas da xilo no mundo.A xilogravura popular ligada ao folheto de cordel adquiriu uma identidade própria.Geralmente feita pelos cordelistas, gerou grandes nomes com J.Borges,Abraão Batista e Dila.Influenciou grandes nomes das artes visuais como o gravador Gilvam Samico, que bebeu na origem da gravura popular para desenvolver seu traço.

...fonte...
Maria Betânia Monteiro
www.tribunadonorte.com.br
Guia Cultural Solto na Cidade - 16 a 30 jun/2010
www.casadocordel.blogspot.com

...fotografia...
Paulo Almeida

...serviço...
Xilogravuras de Erick Lima. Contato: (84) 8809-5178
www.casadocordel.blogspot.com
Casadocordel@hotmail.com

...visite...
Museu Casa da Xilogravura

SUPERAÇÃO QUE VEM COM A DANÇA

Vítima de câncer na infância, Mickaella Dantas perdeu parte de uma perna,
mas as limitações não a impediram de alçar vôos


SUPERAÇÃO QUE VEM COM A DANÇA
BAILARINA POTIGUAR É CONVIDADA PARA PROJETO EM LONDRES

Por

Sérgio Vilar

A bailarina potiguar Mickaella Dantas fará parte das atividades culturais dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. O convite partiu da companhia londrina de dança contemporânea composta por bailarinos com e sem deficiência, chamada Candoco Dance Company - uma das mais conceituadas do mundo no campo da dança contemporânea inclusiva. A experiência vivida por Mickaella é inédita para uma artista do Rio Grande do Norte. Um sonho idealizado por muitos desde o surgimento do projeto Roda Viva e da oportunidade de pessoas com deficiências ultrapassarem limites.

Mickaella nasceu em Cruzeta. Iniciou carreira de bailarina na Roda Viva Cia de Dança e foi uma das responsáveis pela criação e concepção da In Verso Cia de Dança. O convite surgiu a partir de uma apresentação de Mickaella no 1º Encontro Inclusivo de Dança (Encludança), realizado na Ilha da Madeira. Um dos diretores artísticos da Candoco, o brasileiro Pedro Machado assistiu, gostou e convidou a bailarina a integrar a companhia. "O fato de ele ser radicado no Brasil colaborou significativamente na comunicação e acordo do projeto", comentou.

Se o perturbador filme Cisne Negro (um dos favoritos ao Oscar 2011) retrata as dificuldades de uma bailarina profissional de ponta para alcançar o posto principal em uma peça aclamada, a realidade de Mickaella talvez seja mais difícil. É que o próprio corpo já traz limites de locomoção. Muletas e uma prótese ajudam. Isso desde os 11 anos, quando Mickaella precisou amputar a perna em decorrência de câncer no joelho. Desde então encontrou na arte uma forma de superação e expressão. E o balé foi a consequência. "Foi um percurso natural, do meu amor pela arte, especialmente pela dança".

Mickaella esteve em Londres de 1 a 19 deste mês, quando iniciou os ensaios para o espetáculo Candoco Unlimited. A bailarina potiguar é uma das 12 integrantes. "Trabalhar com a Candoco tem sido um prazer, pelo profissionalismo e dedicação com que cuidam da dança, e uma experiência importantíssima para a minha carreira". Ainda em 2011, ela participará também do projeto Perspectivas, dirigido por Carla Vendramin, em Porto Alegre (RS) - artista de referência na Dança Inclusiva.

...ENTREVISTA...

Mickaella Dantas, de Cruzeta às Olimpíadas. Como foi essa trajetória?

Posso dizer que essa trajetória foi uma construção. Primeiro eu nasci com o desejo maravilhoso de trabalhar com artes, me envolvi desde a infância com atividades artísticas, mas somente em 2006 conheci a dança contemporânea, em seguida entrei numa "escola" importantíssima para a Dança Inclusiva, o Roda Viva Cia de Dança, quando então escolhi seguir carreira artística, e então nasceu a In Verso Cia de Dança, que em parceria com a Studio Corpo de Baile amadureceram o meu ofício, me projetando além do Rio Grande do Norte.

O RN exporta bailarinos para o Bolshoi e outras companhias.
E a reclamação de falta de incentivos é notória. Não parece um paradoxo?


Não é um paradoxo, é uma questão de objetivo de vida e oportunidade. Eles aparecem e daí você corre atrás de subsídios que tornem a proposta Real. A escassez de incentivos é fato, incentivos que devem ser destinados ao fomento, à criação, e também à manutenção das atividades culturais e grupos. O importante éque haja recursos e a articulação destas informações com a comunidade artística, como também a abertura de empresas para projetos dessa natureza. A cultura é hoje um mercado, árduo, mas muito interessante e prazeroso.

No que consiste o projeto Candoco Unlimited?
Qual sua participação nesse projeto?


O Candoco Unlimited consiste na elaboração de duas pecas coreografadas pelo Marc Brew e a Clarie Cunningham, tendo a colaboração de um grupo de 12 bailarinos, na qual participo na condição de bailarina-intérprete, mais a equipe de produção escolhida.

Quando serão os primeiros ensaios e apresentações?

Cheguei em Londres no dia 1º de fevereiro, onde me encontrei com Carla Vendramin, artista com quem trabalharei no projeto Perpectivas, em Porto Alegre, em junho deste ano, juntamente com a bailarina Julie Claves a fim de iniciarmos as primeiras oficinas e produzirmos o material de divulgação. Um processo muito produtivo e prazeroso. Essa primeira etapa de ensaios com a Candoco iniciou em 7 de fevereiro e se estendeu até dia 19. Todos os envolvidos estão bastante empolgados.

Há limites para a expressão do corpo?

Para a expressão, não, mas acredito que tem limites para a movimentação do corpo. É algo da natureza humana. Porém, o que faz existir também o "depois do limite" é a criatividade do indivíduo e a capacidade de adaptação ao ambiente, o que reconstrói, destrói e gera outros limites. Os limites são temporários e instigadores.

O GUARDIÃO DO PASSADO E DO FUTURO

conheça um museu que existe apenas no ambiente digital

ADOBE MUSEUM OF DIGITAL MEDIA
GUARDIÃO DO PASSADO E DO FUTURO

Introduzido pela Adobe, o museu digital cataloga, exibe e comenta a mais recente produção artística digital de criadores do mundo inteiro. Trata-se da arte que não poderia figurar em museus tradicionais devido sua natureza digital. Assim, o AMDM foi projetado pelo arquiteto italiano Filippo Innocenti e o designer Piero Frescobaldi, pensado e construído de forma a oferecer uma experiência virtual dentro dos quatro cantos de sua tela.

Chamado de The Adobe Museum of Digital Media (AMDM), o museu foi desenvolvido com o objetivo de criar um ambiente interativo que reunisse trabalhos super inovadores baseado em suportes digitais. Foi lançado em outubro de 2010, mas só no mês de fevereiro ele estreou suas exposições on-line.

A primeira mostra oficial é uma exposição do videoartista Tony Oursler. Posteriormente, haverá uma exposição de John Maeda e Mariko Mori. A curadoria é do britânico Tom Eckler. No museu é possível encontrar depoimentos em vídeo do curador e um depoimento do próprio Tony Oursler. Tony criou uma exposição especialmente para o edifício virtual criado pelo arquiteto italianao Filippo Innocenti.

A Adobe sai na frente ao criar um marco no universo digital. O Adobe Museum Of Digital Media (AMDM) é um espaço virtual alucinante que além de divulgar e preservar o trabalho inovador digital, apresenta comentários de especialistas sobre como a mídia digital influencia a cultura e a sociedade. O museu é um repositório de constante atualização. Para inspirar a evolução digital disso tudo, as exposições são supervisionados por curadores convidados; cada um deles é um líder reconhecido no campo da arte, tecnologia ou negócios.

Um museu aberto ao público 365 dias por ano e é acessível de qualquer lugar do mundo. Faça o cadastro no site com email e username quando visitar o AMDM e poderá ver entrevistas especiais com curadores e artistas, terá acesso a exposições adiantadas, acesso a seminários e eventos exclusivos.


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Merion Evangelista
Paula Alzugaray
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museu de mídias digitais da Adobe e Google
dsponibiliza navegação por galerias de 17 grandes museus

VALLEY-TONY OURSLER
GOOGLE ART PROJECT

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JÚLIA AUGUSTA DE MEDEIROS
ROCAS-QUINTAS


Por

Itaércio Porpino

Natal, década de 60, em algum lugar entre os bairros das Rocas e Quintas. Garotos se divertem provocando uma senhora trôpega, suja e maltrapilha. Os meninos fazem coro: "Rocas-Quintas"! E ela, com o dedo em riste, revida: "Me respeitem, que eu tive vida importante"! A zombaria continua, e a mulher, que se tornou folclórica por fazer todo santo-dia, a pé, o mesmo itinerário da linha de ônibus Rocas-Quintas (daí o apelido), retoma as passadas ligeiras e nervosas, parando sempre para catar lixo e restos de coisas podres.

Caicó, final da década de 50. Júlia Augusta de Medeiros, uma das mulheres pioneiras no jornalismo e na educação no Rio Grande do Norte nos anos 20, feminista, mulher de idéias avançadas, com participação destacada na vida pública e política do RN, tendo sido uma das primeiras mulheres a votar no Estado e exercido dois mandatos como vereadora, começa a apresentar lapsos de memória e a perder a sanidade mental. O estado de saúde vai se agravando e ela, que desafiara a sociedade assumindo uma postura ousada, termina seus últimos anos deprimida em Natal, no mais completo ostracismo, perambulando pelas ruas feito mendiga.

Júlia Medeiros, educadora e jornalista que um dia teve lugar cativo nas rodas de intelectuais, gozando da amizade e apreço de gente como Câmara Cascudo e Palmira Wanderley, é a mesma Rocas-Quintas. Em um minucioso trabalho investigativo, o jornalista natalense Manoel Pereira da Rocha Neto, conseguiu unir os dois capítulos extremos dessa história e contá-la na íntegra pela primeira vez. "Júlia teve um passado obscuro, que ficou perdido, pois enquanto Rocas-Quintas ela falava quem tinha sido e ninguém acreditava. As pessoas a insultavam e a depreciavam", diz Manoel.

O objetivo de sua tese de doutorado no Departamento de Educação da UFRN, dentro da base de pesquisa Gênero e Práticas Culturais, era (e foi) falar das práticas pedagógicas de Júlia enquanto educadora, mas o jornalista acabou também mergulhando fundo na vida da personagem à medida que descobriu história tão rica e dramática.

O autor, além de conseguir conceito máximo com a tese, acabou quitando uma dívida com a memória de Júlia Medeiros. "Em cinco anos de pesquisa, não encontrei quase nada em livro, a não ser algumas poucas citações, e também uma monografia do curso de História, em Caicó, sobre Júlia, mas muito superficial. A casa em que ela morou em Caicó foi demolida e no lugar existe atualmente uma boutique. Já a casa em que ela viveu em Natal, na rua da Misericórdia, Cidade Alta, foi demolida para a construção de uma praça. Até o túmulo e seus restos mortais, no Cemitério Parque, em Caicó, foram violados e extraviados. Ela não tem direito sequer a ser lembrada como cidadã no Dia de Finados. Em sua cidade natal, deu nome a uma rua e a uma escola. Foi só", fala.


A história de Júlia Medeiros, do nascimento à morte (1896 a 1972), foi totalmente reconstituída pelo jornalista Manoel Pereira da Rocha Neto e contada com riqueza de detalhes em seu trabalho. A maior parte das informações ele coletou com pessoas que foram vizinhas de Júlia, em Caicó e em Natal, e com os ex-alunos dela. "Foi uma pesquisa difícil. A família dela ofereceu muita resistência. Somente uma sobrinha sua, Julieta Dantas, que vive em Caicó, ajudou, cedendo inclusive um farto material fotográfico", conta Manoel, que chegou a pagar para conseguir uma cópia do atestado de óbito de Júlia Medeiros/Rocas-Quintas.

"A família não quis ceder, então fui até o 4º Ofício de Notas e paguei por uma cópia", conta Manoel. O laudo deixa em dúvida se Júlia cometeu suicídio, mas o jornalista acredita que ela tenha mesmo se matado. "Acho que o ostracismo e a depressão contribuíram para isso. Há um detalhe importante: Júlia morreu na madrugada do dia seguinte ao seu aniversário. Acho que em sua loucura ela pode ter tido um momento de lucidez e lembrado a data".

E esse não teria sido o único momento de lucidez em sua fase de loucura e mendicância. Certa vez, conta Manoel, ela ficou parada observando por bastante tempo a vitrine de uma loja de roupas. Quase foi presa ao tentar entrar. Isso só não aconteceu porque na hora passou uma pessoa de Caicó que a conhecia e contornou a situação. "Penso que ela estava recordando sua época de moça. As moças da alta sociedade caicoense só vestiam as roupas feitas por Maria do Vale Monteiro, costureira mais famosa da cidade. Mas antes Júlia tinha que vestir e aprovar. Por causa do corpo bem feito, ela era uma espécie de manequim no município".

O jornalista conta que, antes disso, Júlia havia adquirido uma máquina Singer pensando em fazer os próprios vestidos, como forma de relembrar a época áurea. Ela comprou em dez vezes sem juros, na Loja Natal, o que já era um sinal também de sua fragilidade financeira.

"Júlia veio para Natal já doente e, aposentada e deprimida, começou a perambular pelas ruas, levando sempre junto ao corpo um monte de penduricalhos. A cada dia seu estado mental ia se agravando. Ela já não cuidava da higiene, catava lixo e andava com roupas em trapos. Ninguém acreditava quando dizia ter sido uma pessoa importante", diz Manoel.

A aposentada Lúcia Bruno Damasceno mora na rua da Misericórdia, onde Rocas-Quintas viveu de 1960 até 1972, e confirma a informação do jornalista: "Ela vivia na rua catando coisas e entulhava tudo num porão em casa. Costumava dizer que foi uma mulher de destaque em Caicó, mas ninguém acreditava".

O TRISTE FIM DE JÚLIA AUGUSTA OU ROCAS-QUINTAS

Exceção entre as meninas de seu tempo, Júlia Medeiros teve a sorte de pertencer a uma família abastada e de visão pedagógica diferente da maioria das famílias do início do século 20. O pai, Antônio Cesino Medeiros, detentor de grandes propriedades de terra em Caicó, sendo a maior e mais próspera delas a fazenda Umari, onde Júlia nasce no dia 28 de agosto de 1896, cuida desde cedo para que a filha tenha acesso à educação. A menina aprende as primeiras letras em casa com um mestre-escola e depois é mandada para estudar em Natal.

Júlia deixa Caicó no ano de 1910. Com 13 anos, enfrenta uma jornada de oito dias em lombo de burro. Era uma comitiva em que estavam outras duas moças, Olívia Pereira e Maria Leonor Cavalcanti. A futura feminista hospeda-se em uma casa na Ribeira - a do professor de português João Vicente - e passa a estudar no Colégio Imaculada Conceição, onde conclui o ginásio. Em 1920, faz a seleção para a Escola Normal de Natal.

Forma-se em 1925 e, um ano depois, volta a morar em Caicó, passando a lecionar no Grupo Escolar Senador Guerra, a mais conceituada instituição de ensino do município. A essa época já escrevia para o "Jornal das Moças", periódico que logo passa a redigir sozinha com a saída da fundadora, Georgina Pires. A publicação, um marco no jornalismo feminino no Rio Grande do Norte, dura de 1926 a 1932.

Júlia Medeiros também já participava ativamente da vida pública de Caicó, envolvida com a elite intelectual e política da cidade. Ela foi amiga, entre outros, de Juvenal Lamartine, senador e governador em meados da década de 20, e de José Augusto Bezerra de Medeiros, governador que dominou a política no RN até 1930.

Considerada exímia oradora, Júlia notabiliza-se por questionar, em seus discursos de improviso, a condição da mulher da década de 20 - cuja vida resumia-se aos afazeres domésticos. Em suas falas em público, exigia, principalmente, o direito à educação e à cidadania. Sua amizade com a feminista Berta Lutz e suas idas ao Rio de Janeiro - onde tomava conhecimento da modernidade - fortaleciam ainda mais seus ideais. Júlia choca a sociedade caicoense com seu comportamento avançado. Ela passa a usar roupa preta - cor condenável a não ser em ocasião de luto - calça jeans e costas nuas. Ao aparecer nas ruas dirigindo um automóvel - um ford 29 (baratinha) que compra no Rio de Janeiro com dinheiro do próprio trabalho - promove um escândalo. Choca mais uma vez a sociedade ao recusar um pedido de casamento e ao ir morar sozinha, na casa de número 157 da rua Seridó.

O preço da "ousadia" acaba sendo alto. Júlia passa a ser excluída e alvo de preconceito. Na rua, é perseguida pelas crianças, que entoam uma cantoria assim: "Júlia Medeiros no seu carro ford, virou a princesa do caritó".

Antes de aposentar-se como professora, em 1958, se candidata a vereadora, sendo eleita para dois mandatos, de 1951 a 1954 e de 1954 a 1957. É nesse período que começa a apresentar lapsos de memória e a ficar perturbada mentalmente. Em 1960, a família a leva para Natal, entendendo ser essa a melhor opção. Júlia passa a morar sozinha, por vontade própria, em uma casa de frente para o rio Potengi, na rua da Misericórdia. Seu quadro de saúde vai se agravando e, na madrugada do dia 29 de agosto de 1972, aos 76 anos, morre como a mendiga Rocas-Quintas. Louca, pobre, esquecida e insultada; excluída da sociedade e da história.

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Itaércio Porpino
(jornal Tribuna do Norte dição de 18 de setembro de 2005)