fevereiro 09, 2012

A ARTE DE ESCULPIR "FORMAS"

 DEMÉTRIUS COELHO
Carreira e reconhecimento do potiguar que extrapola divisas e fronteiras

FORMAS DO FIM DE SEMANA

O escultor potiguar Demétrius Coelho é acostumado a observar a beleza das formas em tudo que vê.  Tem 25 anos de carreira e já participou de mais de 250 exposições no Brasil, e em países diversos como Itália, Bélgica, Portugal e Alemanha. As obras produzidas por ele são reconhecidas pelas formas orgânicas, pelo domínio de uma técnica diferenciada, além de uma originalidade reconhecida internacionalmente. Para produzir  as obras ele usa diferentes materiais como ônix, mármore, resina ou madeira de demolição.

Assim, na combinação de matérias-primas, surgem as formas de suas esculturas, carregadas de referências que remetem à cultura de seu estado de origem, mas que se expandem com uma tendência plural. As peças de Demétrius Coelho possuem luz própria e deixam a simples esfera dos objetos para alcançar o estado da arte, numa reunião de significados que dão uma unidade a um trabalho em constante evolução.

O escultor mostra que não há limites para a experimentação - e o bom gosto. Quando não está dando forma às suas peças, Demétrius aproveita para apreciar o que Natal tem de bom, seja no litoral - de onde possivelmente tira inspiração para seus relevos modernistas - ou nos agradáveis bares e restaurantes da capital. Há momentos para apreciar uma obra e outros para desfrutar delas.

 

A hora do passeio para espairecer é importante. Os cenários ao ar livre favoritos de Demétrius ficam entre a enseada de Tabatinga, Búzios e Pipa, quando o assunto é litoral. Já em território urbano, o escultor recomenda a natureza do Parque das Dunas. No momento de degustar uma boa refeição, ele tem preferência pela culinária internacional. Estão entre suas dicas, para almoçar ou jantar, casas estimadas como o Guinza, de onde ele recomenda a lagosta ao termidor; o fino Agaricus, de onde ele pinça o cordeiro; o lusitano Abade, com seu bacalhau imperial como um dos favoritos, e  o belo Manary, de onde ele indica o camarão no provolone. O Manary, além do excelente cardápio, conta com um agradável espaço com vista para o mar de Ponta Negra. 

Quanto aos bares favoritos para beber, degustar um bom petisco e encontrar os amigos, Demétrius recomenda o Cervantes, com suas carnes e churrascos no capricho, e o Shock Bar, especialista em petiscos com frutos do mar - além de uma trilha sonora ao vivo com banda todos os fins de semana.

Nos momentos caseiros, Demétrius afirma que recorre a umas boas sessões caseiras de cinema, e leitura. Para a sétima arte, o escultor dá preferência a filmes de aventura, ação e suspense, como "Os infiltrados" (de Martin Scorsese), "Bem vindo à selva" (de Peter Berg) e "300" (de Zack Snyder). "Nos momentos de leitura, tenho preferência por autobiografias", afirma. Mesmo assim, ainda guarda espaço para um "A Arte da Felicidade: um manual para a vida", o clássico do Dalai Lama.

Indagado sobre o que sente falta na programação de lazer e cultura da cidade, Demétrius Coelho é enfático. "Gostaria que houvesse mais exposições de artes plásticas, já que temos artistas excelentes para serem mais apreciados pelas pessoas. Aliado a isso, mais movimentos culturais, que destacassem nossa arte em todos os segmentos. Infelizmente, ainda acho que é feita pouca coisa por aqui nesse sentido", conclui.


...fonte...

fevereiro 08, 2012

O GUARDIÃO DO CANCIONEIRO POTIGUAR

Deífilo estudou e documentou o folclore nordestino há mais de três décadas
e lamentou  o desinteresse da população pelo folclore. 
Ele, porém, não desistiu.
 fotografia: Giovani Sérgio

 O DERRADEIRTO VERSO DO FOLCLORISTA

Por
Tádzio França e Yuno Silva
Repórteres
Cinthia Lopes
Editora
Tribuna do Norte

"Este foi um homem feliz. / Trabalhou em silêncio, / sua ração cotidiana / de humildes aleg(o)rias // Nunca o seduziu a glória dos humanos / Nem a eternidade dos deuses. // Fez o que tinha de fazer: / repartiu o seu pão entre os humildes,  / defendeu como pôde os ofendidos,  / semeou esperanças entre os justos, / e partiu, como tinha de partir / feliz com sua vida e sua morte." 

O poema "Epitáfio", escrito em 1994 por Deífilo Gurgel, 85. comprova que o próprio poeta, escritor, pesquisador, professor e folclorista tinha a certeza do dever cumprido há quase duas décadas. E isso, de certa forma, conforta.

Falecido às 11h50 desta segunda-feira (6), após 16 dias internado na UTI do hospital PAPI, em decorrência à falência múltipla de órgãos, Deífilo foi velado e sepultado ontem no Cemitério Morada da Paz, em Emaús. Último elo legítimo entre passado, presente e futuro, o folclorista cumpriu a missão de registrar para a posteridade capítulos importantes de uma tradição intimamente ligada à formação da identidade cultural do povo potiguar. Seu trabalho está impregnado de uma insubstituível sabedoria oral. Deífilo deixa a esposa Zoraide de Oliveira Gurgel, 9 filhos, 17 netos e 6 bisnetos. Ficam também, em caráter inédito, as obras "O Romanceiro Potiguar",  (finalizado, mas sem data de lançamento pela Fundação José Augusto , "No reino de Baltazar" e "O Diabo a quatro". 

 Cursando   Direito; um dos seus professores foi Câmara Cascudo
- com quem futuramente teria um belo trabalho em comum
fotografia: Alex Régis

O POETA E O PESQUISADOR

Deífilo Gurgel se dizia, como Cascudo, um "provinciano incurável". A afirmação tinha mais a ver com a paixão que ele nutria pela cultura de sua terra do que com algum tipo de conservadorismo. Em Areia Branca, onde nasceu, já se via fascinado pelas apresentações de Pastoril e Bumba Meu Boi. Mas até então eram só lembranças de criança. Quando o folclore passou a ser o motivo maior da vida do poeta, escritor e advogado, o próprio Deífilo foi incorporado à história que ele tanto pesquisou e enriqueceu ao longo de 40 anos de trabalho.

Aos 18 anos Deífilo deixou Areia Branca e veio estudar em Natal, no velho Atheneu da Cidade Alta. Corria o ano de 1944.  Já nesse período escrevia sonetos que eram publicados nos suplementos literários da época. O único lazer era jogar sinuca no Café Grande Ponto, antes de ir pra casa. Em 1951 se casa com Zoraide Gurgel, com quem teve nove filhos. Durante a década de 60 Deífilo cursou a Faculdade de Direito; um dos seus professores foi Câmara Cascudo - com quem futuramente teria um belo trabalho em comum.

A primeira faceta de Deífilo foi a de poeta. No território dos versos lançou os livros "Cais da ausência" (o primeiro, em 1961), "Os dias e as noites", "Sete sonetos do Rio e outros poemas", "Areia Branca, a Terra e a Gente", e "Os bens aventurados".  A prosa veio depois, em forma de pesquisa. O interesse profundo pelo folclore só veio em 1970, quando ele já estava com 44 anos, época em que atuava como diretor de cultura pela prefeitura de Natal. O até então poeta foi incumbido pelo município de organizar um grupo de artistas para um show folclórico. Deífilo foi para São Gonçalo do Amarante e, entre as coloridas fitas esvoaçantes dos galantes, encontrou um novo motivo de fascínio.

"Fique maravilhado e decidi estudar. O primeiro livro sobre o assunto que eu li foi 'Danças Dramáticas do Brasil', de Mário de Andrade. Mário era um gênio!", declarou ele em uma entrevista à poeta Marize Castro, em 2001. Aliás, um dos maiores motivos de orgulho para Deífilo enquanto folclorista teve a ver com a obra de Andrade. A história começa na década de 20, época em que o escritor paulista esteve no Rio Grande do Norte para uma pesquisa etnográfica. Em Pedro Velho, Andrade conheceu Chico Antônio, um dos mais hábeis emboladores de coco que já havia visto. Registrou tudo devidamente em seus livros.

Anos depois, entre 1979 e 1981, Deífilo iniciou um extensa pesquisa sobre as danças folclóricas do RN, viajando por todo o Estado. Ao passar por Pedro Velho, na reta final da viagem, recebeu a dica de um morador sobre um certo embolador de coco "muito bom". Qual a surpresa de Deífilo ao ver que o tal coquista era Chico Antônio, o mesmo que encantou Mário de Andrade 50 anos atrás. O folclorista levou Chico para uma apresentação no programa Som Brasil, cuja apresentação mereceu aplausos de pé.

Outro orgulho de Deífilo foi ter descoberto a maior romanceira do Brasil, Dona Militana, em São Gonçalo do Amarante. O folclorista já havia conhecido o pai dela, no mesmo período em que fazia as pesquisas sobre as danças, nos anos 70. Deífilo registrou em seu gravador séculos de uma tradição oral ibérica, trabalho que o estimulava mais do que tudo. "O que me emociona e me encanta é pegar um gravador e uma máquina fotográfica e sair pelas vilas humildes, sítios e fazendas entrevistando pessoas simples que  sabem coisas que muita gente de academia não sabe", afirmou.

Deífilo Gurgel esteve  ligado por anos ao incentivo da cultura popular no Estado. Trabalhou como diretor do Depto de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Natal (SMEC), diretor de Promoções Culturais da Fundação José Augusto e presidente da Comissão Norte-rio-grandense de Folclore. Também foi professor de folclore brasileiro na UFRN por 12 anos.  Seu trabalho também trouxe à tona os trabalhos de mamulengueiro Chico Daniel e de Manoel Marinheiro. Entre os livros sobre folclore estão "Danças folclóricas do RN", "João Redondo - Teatro de Bonecos do Nordeste", "Romanceiro de Alcaçus", "Manual do Boi Calemba" e "Espaço e tempo do folclore potiguar". 

 Deífilo Gurgel
Na lista dos 100 poetas mais importantes de sua geração,
reconhecimento dado pelo crítico literário carioca Alexei Bueno
 fotografia: Alex Régis

FAMÍLIA DE DEÍFILO GURGEL PRETENDE CRIAR FUNDAÇÃO

Por
Yuno Silva

O semblante derradeiro de Deífilo Gurgel (1926-2012) é de descanso, paz e tranquilidade, e a simplicidade que sempre acompanhou o folclorista permanece no ar e comove amigos, familiares e admiradores. Saudado não apenas por sua obra e pelo que ela representa, mas, sobretudo, por sua humanidade, bom humor, sinceridade e compromisso diante das raízes da Cultura potiguar, Deífilo deixa várias lições e uma certeza: a de que há muito trabalho a ser feito. 

Prova disso é "Romanceiro Potiguar", livro pelo qual dedicou quase 30 anos de sua vida e que traz mais de 100 entrevistas e cerca de 300 romances ibéricos, bem como ligados à vida sertaneja e à pecuária, registrados entre 1985 e 1995, período que percorreu os rincões do RN munido de sua incansável vontade de revelar as pérolas que fazem do RN um dos grandes redutos do que há de mais original em termos de tradição. Deífilo deixou o título devidamente revisado e pronto para ser impresso.

"Papai se alimentava da cultura popular", disse Alexandre Gurgel, filho do pesquisador, durante velório ocorrido ontem no Cemitério Morada da Paz. "Seu maior receio era a descontinuidade do trabalho junto aos mestres e aos grupos populares", lembrou.

Segundo Alexandre, a família planeja criar uma fundação para cuidar do legado deixado pelo patriarca. "É uma questão de honra manter seu acervo e sua memória. Há livros e poemas inéditos, anotações e pesquisas que precisam ser organizados." Sobre a publicação de "Romanceiro Potiguar", editado com apoio da FJA, informou que "logo que passar esse momento" será organizada uma festa à altura da importância da obra, inclusive com participação de grupos tradicionais. Sem uma data definida, ele estima que em 30 dias deverá ter alguma definição. "Mamãe (Zoraide Gurgel) irá decidir a melhor hora", garante.

Na lista dos 100 poetas mais importantes de sua geração, reconhecimento dado pelo crítico literário carioca Alexei Bueno, Deífilo Gurgel exaltava a cultura e se configurava como "um sonetista centrado e desprovido da tendência do 'cerebrismo'. Ele preferia usar uma linguagem popular, acessível, e se destacava por tratar com naturalidade assuntos considerados tabus como a morte", ressalta o jornalista e escritor Nelson Patriota.

Nascido em Areia Branca e o mais velho de nove irmãos, Deífilo Gurgel "deixa um vácuo no cenário cultural", analisa o jornalista Tarcísio Gurgel, 66. "De sua geração, restam duas figuras importantíssimas: Dorian Gray Caldas e Sanderson Negreiros, baluartes que sustentam o elo entre as gerações." O caçula dos Gurgel se emociona ao lembrar da generosidade do irmão: "Seu humor contagiava, tinha um zelo pelas pessoas e pela Cultura que comovia; um mestre que vibrava junto sem passar a mão na cabeça. Lembro que quando ensaiava meus primeiros versos, me deu régua, compasso e um conselho: 'já pensou em escrever contos?' Tinha um senso acurado".  

"Amo-te muito, muito mais do que o tempo disser"
(Carlos Gurgel, poeta e filho do historiador Deífilo Gurgel)
 fotografia: Canindé Soares

ETERNAMENTE DEÍFILO

Por
Carlos Gurgel
poeta e filho do historiador

Papai sempre foi uma árvore. Frondosa, como uma sombra sábia e educada. Papai sempre se vestiu de paz e da alma do povo. Através do qual, produziu, por sobre milhares de revelações e descobertas, uma intensa luz, límpida e audaz, onde construiu seus castelos e abençoadas fontes.

Por onde andou, como um mártir de muitas estradas, buscou sempre o humilde, o raro, o inquebrantável canto de todos aqueles que fazem parte de uma enorme constelação, repleta de vida e anunciações.

Com seus olhos, percebeu que o mundo, assim como seus dias e suas noites, era como uma armadura, um farol, um porto, repleto de relíquias e reinados.

Foi assim, por um bom tempo, que palmilhou nosso chão, como um missionário espalhando seu suor e sorrisos. Um incansável, sempre, protegendo o desejo de todos aqueles recantos, quando se benzia e enfrenta o escuro e os seus dragões.

O amor de papai para tudo que reluz essência, raiz de uma gente, sempre fez dele um guerreiro, um solitário batalhador de loas, brincantes, romances, rezas, promessas e dos anônimos de uma roça onde se dança cheganças, e de pífanos que anunciam a disputa da celebração do amor e da amizade.

Com papai, todos esses caminhos foram trilhados. E como uma jura, ele fez do brilho das suas visitas e apontamentos, no meio das comunidades e sertões, o seu maior prêmio.

Humano ao extremo, uma criança tão dócil, que, ao primeiro encontro, já conquistava todos como se fosse uma grande confraternização do tempo e de tudo que lembra alegria e bondade.

Assim foi papai. Imenso no seu caráter. Um ser que vai fazer tanta falta, que nem imagino o que possa acontecer, quando o vento e os seus faróis, prenunciarem que a cidade e o seu povo, clamam por suas sandálias e seus garimpos.

Eu, como filho primogênito, ao invés de derramar lágrimas, sorrio; porque sei que lá do infinito céu onde papai se encontra, a folia que ele capitaneará, farão de todos os presentes, uma enorme chama, como deve ser para um homem que sempre procurou pelas palavras, como quem garimpa o ouro e o espírito de todo aquele que crê.

Pois tudo que ele pronunciou e criou, alimenta o coração do povo que ele tanto amou e entregou sua vida.

Amo-te muito, muito mais do que o tempo disser.


...fonte...
Tádzio França * Yuno Silva * Cinthia Lopes * Carlos Gurgel
www.tribunadonorte.com.br

...fotografia...
 Alex Régis
Canindé soaresGiovani Sérgio

 ...curiosidade...
Deífilo lançou  um livro em que não aborda tema folclórico, mas certamente escreveu com as tintas da emoção e recordação da terra onde nasceu:  “Areia Branca – A terra e a gente”. A obra é uma exaustiva pesquisa da geografia e da história da cidade (410 páginas). Detalhes pitorescos são contados e contribuem para uma visão sociológica e antropológica da zona salineira e parte do Oeste potiguar.

fevereiro 07, 2012

NO DIA EM QUE EU SAÍ DE CASA...

 Chicão e Matias saíram do RN e hoje estão no Grupo Rubaiyat

 UMA HISTÓRIA NASCIDA DO ENCANTO

 Por
 Cinthia Lopes

A história de Matias e Chicão bem que poderia estar em um livreto de cordel. Amigos de infância, eles nasceram no mesmo sítio, no município do alto oeste potiguar "Encanto". Pais agricultores, família numerosa que não cabe num alpendre. Poderiam ainda estar na mesma lida se o destino não tivesse dado conta de injetar uma boa dose de criatividade em suas vidas. Foram embora de casa no final da adolescência, tentar uma vida diferente na cidade grande. Primeiro um, depois o outro pegou o rumo de São Paulo. 

Quase três décadas depois, Chico é o Chef Francisco Gameleira, executivo de três badalados restaurantes do grupo Rubaiyat - entre eles o Figueira Rubaiyat (Haddock Lobo). Matias Carvalho, que saiu de Encanto aos 17 anos e deixou apenas a saudade e um jumento, é o nome por trás do sucesso de Cabaña Las Lilas, um dos mais conceituados restaurantes de Buenos Aires, pertencente ao mesmo grupo Rubaiyat, fundado por Belarmino Fernandez Iglesias.

Aliás, a trajetória de Belarmino poderia ser narrada nos mesmos versos não fosse pela descendência diferente. Um espanhol da Galícia que emigrou para o Brasil em 1951, começou a vida lavando pratos e construiu o que se pode chamar de um império gastronômico de proporções internacionais - seis restaurantes de alta gastronomia que atendem em média quatrocentas pessoas sentadas cada e possui 150 profissionais trabalhando só no salão de uma das casas. 

São quatro casas em São Paulo, uma na Espanha e outra na Argentina, uma fazenda, escola de excelência para formar profissionais da gastronomia... o gallego viu São Paulo virar metrópole, construiu um restaurante à sobra de uma figueira de 130 anos e ensina, ele próprio, as artes de receber a quem chega em seu restaurante pedindo emprego. Ao lado do filho, Belarmino Jr, são referências em serviços e no alto padrão de carnes nobres e cozinha mediterrânea. Em vez de comandar um batalhão de funcionários, forma profissionais altamente valorizados que fazem carreira dentro da própria empresa.

Quem diz é o próprio Matias: "Somos como uma grande família", conta o maitre, que está de férias por aqui e só parou em Natal depois de matar as saudades na Festa de São Sebastião de Encanto. "Deixei o sertão mas ele não me deixou. Trabalho de terça a domingo quando estou em Buenos Aires, e já viajei muito, mas gosto de ir para o interior de férias, aquela coisa de juntar a família numerosa para um churrasco", brinca. Filho de mãe professora, Matias conta que a mãe lhe encorajou a terminar o segundo grau em Pau dos Ferros. "Chicão foi primeiro a ir para São Paulo, depois fui eu".

Chicão entra na conversa: "Comecei minha vida profissional lavando panelas", relembra o profissional que hoje comanda os fornos mais cobiçados da cidade de São Paulo e coordena uma brigada de mais de 50 profissionais só na cozinha do Figueira Rubaiyat. Três filhos, esposa de raízes potiguares, Chef Chicão diz que "chegou aonde queria", mas ainda quer fazer mais antes de um dia pensar em se aposentar. Da mesma forma o Matias, maitre e gerente executivo do Cabanas Las Lilas, três filhos nascidos entre SP e Buenos Aires, esposa potiguar e morador do agradável bairro de Belgrano.

Além de conhecedor de vinhos, futebol e de boa gastronomia, Matias é lendário pela "onipresença". Se um cliente está em São Paulo e vai para Buenos Aires no feriado, se surpreende ao ser recebido com aquele habitual sorriso do maitre. "Em datas especiais, feriados, trazemos uma verdadeira 'tropa de choque' de São Paulo ou fazemos o caminho inverso. Tudo para surpreender o cliente", conta ele.

Chicão passou de copeiro a assistente de churraqueiro em pouco tempo. Desempenhou diversas funções e chegou a estagiar no Uruguai e na Espanha por alguns anos. Em 2001 foi convidado a integrar a chefia do restaurante A Figueira Rubaiyat. Aprendeu a cozinha mediterrânea e as artes das altas temperaturas com o argentino Francis Mallmann. É hoje quem acompanha e executa receitas impecáveis  e cortes nobres, como bife de chorizo, ojo de bife, pescados de España e receitas como o carpaccio de cogumelos, frutos do mar, como ostras, lulas e mexilhões. 

Já o restaurante comandado por Matias fica numa das áreas mais bonitas de Buenos Aires, Puerto Madero. Foi inaugurado em sociedade entre o Rubaiyat e Cabaña, empresa argentina de atividade agropecuária de alta excelência. Tanto Matias como Chicão desbravaram os primeiros anos do Cabaña, que atualmente é formado só por brasileiros, da cozinha ao salão.

Amigo de Matias há vários anos, o diretor da revista Deguste, Benício Siqueira, é suspeito ao falar sobre os dois: "A história deles é muito bonita. São pessoas que vieram de uma vida humilde e venceram na vida. Matias e Chicão estão num nível profissional e pessoal que pouca gente consegue chegar no ramo da gastronomia", diz Benício.  É peleja para contar em mais de um folheto.

...fonte...
Cinthia Lopes
editora

...fotografia... Rogério Vital

...visite...
Saiba mais sobre os restaurantes do grupo Rubaiyat
Cabaña Las Lilas http

fevereiro 05, 2012

COMO SE FOSSE UM FILHO...

 Branquinho, volta pra casa!

"Olhe no fundo dos olhos de um animal e, por um momento, troque de lugar com ele. A vida dele se tornará tão preciosa quanto a sua e você se tornará tão vulnerável quanto ele. Agora sorria, se você acredita que todos os animais merecem nosso respeito e nossa proteção, pois em determinado ponto eles são nós e nós somos eles." (Philip Ochoa)

edição especial

MULHER LUTA PARA EVITAR MORTE DE CÃO 

 Por
Nara Andrade
Da redação
do jornal  www.DeFato.com  - Mossoró/RN

"Como se fosse um filho". É assim que a dona de casa, Ana Valda do Monte, de 48 anos, define o seu cachorro chamado de Branquinho. Ela conta que há cinco anos, ganhou o cachorro de seu esposo, o técnico em eletrônica, Amadeu Augusto dos Santos, de 48 anos, com quem convive há 19 anos. "Ele chegou tão sujo, cheio de carrapatos. Desde então nós cuidamos dele como se fosse uma criança", explica.

No entanto, a dona de casa há um ano e cinco meses, enfrenta uma batalha judicial para evitar o sacrifício de Branquinho, que foi diagnosticado com Leishmaniose visceral, popularmente conhecida como calazar, em setembro de 2010. A dona de casa tem apenas uma filha, que já é casada, e além de Branquinho, possui uma cadela chamada Belinha. Ana Valda frisa que apesar de morar com o esposo e os dois cachorros em uma casa humilde, os animais sempre foram bem tratados. 

Uma vizinha do casal, que pediu para ter sua identidade preservada, diz que todo mundo sabe do amor que eles têm pelos dois cachorros.  "Ela diz a todo mundo que tem certeza que o Branquinho vai voltar. Que vai provar para todo mundo que ele não está doente. Mas, eu fico preocupada dele voltar, porque se estiver mesmo doente pode prejudicar todo mundo", comenta.

Quando recebeu o primeiro resultado do exame que atesta a positividade do calazar, Ana Valda do Monte se negou a entregar o animal e realizar a contraprova, que é um direito dos proprietários em casos dessa natureza.

A veterinária Edinaidy Menezes, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), explica que como ela se recusou a entregar o animal, o caso foi encaminhado para o Ministério Público, que iniciou uma Ação Civil Pública, e o Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, expediu uma liminar no dia 18 de abril de 2011, autorizando a equipe do CCZ a recolher o animal mesmo sem o consentimento dos proprietários. Desde então, Branquinho está sob guarda do Centro de Zoonoses.

A justiça também expediu uma ordem judicial para realização de mais dois exames, que foram feitos nos meses de junho e outubro do ano passado, em um laboratório de Minas Gerais, referência no país. Amadeu Augusto, diz que não acredita nos resultados dos exames realizados até o momento. Para ele, isso tudo começou de um problema com uma de suas vizinhas, que estava incomodada com o animal, e teria feito uma denuncia ao CCZ. 

"Essa vizinha quis me prejudicar, e o único jeito que arrumou foi falsificar o resultado do exame com a ajuda de conhecidos que trabalham na prefeitura", acusa. A dona de casa diz que só entregou o animal porque os técnicos do CCZ foram até a sua residência, que fica na Rua Major Altemberg de Melo, no bairro Santo Antônio, junto com vários policiais, que ameaçaram algemá-la. 

"Vou lutar até conseguir trazê-lo de volta para casa. Ele é um cachorro bem cuidado, aqui ele comia tudo do melhor. E desde que ele está lá no Centro de Zoonoses, eu vou duas vezes por semana, dou banho e fico lá com ele. No início levava a comida dele, mas disseram que tem ração para os animais que ficam lá", comenta.

JUIZ AFIRMA
QUE SUA DECISAO FOI PAUTADA EM DIREITO COLEITVO

O juiz, José Herval Sampaio Júnior, do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, diz que com base dos direitos assegurados pela Constituição Federal, as pessoas podem contestar quando acham que tiveram seus direitos violados. Esse é o caso da dona de casa Ana Valda do Monte, que se sentiu violada pelo Ministério Público, que moveu uma ação pedindo o sacrifício do animal diagnosticado com calazar.

Segundo o juiz, a decisão foi tomada, com base no direito coletivo, em nome da saúde pública, já que Mossoró é uma cidade com um número alto de casos de calazar, inclusive em humanos, registrando cerca de 50% dos casos do estado em 2011.

"Entendo que é muito difícil sacrificar um animal, principalmente, nesse caso que o cachorro não apresenta nenhum sintoma da doença. Mas infelizmente isso é preciso. A sentença já foi feita e o Centro de Zoonoses já pode realizar o procedimento de eutanásia do cachorro, que representa um risco iminente para os funcionários do local", enfatiza. 

Segundo o juiz, a dona de casa apresentou o resultado de um exame que nega a presença do protozoário causador do calazar no animal, mas que esse exame foi feito em um laboratório que não é credenciado no Ministério da Saúde e, por isso, não é reconhecido. 

IRMÃ ELLEN DEFENDE CASAL E QUESTIONA AÇÃO DO MP 
 
O casal, que tenta salvar o seu cachorro, conta com o apoio da freira franciscana, Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Irmã Ellen, afirma que Ana Valda a procurou chorando, muito nervosa, e contou o que estava acontecendo. 

"Ela é uma pessoa pobre, desamparada e está sofrendo muito com essa situação. Além do problema do cachorro, tenho me preocupado com a saúde de Ana Valda e do seu esposo, que estão adoecendo em decorrência do problema", explica.


A freira comenta que todo o processo envolve muitas contradições e não é confiável. Segundo relata a Irmã Ellen, além de ter havido uma confusão de endereços, na hora de recolher o cachorro de uma vizinha da família, ainda teve uma troca de datas, já que no processo tem uma data e o exame foi realizado em uma data diferente, e não consta o nome do agente responsável pelo procedimento. 


"Esse exame deu positivo, mas não é confiável, porque pode ter sido feito em qualquer outro cachorro. O branquinho não apresenta nenhum sintoma de cachorro doente e está sendo perseguido como se fosse um criminoso", frisa.


Para a irmã Ellen, o exame realizado pelo Centro de Zoonoses tem 40% de chance de erro. Ela também explica que em muitos países os animais com calazar não são sacrificados, passam por tratamento. 


"Aqui no país se mata qualquer cachorro. Isso deve acontecer por motivos econômicos, por ser mais prático diminuir a população de cães, do que tratá-los. Se esse cachorro representasse tanto perigo, já teria transmitido essa doença para os funcionários do Centro de Zoonoses", conclui

...fonte...
Nara Andrade

...fotografia...
crédito:

MANDANDO NOTÍCIAS DE LÁ

  DIALOGANDO COM O MUNDO
   O  premiado grupo Clowns de Shakespeare

DORES E CANTOS NA ALDEIA DE ALLENDE

 Por
Fernando Yamamoto
Diretor de Teatro - especial para o VIVER

Neste início de 2012 nós, dos Clowns de Shakespeare, fomos convidados para participar do festival Santiago a Mil, na capital do Chile, que aconteceu entre 3 e 22 de janeiro. O Santiago a Mil é, hoje, o principal festival de teatro da América Latina e um dos mais importantes do mundo. Pelas ruas e palcos santiaguinos passaram 67 espetáculos de 15 países da América do Sul, Europa e Ásia, num total de 302 apresentações para meio milhão de espectadores. Além disso, o Santiago a Mil recebe cerca de 200 programadores de festivais de teatro de todo o mundo, que vão ao Chile para assistir, principalmente, os espetáculos sul-americanos.

Nesta nossa primeira participação no Santiago a Mil levamos o espetáculo "Sua Incelença, Ricardo III", fruto da parceria com o diretor Gabriel Vilella. No Chile, o espetáculo foi apresentado em espanhol e ganhou a nova alcunha de "Su Excelencia Ricardo III". O javali sanguinário, como o Rei Ricardo III é conhecido, é um dos mais cruéis e sedutores vilões da dramaturgia universal. É impossível não amá-lo e ao mesmo tempo odiá-lo. Ou, talvez, amá-lo e ao mesmo tempo odiar você mesmo por amá-lo assim. A sua visão de mundo sobre a forma como o poder deve ser conquistado é tão absurda e violenta que parece somente possível na ficção, ou na barbárie de tempos remotos. Não fossem as cracolândias e os Pinheirinhos, poderia parecer algo mais distante de nós. 

Sua Incelença Ricardo III
  40 apresentações em 19 cidades de 11 estados brasileiros

O nosso Ricardo III fez, durante o seu primeiro ano de vida, cerca de 40 apresentações, em 19 cidades de 11 estados brasileiros. Algumas delas nos marcaram muito, pela profusão simbólica que o diálogo entre a cena e o espaço onde apresentamos nos proporcionou. Possivelmente os dois casos mais marcantes foram a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com a catedral, os ministérios e o Palácio do Planalto compondo a paisagem da cena e o Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a poucos metros de um famoso "microondas", como eram conhecidos os barrancos em que os traficantes colocavam as pessoas em pneus, ateavam fogo e jogavam ribanceira abaixo. Seja na fricção com a arquitetura de Niemeyer, na nossa pequenez diante da exuberante paisagem natural do Rio visto do alto, nas lonas de circo que nos aproximaram das origens da linguagem que escolhemos, ou em tantas ruas e praças, algumas com mais, outras com menos beleza, sempre nos surpreendeu a potência que a nossa estrutura cenográfica tem ao instalar-se nos espaços. É uma "ilha poética" que resignifica o entorno e propõe um outro olhar do espectador para o ambiente urbano onde está inserido.

Sua Incelença Ricardo III
Shakespeare em versão de cordel arrancando aplausos

No Chile, primeiro país fora do Brasil a receber o espetáculo, tivemos a oportunidade de colecionar mais alguns momentos sublimes dessa trajetória. Como em toda Latinoamérica, o Chile viveu um governo militar extremamente rígido, desde o golpe em que os militares bombardearam o Palácio de La Moneda e assassinaram o Presidente Salvador Allende, até a perseguição de professores, intelectuais e artistas, como o caso do cantor Victor Jara, que teve suas mãos amputadas antes de ser morto e virou um mártir da resistência chilena. A grande diferença da ditadura chilena e a nossa é que a memória segue viva no povo chileno, que faz questão de não esquecer para que esse tipo de coisa não se repita. Na nossa passagem por Santiago, tivemos a oportunidade de nos apresentar em dois lugares de especial significado. O primeiro deles foi a Plaza de la Constitución, onde fica exatamente o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno. Ali, tendo ao fundo o mesmo cenário em que Allende foi  asassinado, representar essa história escrita há mais de 400 anos nos fez ter a certeza da universalidade e genialidade da obra de William Shakespeare. 

 Sua Incelença Ricardo III - Imaginação e Perfeccionismo

Alguns dias depois, foi a vez de visitarmos e depois apresentarmos no pátio do Museo de La Memoria, criado pela ex-Presidenta Michelle Bachelet há cerca de dois anos atrás. Visitar o museu não é tarefa para os estômagos e corações mais fracos. Alguns de nós, por sinal, não conseguiram completar a tarefa. A exposição parte de um passeio cronológico desde o golpe até o plebiscito que decretou o fim do governo Pinochet, passando por detalhes das técnicas de tortura utilizadas pelos militares, cartas e desenhos de crianças, etc. É o lugar aonde todos os turistas deveriam ser levados assim que chegassem ao aeroporto Arturo Merino Benítez, antes de passarem pelo free shop ou fazerem seus check-ins no hotel. Ao final da apresentação no Museo La Memoria, muito emocionados com a oportunidade de estarmos contando essa violenta história de assassinatos e traições naquele lugar, dedicamos nosso trabalho daquele dia a todos os mortos durante o governo militar, num momento de extrema comoção e íntima conexão entre nós e o público chileno. Foi um daqueles momentos para ficar inscrito na história dos Clowns.

Os Clowns de Shakespeare em parceria com Gabriel Villela

Desde a primeira apresentação colocamos uma bandeira brasileira na cabine de operação de som e luz. Após algumas apresentações, a equipe técnica chilena que nos acompanhou - e com o tempo transformou-se em uma grande família conosco - também trouxe uma bandeira chilena, que caminharam lado a lado pelos quatro cantos de Santiago, além da cidade de Valparaíso, palco da última das nossas dez apresentações. 

Assim, o nosso javalizinho de estimação segue suas andanças, agora internacionais, resignificando o porquê de fazermos teatro e contarmos essa fábula, e usando a potência shakespeariana para cantar um pouco sobre a nossa aldeia e, assim, dialogar com o mundo. Viva Allende! Viva Victor Jara! Viva Violeta Parra! Viva Shakespeare!
 
 Um dos pontos altos é a trilha sonora, que mistura incelenças 
(cânticos fúnebres comuns no Nordeste) a músicas nordestinas e rock inglês

 SUA INCELENÇA RICARDO III
UMA PEÇA COM IMAGINAÇÃO E PERFECCIONISMO

 Por
Fabio Farias

É impossível, nessas linhas, falar de alguma coisa que tenha sido ruim em “Sua Incelença, Ricardo III”, encenação do premiado grupo Clowns de Shakespeare. Um maledicente qualquer pode até tentar assistir à peça e procurar, ao menos um gaguejo, para a partir daí inocular veneno sobre esse novo espetáculo. Mas seria difícil, muito difícil.

 Ricardo III é encenado com ares de sarcasmo, comédia e criatividade

Adaptação de um drama do Willian Shakespeare, Ricardo III é encenado com ares de sarcasmo, comédia e criatividade nas soluções propostas pelo grupo. A peça é também uma aula para os grupos de teatro potiguares. Principalmente para aqueles que torcem o nariz para os Clowns. O que se deve aprender é quanto ao perfeccionismo e à atenção aos detalhes que o eles fazem questão de ter em cada uma das suas encenações.

 A peça surpreende desde o início, com as pinturas nos rostos
e a dança inicial, ambas sinistras.
 
Não há nada, no figurino, no texto, na encenação e nem nas músicas que destoe da proposta do espetáculo. Tudo flui de uma forma harmônica, como se cada acontecimento dentro da encenação, fosse causa ou conseqüência do outro. Há uma naturalidade nas interpretações que é embasbacante e aqui não há como dar destaque ao ator Marco França e a atriz Titina Medeiros, perfeitos na execução dos seus personagens e na hora de cativar o público.

 Uma platéia hipnotizada e encantada pelo universo cênico/circense

Qualquer elogio que se faça ao figurino utilizado pelo grupo na peça soa pequeno. É uma busca na estética nordestina que tenta exatamente passar o ar da adaptação de uma história medieval no nordeste, que casa absolutamente bem com a proposta do espetáculo. A trilha sonora segue um tom ainda mais ousado ao conseguir misturar influências que partem desde a música pop, até a nordestina. Aqui ainda vale outro parênteses: a preparação vocal dos atores assusta de tão boa que é.

 Um espetáculo diferente
É provável que deixe os shakespeareanos ortodoxos de cabelo em pé

Como se não bastasse isso tudo, o cenário – montado em uma espécie de tenda de circo, que lembra o filme “Dr. Parnassus” – passa aquele ar charmoso da opção estética um tanto mambembe adotada pelo grupo. A impressão que passa é, como no filme, que ao se abrirem as cortinas, entraremos em um mundo diferente, povoado pela imaginação. Em Ricardo III o que vemos é uma platéia hipnotizada e encantada pelo universo cênico/circense que o grupo consegue criar.

Os elementos cênicos, preponderantemente, remetem à realidade nordestina 

As fórmulas criativas encontradas pelos Clowns para contar a história são outros aspectos que merecem destaque. Não há uma busca por uma espécie de vanguardismo hermético, mas soluções simples e bem pensadas para que os atores interpretem todos os personagens da adaptação. O resultado é uma obra de alto valor cultural, pela estética, pelo texto e pelas referências que agregam. E, de outro lado, um produto com um valor que encanta e agrada o público – do mais intelectualizado, até aquele que nunca foi ao teatro.

Montada pelo mineiro Gabriel Vilela – um dos expoentes do gênero teatral do Brasil. Pelas críticas que recebeu do Estadão, é provável que o espetáculo alcance repercussão semelhante que “O Capitão e a Sereia”, eleito pela Folha de S. Paulo um dos três melhores espetáculos de 2009. O sucesso dessas duas novas encenações só prova que quando se há criatividade, talento, inteligência com uma dose de perfeccionismo, reconhecimento é conseqüência.


...fonte...
Fabio Farias
Tácito Costa
www.substantivoplural.com.br

fevereiro 03, 2012

UM ANJO PARA SER ADOTADO...

 Casarão que abriga o Anjo Azul foi vendido 
...E  o destino da escultura de Jordão é incerto
 crédito: Aldair Dantas

O ANJO QUE NINGUÉM QUER

Por
Yuno Silva

A incerteza de um futuro tranquilo volta a rondar o Anjo Azul, escultura de 12 metros que serviu como ponto de referência para galeria de arte homônima que funcionou entre 2007 e 2010 no Tirol. Com 28 toneladas de ferro e concreto, a obra do artista plástico José Jordão precisa encontrar rapidamente um novo endereço para afastar o risco de ser demolida. O Anjo já foi oferecido como doação para as prefeituras de Natal, Maxaranguape no litoral Norte e a serrana Monte das Gameleiras, mas os custos com sua remoção, transporte (dentro do RN) e reinstalação, além da necessidade de se contratar uma equipe especializada para executar o trabalho, ainda não permitiram a concretização de um acordo. 

A construção do Anjo Azul consumiu cerca de R$ 190 mil, e o custo total para ele mudar de lugar está estimado em R$ 30 mil. O artista se comprometeu em acompanhar todas as etapas do processo do trabalho e estará a postos para efetuar qualquer reparo.

Receoso de ver seu trabalho reduzido a escombros, pois o imóvel onde está instalado foi vendido à empresa pernambucana Adroaldo Tapetes que pretende construir uma nova sede para a filial natalense da loja e o proprietário já adiantou que o projeto não inclui a escultura, Jordão está engajado para dar um destino digno ao Anjo Azul. "Se o problema é o custo, estou buscando apoio da Fundação José Augusto e vereadores de Natal prometeram ajudar a conseguir parte desse dinheiro. Não estou pedindo nada pela obra de arte, mas não quero deixar ela de qualquer jeito", disse, informando que prefere não levar a escultura para à beira mar - "com a maresia, a escultura não vai durar mais de 30 anos, no máximo 50 anos. É pouco, quero que ela dure pra sempre!"

Segundo o artista, o prazo combinado com o empresário Adroaldo Carneiro para remoção da obra já passou. "Ele está abrindo mão do prazo. Para evitar esse vai e vem, quero que ele formalize a doação com documentos", aponta.

Adroaldo disse que "a obra não tem nada a ver com a proposta da loja, mas gostaria bastante que a escultura ficasse em Natal." Para o empresário o Anjo Azul poderia ficar em alguma praça, na entrada da cidade e até no canteiro central da via em frente ao local onde está hoje. "Adotaria e manteria o lugar para onde o anjo fosse", garantiu.

"Espero encontrar alguém interessado que cuide bem dele"
José Jordão

Em 2010, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Natal (Semsur) chegou a ser contatada pela Galeria Anjo Azul, mas a doação não prosperou: "Quando a Galeria entrou em contato conosco, houve interesse e fomos até o local fazer uma avaliação técnica e chegamos a conclusão de que o procedimento seria dispendioso e arriscado", declarou a assessoria de imprensa da Semsur na época. Os técnicos identificaram dois problemas básicos: primeiro, a escultura foi construída no próprio local, fato que dificulta a remoção e transporte; segundo, a estrutura é oca e isso torna a obra mais frágil do que aparenta.

Em abril do ano passado, a vitralista curitibana radicada em Natal Analys Berti, amiga de Adroaldo Carneiro, aceitou ficar com o Anjo Azul e tinha a intenção de transformar a escultura em ponto de referência na praia de Caraúbas, no município de Maxaranguape, onde tem uma casa e mantém seu ateliê. Ela chegou a pedir apoio para a prefeitura local, e como não concordou com o local sugerido para instalação acabou recuando. "Não quero colocar a escultura no meu quintal, imagino uma praça bem cuidada, onde as pessoas poderiam se encontrar para tirar fotos", disse.

Diante do impasse, em julho de 2011 entra em cena outro personagem dessa novela: o empresário Walde Faraj. Responsável pela realização do Circuito de Festivais Gastronômicos do RN, Faraj teve a ideia de levar a obra para Monte das Gameleiras, município serrano da Borborema Potiguar, divisa com a Paraíba. O local já estava escolhido, havia planos de mudar a cor(!) do Anjo para melhor contextualização (camuflagem?) com a paisagem. Porém, mais uma vez, a proposta não avançou. "Temos interesse, mas não temos como cobrir esses custos de R$ 30 mil", justifica a prefeita Edna Régia Sales Pinheiro.

Para Jordão, o investimento não é alto quando analisado o custo e o benefício que o Anjo Azul pode trazer - é fato o apelo turístico que a obra sugere. "Estou em campanha, oferecendo o Anjo, e espero encontrar alguém interessado que cuide bem dele." Para entrar em contato com o artista, os telefones são 84. 9603-8876/ 84.9950-0957.

  José Jordão Arimatéia
O pai do Gigante Anjo Azul
 crédito: Danilo Guanabara

ENTRE HIPÉRBOLES E SUPERLATIVOS: JORDÃO

 Por
Filipe Mamede

Quem passa pela movimentada Avenida Hermes da Fonseca não tem outra coisa a fazer, senão contemplar um gigante Anjo Azul que, de tão imponente e chamativo, virou ponto turístico da cidade. Construído pelo artista plástico José Jordão Arimatéia, 61, para ser a principal peça do marketing de uma galeria de arte homônima, o Anjo Azul, feito, basicamente, de gesso e sustentando uma envergadura de cerca de 12 metros de altura, consumiu pouco mais de dez meses para ser concluído. Depois que ficou pronto, é comum ver as pessoas pararem para tirar fotografias ao lado da obra, cuja grandeza parece ser a maior virtude.

O autor dessa obra é autodidata. De origem humilde, filho de lavadeira e cozinheira, muito cedo, ainda com oito anos de idade, Jordão já tinha uma certeza, queria ser artista. “Eu gostava mesmo era de cantar. Eu queria ser artista de qualquer coisa, mas não deu pra ser cantor. Ai um dia, lá no campo do Rio-Mar... tinha chovido. Tava uma planície bonita... comecei a desenhar no chão”. Foi exatamente nesse dia que o escultor deu de cara com o labor criativo que o acompanha até hoje. “Vinha passando dois cidadãos e um disse assim: ‘Esse menino é muito bom desenhista. Parece coisa do artista Newton Navarro”. Com essa frase, Jordão resolveu definitivamente que iria ser àquilo. Iria ser artista.

DE COMO A GENTE SE TORNA O QUE A GENTE É

Depois do singelo desenho na areia do campo de futebol, ele não parou mais. Em pouco tempo já desempenhava o ofício de Santeiro. Fazia as figuras divinas com as sobras de cimento da fábrica de pré-moldados onda trabalhava. “Eu sempre dava um jeito da massa sobrar. Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono descobriu, primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar”.

Com o tempo, Jordão foi se moldando até se transformar em escultor e entalhador. Cada tipo de trabalho foi conseqüência do outro. “Depois do ‘entalhe’ foi que eu me soltei. Comecei a viajar e a fazer exposição... a primeira foi numa bienal lá em Fortaleza... acho que em 1974. Levei dois ‘entalhe’, duas esculturas e ganhei dois prêmios”. Jordão continuou viajando. Foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, onde trabalhou para um estrangeiro que lhe arranjou uma viajem para a França. “Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.

De volta ao Brasil, Jordão confessa que tentou viver de arte na região sudeste. Ele relata que até conseguiu, mas como a família “não cortou o cordão umbilical”, acabou voltando mesmo foi para Natal. “Quando minha família não quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com olhar remoto”.

JORDÃO, O ERRANTE

Assim como as viagens que fez por aí, a relação de Jordão com a arte também é repleta de idas e vindas. Na sua história de vida, o artesão confessa que o alcoolismo foi uma personagem persistente em várias ocasiões. “Já deixei muitas vezes a arte. A bebida faz a gente perder a criação. Eu trabalhava só pra manter o vício. Um trabalho que valia quinhentos, eu vendia por duzentos, né... a sede era maior”. Mergulhado num poço que parecia não ter fim, Jordão ficou 15 anos no limbo sem criar uma peça sequer. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”.

Depois do período nebuloso de auto-exílio, Jordão deixou de beber e se casou de novo. Apagou de vez o capítulo dedicado às bebidas. “A arte me chamou de volta. Hoje eu vivo pro meu lar, minha esposa e minha filhinha”. (Jordão conta isso segurando a pequena Lua no colo).

Arte hiperbólica... 
 crédito: Danilo Guanabara

MODUS OPERANDI

Como criador de formas diversas, o artesão deixa transparecer certa vaidade em relação às suas obras. Sobre o colosso angelical, o artista plástico se diz bastante satisfeito com o resultado. “Ah, eu gostei demais. Ficou do jeito que eu achava que deveria ficar”. A história da produção da escultura é muito curiosa. O projeto chegou a mudar algumas vezes. Inicialmente programado para ter dois ou três metros, a obra ganhou volume de uma hora pra outra. “Anchieta (Dono da Galeria O Anjo Azul) chegou lá em casa e me pediu pra fazer uma escultura. Ele disse que queria uma escultura grande. Eu perguntei: E o tamanho? - Ele disse: uns três metros. Comecei a fazer. Depois ele quis que eu aumentasse. Anchieta disse, “Eu quero uma graaaaande. Não sei nem de que tamanho”.

Como de costume, na hora de elaborar suas obras, Jordão dispensa qualquer tipo de esboço. Para ele, “a arte não precisa de projeto”. E com o “pequeno detalhe” do tamanho resolvido, Jordão botou a mão na massa, ou melhor, na argamassa. “Anchieta disse: “Vamos fazer um desenho”. Ai eu disse: “Vamo fazer sem. Com desenho demora muito”. Mesmo com liberdade para fazer do jeito que quisesse, e com o Anjo praticamente ‘nas alturas’, Jordão teve que vencer alguns percalços. “Quanto tava lá em cima, lá se vem confusão... a prefeitura chegou alegando que a estrutura podia cair”. Foi preciso, então, arrumar um engenheiro para tocar a ‘obra’. “Aí o engenheiro veio, calculou e disse: “Vamos botar mais ferragem”. Ai colocamos mais ferragem... aí eles (Agentes da Prefeitura) pararam de vir””.
  
Fachada do  Edifício Morada Rio Mar - Natal/RN
localizado o maior painel construído em concreto da América Latina
obra de Jordão devidamente registrado no livro de recordes

A ARTE COMO COISA PÚBLICA E OUTRAS OBRAS

O ensaio ‘A origem da obra de arte’ foi publicado pela primeira vez em 1977, pelo filósofo alemão Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Abordando a natureza e o enigma da obra de arte, Heidegger defende que obra se faz a partir de uma tríade: artista, obra e um terceiro elemento – o observador, aquele que olha para a o criador e a criatura. Instintivamente, Jordão acaba confirmando essa teoria. “A obra tem que ser pública... eu gosto de fazer arte para o povo”.

Contrariando uma premissa básica de todo artista, que só revela a obra quando o trabalho se encerra, ele oferece o dia-dia de suas invenções de artífice. Revelando uma sensibilidade rústica no traçado, o Anjo Azul, por exemplo, pôde ser acompanhado durante toda a manufatura por àqueles que transitaram pela Hermes da Fonseca entre os meses de dezembro de 2006 a meados de outubro de 2007.

As obras de Jordão, além da grandiosidade e do labor feito ao alcance dos olhos observadores, carregam histórias que, a cada vez que são recontadas, tomam ares de anedota. Foi assim também com uma obra que tem como personagem o Rei do Baião e um popular santo brasileiro.

Engendrada ao ar livre, o trabalho compreende algumas alegorias do imaginário e da cultura nordestina como a religiosidade, a música e o povo. “Chico Brilhante era doido pra fazer um trabalho grande. Mas o trabalho grande que ele queria era um santo. Frei Damião”. Jordão retrucou logo de cara, dizendo que Frei Damião não fazia. “Pra fazer só Frei Damião eu não quero fazer”. O artista plástico ainda arrematou com o chiste: “Bata uma fotografia do Frei e bote aí na parede”. Jordão, defendendo uma obra mais elaborada e contextualizada, se ofereceu para projetar uma coisa diferente. “Me dê uns três meses pra eu pensar o que é que eu vou fazer, que aí a gente faz”.

Com o prazo expirado, Jordão voltou ao encontro de Chico Brilhante. “Eu to com o trabalho feito aqui na minha cabeça”. Chico quis saber qual era o projeto do artista. “Eu vou fazer um Luiz Gonzaga, por que ele gostava muito de Frei Damião. Aí eu juntei... Luis Gonzaga com Frei Damião... Luis Gonzaga tocando a sanfona... arrastando seu povo ao encontro de Frei Damião, olha que negócio bonito?”, se diverte Jordão rememorando a resposta que deu à Chico Brilhante. Para quem tem curiosidade de ver Luiz Gonzaga e sua trupe indo até à presença de Frei Damião, basta um dia, encher o tanque ou calibrar os pneus do carro. Digo isso porque, Jordão fez todo esse trabalho em pleno um posto de gasolina, num bairro de Natal.  
  
Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião
crédito: Danilo Guanabara

MAIS ALGUMAS

E não é só o Anjo Azul e nem Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião que ostentam um tamanho fora do comum. A maioria das obras de Jordão apresenta um aparente ‘complexo de superioridade’. Todas elas são enormes, assim como o Pescador que enfeita a Praça da Praia da Pipa desde 2005. “Eu passei um ano morando em Pipa. Aí um dia, o dinheiro tava se acabando... resolvi oferecer meu trabalho ao prefeito. Ele queria um santo. Aí disse que em Pipa tinha muito crente e uma “imagem” poderia dar confusão. Fiz um pescador... pescador não tem religião”. A política da boa-vizinhança de Jordão lhe rendeu mais alguns frutos. Além do pescador, Jordão acabou fazendo a figura de um enorme golfinho que enfeita a frente da Prefeitura de Tibau do Sul.

É de autoria de Jordão o maior painel construído em concreto da América Latina. Localizado no prédio residencial Rio-Mar, o trabalho, que é uma verdadeira façanha, está devidamente registrado no livro de recordes. Mas quem vê os 1000 metros quadrados de obra de arte pronta, não imagina o trabalho que deu. “Quando eu cheguei lá na construtora dizendo que eu queria trabalhar no prédio, acharam que eu era um hippie, um louco. Depois de um chá de cadeira foi que me receberam e eu disse que queria trabalhar as fachadas do prédio”. Conversa vai, conversa vem, Jordão conseguiu vender o projeto.

Com a palavra empenhada pelos representantes da construção, o artista fez algumas exigências. “Eu disse: Eu quero uma bancada nova, lápis. Quero papel bom... de diversos tipos... só papel de linha pesada”. Os pedidos de Jordão foram atendidos. Depois de 15 dias projetando, o artista pediu para que fossem buscar o esboço do trabalho. De volta ao escritório da construtora, pediram para Jordão mostrar o que ele tinha feito. “Vamos ali na mesa de reunião”, disse um engenheiro. Sem a menor cerimônia, o artista explicou que ali não caberia. “Tem que ser lá fora, na rua... Aí eu saí estirando o projeto no meio da rua... do tamanho que era o edifício, era o tamanho do projeto”. Passados mais de 20 anos da elaboração do painel, Jordão acredita que este trabalho foi obra do acaso. “Foi sorte demais. Você levar um projeto desses sem trabalhar na firma, foi muita coragem”.

Um outro lugar onde é possível se esbaldar com as obras de Jordão, dada a grande concentração de trabalhos realizados pelo artista é o Centro de Convenções de Natal. Ao todo são seis painéis: o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas. No saguão de entrada, como não poderia deixar de ser, estão dando as boas vindas um enorme pescador e uma rendeira. Feito com cimento, o material preferido de Jordão, existe ainda um trabalho com motivos indígenas dominando uma das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau. “Mas o que eu mais gosto ali no Centro é o Bumba meu boi. Ficou muito bonito”, conta Jordão orgulhoso.

PALAVRA DE MESTRE

Nas suas andanças artísticas, Jordão teve a oportunidade de trabalhar com nomes consagrados como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas. O maior artista plástico em atividade do Rio Grande do Norte defende que a obra de Jordão ‘dispensa adjetivos’. “Tenho ele como o mais expressivo escultor. Ele tem uma expressão muito própria. Não imita ninguém”. Além de considerar Jordão como um bom pintor, Dorian o compara à unanimidades da arte mundial. “Ele é da mesma linguagem de Michelangelo, Leonardo (Da Vinci). Tem um traço instintivo... vocacionado. Uma pena ele não ter condições de trabalhar com materiais nobres. Ele merecia trabalhar com mármore... bronze...”.

O reconhecimento do valor como feitor de arte de mão cheia, não se restringe à Dorian Gray. No último mês de outubro Jordão desembarcou na capital do país para participar de uma exposição no Salão Negro do Palácio do Congresso. A entrada solene do Palácio, é destinado à mostras, eventos culturais, lançamento de livros, recepções e celebrações religiosas. Dividindo o Salão com artistas de várias regiões do país, o artífice nascido no Rio-Mar revela que a oportunidade de ir à Brasília, surgiu à partir do Anjo Azul. “A senadora Rosalba Ciarlini passou e viu o Anjo, aí me convidou pra ir á Brasília. Achei bom, mas o trânsito faz muito barulho. Prefiro Natal”, analisa Jordão.

Produzindo com a mesma freqüência de antigamente, Jordão conseguiu juntar dinheiro e comprou uma casinha simples na Rua do Motor com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde desenhou na areia e vendeu seus santinhos feitos ora de cimento, ora de “argila do padre”. Ele montou um ateliê improvisado nos fundos, onde, cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior. Bem maior. Tão grande quanto as colossais esculturas que inventa.

 ...fonte...
Yuno Silva 

...fotografia...
Aldair Dantas
Danilo Guanabara