fevereiro 07, 2012

NO DIA EM QUE EU SAÍ DE CASA...

 Chicão e Matias saíram do RN e hoje estão no Grupo Rubaiyat

 UMA HISTÓRIA NASCIDA DO ENCANTO

 Por
 Cinthia Lopes

A história de Matias e Chicão bem que poderia estar em um livreto de cordel. Amigos de infância, eles nasceram no mesmo sítio, no município do alto oeste potiguar "Encanto". Pais agricultores, família numerosa que não cabe num alpendre. Poderiam ainda estar na mesma lida se o destino não tivesse dado conta de injetar uma boa dose de criatividade em suas vidas. Foram embora de casa no final da adolescência, tentar uma vida diferente na cidade grande. Primeiro um, depois o outro pegou o rumo de São Paulo. 

Quase três décadas depois, Chico é o Chef Francisco Gameleira, executivo de três badalados restaurantes do grupo Rubaiyat - entre eles o Figueira Rubaiyat (Haddock Lobo). Matias Carvalho, que saiu de Encanto aos 17 anos e deixou apenas a saudade e um jumento, é o nome por trás do sucesso de Cabaña Las Lilas, um dos mais conceituados restaurantes de Buenos Aires, pertencente ao mesmo grupo Rubaiyat, fundado por Belarmino Fernandez Iglesias.

Aliás, a trajetória de Belarmino poderia ser narrada nos mesmos versos não fosse pela descendência diferente. Um espanhol da Galícia que emigrou para o Brasil em 1951, começou a vida lavando pratos e construiu o que se pode chamar de um império gastronômico de proporções internacionais - seis restaurantes de alta gastronomia que atendem em média quatrocentas pessoas sentadas cada e possui 150 profissionais trabalhando só no salão de uma das casas. 

São quatro casas em São Paulo, uma na Espanha e outra na Argentina, uma fazenda, escola de excelência para formar profissionais da gastronomia... o gallego viu São Paulo virar metrópole, construiu um restaurante à sobra de uma figueira de 130 anos e ensina, ele próprio, as artes de receber a quem chega em seu restaurante pedindo emprego. Ao lado do filho, Belarmino Jr, são referências em serviços e no alto padrão de carnes nobres e cozinha mediterrânea. Em vez de comandar um batalhão de funcionários, forma profissionais altamente valorizados que fazem carreira dentro da própria empresa.

Quem diz é o próprio Matias: "Somos como uma grande família", conta o maitre, que está de férias por aqui e só parou em Natal depois de matar as saudades na Festa de São Sebastião de Encanto. "Deixei o sertão mas ele não me deixou. Trabalho de terça a domingo quando estou em Buenos Aires, e já viajei muito, mas gosto de ir para o interior de férias, aquela coisa de juntar a família numerosa para um churrasco", brinca. Filho de mãe professora, Matias conta que a mãe lhe encorajou a terminar o segundo grau em Pau dos Ferros. "Chicão foi primeiro a ir para São Paulo, depois fui eu".

Chicão entra na conversa: "Comecei minha vida profissional lavando panelas", relembra o profissional que hoje comanda os fornos mais cobiçados da cidade de São Paulo e coordena uma brigada de mais de 50 profissionais só na cozinha do Figueira Rubaiyat. Três filhos, esposa de raízes potiguares, Chef Chicão diz que "chegou aonde queria", mas ainda quer fazer mais antes de um dia pensar em se aposentar. Da mesma forma o Matias, maitre e gerente executivo do Cabanas Las Lilas, três filhos nascidos entre SP e Buenos Aires, esposa potiguar e morador do agradável bairro de Belgrano.

Além de conhecedor de vinhos, futebol e de boa gastronomia, Matias é lendário pela "onipresença". Se um cliente está em São Paulo e vai para Buenos Aires no feriado, se surpreende ao ser recebido com aquele habitual sorriso do maitre. "Em datas especiais, feriados, trazemos uma verdadeira 'tropa de choque' de São Paulo ou fazemos o caminho inverso. Tudo para surpreender o cliente", conta ele.

Chicão passou de copeiro a assistente de churraqueiro em pouco tempo. Desempenhou diversas funções e chegou a estagiar no Uruguai e na Espanha por alguns anos. Em 2001 foi convidado a integrar a chefia do restaurante A Figueira Rubaiyat. Aprendeu a cozinha mediterrânea e as artes das altas temperaturas com o argentino Francis Mallmann. É hoje quem acompanha e executa receitas impecáveis  e cortes nobres, como bife de chorizo, ojo de bife, pescados de España e receitas como o carpaccio de cogumelos, frutos do mar, como ostras, lulas e mexilhões. 

Já o restaurante comandado por Matias fica numa das áreas mais bonitas de Buenos Aires, Puerto Madero. Foi inaugurado em sociedade entre o Rubaiyat e Cabaña, empresa argentina de atividade agropecuária de alta excelência. Tanto Matias como Chicão desbravaram os primeiros anos do Cabaña, que atualmente é formado só por brasileiros, da cozinha ao salão.

Amigo de Matias há vários anos, o diretor da revista Deguste, Benício Siqueira, é suspeito ao falar sobre os dois: "A história deles é muito bonita. São pessoas que vieram de uma vida humilde e venceram na vida. Matias e Chicão estão num nível profissional e pessoal que pouca gente consegue chegar no ramo da gastronomia", diz Benício.  É peleja para contar em mais de um folheto.

...fonte...
Cinthia Lopes
editora

...fotografia... Rogério Vital

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Saiba mais sobre os restaurantes do grupo Rubaiyat
Cabaña Las Lilas http

fevereiro 05, 2012

COMO SE FOSSE UM FILHO...

 Branquinho, volta pra casa!

"Olhe no fundo dos olhos de um animal e, por um momento, troque de lugar com ele. A vida dele se tornará tão preciosa quanto a sua e você se tornará tão vulnerável quanto ele. Agora sorria, se você acredita que todos os animais merecem nosso respeito e nossa proteção, pois em determinado ponto eles são nós e nós somos eles." (Philip Ochoa)

edição especial

MULHER LUTA PARA EVITAR MORTE DE CÃO 

 Por
Nara Andrade
Da redação
do jornal  www.DeFato.com  - Mossoró/RN

"Como se fosse um filho". É assim que a dona de casa, Ana Valda do Monte, de 48 anos, define o seu cachorro chamado de Branquinho. Ela conta que há cinco anos, ganhou o cachorro de seu esposo, o técnico em eletrônica, Amadeu Augusto dos Santos, de 48 anos, com quem convive há 19 anos. "Ele chegou tão sujo, cheio de carrapatos. Desde então nós cuidamos dele como se fosse uma criança", explica.

No entanto, a dona de casa há um ano e cinco meses, enfrenta uma batalha judicial para evitar o sacrifício de Branquinho, que foi diagnosticado com Leishmaniose visceral, popularmente conhecida como calazar, em setembro de 2010. A dona de casa tem apenas uma filha, que já é casada, e além de Branquinho, possui uma cadela chamada Belinha. Ana Valda frisa que apesar de morar com o esposo e os dois cachorros em uma casa humilde, os animais sempre foram bem tratados. 

Uma vizinha do casal, que pediu para ter sua identidade preservada, diz que todo mundo sabe do amor que eles têm pelos dois cachorros.  "Ela diz a todo mundo que tem certeza que o Branquinho vai voltar. Que vai provar para todo mundo que ele não está doente. Mas, eu fico preocupada dele voltar, porque se estiver mesmo doente pode prejudicar todo mundo", comenta.

Quando recebeu o primeiro resultado do exame que atesta a positividade do calazar, Ana Valda do Monte se negou a entregar o animal e realizar a contraprova, que é um direito dos proprietários em casos dessa natureza.

A veterinária Edinaidy Menezes, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), explica que como ela se recusou a entregar o animal, o caso foi encaminhado para o Ministério Público, que iniciou uma Ação Civil Pública, e o Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, expediu uma liminar no dia 18 de abril de 2011, autorizando a equipe do CCZ a recolher o animal mesmo sem o consentimento dos proprietários. Desde então, Branquinho está sob guarda do Centro de Zoonoses.

A justiça também expediu uma ordem judicial para realização de mais dois exames, que foram feitos nos meses de junho e outubro do ano passado, em um laboratório de Minas Gerais, referência no país. Amadeu Augusto, diz que não acredita nos resultados dos exames realizados até o momento. Para ele, isso tudo começou de um problema com uma de suas vizinhas, que estava incomodada com o animal, e teria feito uma denuncia ao CCZ. 

"Essa vizinha quis me prejudicar, e o único jeito que arrumou foi falsificar o resultado do exame com a ajuda de conhecidos que trabalham na prefeitura", acusa. A dona de casa diz que só entregou o animal porque os técnicos do CCZ foram até a sua residência, que fica na Rua Major Altemberg de Melo, no bairro Santo Antônio, junto com vários policiais, que ameaçaram algemá-la. 

"Vou lutar até conseguir trazê-lo de volta para casa. Ele é um cachorro bem cuidado, aqui ele comia tudo do melhor. E desde que ele está lá no Centro de Zoonoses, eu vou duas vezes por semana, dou banho e fico lá com ele. No início levava a comida dele, mas disseram que tem ração para os animais que ficam lá", comenta.

JUIZ AFIRMA
QUE SUA DECISAO FOI PAUTADA EM DIREITO COLEITVO

O juiz, José Herval Sampaio Júnior, do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, diz que com base dos direitos assegurados pela Constituição Federal, as pessoas podem contestar quando acham que tiveram seus direitos violados. Esse é o caso da dona de casa Ana Valda do Monte, que se sentiu violada pelo Ministério Público, que moveu uma ação pedindo o sacrifício do animal diagnosticado com calazar.

Segundo o juiz, a decisão foi tomada, com base no direito coletivo, em nome da saúde pública, já que Mossoró é uma cidade com um número alto de casos de calazar, inclusive em humanos, registrando cerca de 50% dos casos do estado em 2011.

"Entendo que é muito difícil sacrificar um animal, principalmente, nesse caso que o cachorro não apresenta nenhum sintoma da doença. Mas infelizmente isso é preciso. A sentença já foi feita e o Centro de Zoonoses já pode realizar o procedimento de eutanásia do cachorro, que representa um risco iminente para os funcionários do local", enfatiza. 

Segundo o juiz, a dona de casa apresentou o resultado de um exame que nega a presença do protozoário causador do calazar no animal, mas que esse exame foi feito em um laboratório que não é credenciado no Ministério da Saúde e, por isso, não é reconhecido. 

IRMÃ ELLEN DEFENDE CASAL E QUESTIONA AÇÃO DO MP 
 
O casal, que tenta salvar o seu cachorro, conta com o apoio da freira franciscana, Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Irmã Ellen, afirma que Ana Valda a procurou chorando, muito nervosa, e contou o que estava acontecendo. 

"Ela é uma pessoa pobre, desamparada e está sofrendo muito com essa situação. Além do problema do cachorro, tenho me preocupado com a saúde de Ana Valda e do seu esposo, que estão adoecendo em decorrência do problema", explica.


A freira comenta que todo o processo envolve muitas contradições e não é confiável. Segundo relata a Irmã Ellen, além de ter havido uma confusão de endereços, na hora de recolher o cachorro de uma vizinha da família, ainda teve uma troca de datas, já que no processo tem uma data e o exame foi realizado em uma data diferente, e não consta o nome do agente responsável pelo procedimento. 


"Esse exame deu positivo, mas não é confiável, porque pode ter sido feito em qualquer outro cachorro. O branquinho não apresenta nenhum sintoma de cachorro doente e está sendo perseguido como se fosse um criminoso", frisa.


Para a irmã Ellen, o exame realizado pelo Centro de Zoonoses tem 40% de chance de erro. Ela também explica que em muitos países os animais com calazar não são sacrificados, passam por tratamento. 


"Aqui no país se mata qualquer cachorro. Isso deve acontecer por motivos econômicos, por ser mais prático diminuir a população de cães, do que tratá-los. Se esse cachorro representasse tanto perigo, já teria transmitido essa doença para os funcionários do Centro de Zoonoses", conclui

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Nara Andrade

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crédito:

MANDANDO NOTÍCIAS DE LÁ

  DIALOGANDO COM O MUNDO
   O  premiado grupo Clowns de Shakespeare

DORES E CANTOS NA ALDEIA DE ALLENDE

 Por
Fernando Yamamoto
Diretor de Teatro - especial para o VIVER

Neste início de 2012 nós, dos Clowns de Shakespeare, fomos convidados para participar do festival Santiago a Mil, na capital do Chile, que aconteceu entre 3 e 22 de janeiro. O Santiago a Mil é, hoje, o principal festival de teatro da América Latina e um dos mais importantes do mundo. Pelas ruas e palcos santiaguinos passaram 67 espetáculos de 15 países da América do Sul, Europa e Ásia, num total de 302 apresentações para meio milhão de espectadores. Além disso, o Santiago a Mil recebe cerca de 200 programadores de festivais de teatro de todo o mundo, que vão ao Chile para assistir, principalmente, os espetáculos sul-americanos.

Nesta nossa primeira participação no Santiago a Mil levamos o espetáculo "Sua Incelença, Ricardo III", fruto da parceria com o diretor Gabriel Vilella. No Chile, o espetáculo foi apresentado em espanhol e ganhou a nova alcunha de "Su Excelencia Ricardo III". O javali sanguinário, como o Rei Ricardo III é conhecido, é um dos mais cruéis e sedutores vilões da dramaturgia universal. É impossível não amá-lo e ao mesmo tempo odiá-lo. Ou, talvez, amá-lo e ao mesmo tempo odiar você mesmo por amá-lo assim. A sua visão de mundo sobre a forma como o poder deve ser conquistado é tão absurda e violenta que parece somente possível na ficção, ou na barbárie de tempos remotos. Não fossem as cracolândias e os Pinheirinhos, poderia parecer algo mais distante de nós. 

Sua Incelença Ricardo III
  40 apresentações em 19 cidades de 11 estados brasileiros

O nosso Ricardo III fez, durante o seu primeiro ano de vida, cerca de 40 apresentações, em 19 cidades de 11 estados brasileiros. Algumas delas nos marcaram muito, pela profusão simbólica que o diálogo entre a cena e o espaço onde apresentamos nos proporcionou. Possivelmente os dois casos mais marcantes foram a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com a catedral, os ministérios e o Palácio do Planalto compondo a paisagem da cena e o Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a poucos metros de um famoso "microondas", como eram conhecidos os barrancos em que os traficantes colocavam as pessoas em pneus, ateavam fogo e jogavam ribanceira abaixo. Seja na fricção com a arquitetura de Niemeyer, na nossa pequenez diante da exuberante paisagem natural do Rio visto do alto, nas lonas de circo que nos aproximaram das origens da linguagem que escolhemos, ou em tantas ruas e praças, algumas com mais, outras com menos beleza, sempre nos surpreendeu a potência que a nossa estrutura cenográfica tem ao instalar-se nos espaços. É uma "ilha poética" que resignifica o entorno e propõe um outro olhar do espectador para o ambiente urbano onde está inserido.

Sua Incelença Ricardo III
Shakespeare em versão de cordel arrancando aplausos

No Chile, primeiro país fora do Brasil a receber o espetáculo, tivemos a oportunidade de colecionar mais alguns momentos sublimes dessa trajetória. Como em toda Latinoamérica, o Chile viveu um governo militar extremamente rígido, desde o golpe em que os militares bombardearam o Palácio de La Moneda e assassinaram o Presidente Salvador Allende, até a perseguição de professores, intelectuais e artistas, como o caso do cantor Victor Jara, que teve suas mãos amputadas antes de ser morto e virou um mártir da resistência chilena. A grande diferença da ditadura chilena e a nossa é que a memória segue viva no povo chileno, que faz questão de não esquecer para que esse tipo de coisa não se repita. Na nossa passagem por Santiago, tivemos a oportunidade de nos apresentar em dois lugares de especial significado. O primeiro deles foi a Plaza de la Constitución, onde fica exatamente o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno. Ali, tendo ao fundo o mesmo cenário em que Allende foi  asassinado, representar essa história escrita há mais de 400 anos nos fez ter a certeza da universalidade e genialidade da obra de William Shakespeare. 

 Sua Incelença Ricardo III - Imaginação e Perfeccionismo

Alguns dias depois, foi a vez de visitarmos e depois apresentarmos no pátio do Museo de La Memoria, criado pela ex-Presidenta Michelle Bachelet há cerca de dois anos atrás. Visitar o museu não é tarefa para os estômagos e corações mais fracos. Alguns de nós, por sinal, não conseguiram completar a tarefa. A exposição parte de um passeio cronológico desde o golpe até o plebiscito que decretou o fim do governo Pinochet, passando por detalhes das técnicas de tortura utilizadas pelos militares, cartas e desenhos de crianças, etc. É o lugar aonde todos os turistas deveriam ser levados assim que chegassem ao aeroporto Arturo Merino Benítez, antes de passarem pelo free shop ou fazerem seus check-ins no hotel. Ao final da apresentação no Museo La Memoria, muito emocionados com a oportunidade de estarmos contando essa violenta história de assassinatos e traições naquele lugar, dedicamos nosso trabalho daquele dia a todos os mortos durante o governo militar, num momento de extrema comoção e íntima conexão entre nós e o público chileno. Foi um daqueles momentos para ficar inscrito na história dos Clowns.

Os Clowns de Shakespeare em parceria com Gabriel Villela

Desde a primeira apresentação colocamos uma bandeira brasileira na cabine de operação de som e luz. Após algumas apresentações, a equipe técnica chilena que nos acompanhou - e com o tempo transformou-se em uma grande família conosco - também trouxe uma bandeira chilena, que caminharam lado a lado pelos quatro cantos de Santiago, além da cidade de Valparaíso, palco da última das nossas dez apresentações. 

Assim, o nosso javalizinho de estimação segue suas andanças, agora internacionais, resignificando o porquê de fazermos teatro e contarmos essa fábula, e usando a potência shakespeariana para cantar um pouco sobre a nossa aldeia e, assim, dialogar com o mundo. Viva Allende! Viva Victor Jara! Viva Violeta Parra! Viva Shakespeare!
 
 Um dos pontos altos é a trilha sonora, que mistura incelenças 
(cânticos fúnebres comuns no Nordeste) a músicas nordestinas e rock inglês

 SUA INCELENÇA RICARDO III
UMA PEÇA COM IMAGINAÇÃO E PERFECCIONISMO

 Por
Fabio Farias

É impossível, nessas linhas, falar de alguma coisa que tenha sido ruim em “Sua Incelença, Ricardo III”, encenação do premiado grupo Clowns de Shakespeare. Um maledicente qualquer pode até tentar assistir à peça e procurar, ao menos um gaguejo, para a partir daí inocular veneno sobre esse novo espetáculo. Mas seria difícil, muito difícil.

 Ricardo III é encenado com ares de sarcasmo, comédia e criatividade

Adaptação de um drama do Willian Shakespeare, Ricardo III é encenado com ares de sarcasmo, comédia e criatividade nas soluções propostas pelo grupo. A peça é também uma aula para os grupos de teatro potiguares. Principalmente para aqueles que torcem o nariz para os Clowns. O que se deve aprender é quanto ao perfeccionismo e à atenção aos detalhes que o eles fazem questão de ter em cada uma das suas encenações.

 A peça surpreende desde o início, com as pinturas nos rostos
e a dança inicial, ambas sinistras.
 
Não há nada, no figurino, no texto, na encenação e nem nas músicas que destoe da proposta do espetáculo. Tudo flui de uma forma harmônica, como se cada acontecimento dentro da encenação, fosse causa ou conseqüência do outro. Há uma naturalidade nas interpretações que é embasbacante e aqui não há como dar destaque ao ator Marco França e a atriz Titina Medeiros, perfeitos na execução dos seus personagens e na hora de cativar o público.

 Uma platéia hipnotizada e encantada pelo universo cênico/circense

Qualquer elogio que se faça ao figurino utilizado pelo grupo na peça soa pequeno. É uma busca na estética nordestina que tenta exatamente passar o ar da adaptação de uma história medieval no nordeste, que casa absolutamente bem com a proposta do espetáculo. A trilha sonora segue um tom ainda mais ousado ao conseguir misturar influências que partem desde a música pop, até a nordestina. Aqui ainda vale outro parênteses: a preparação vocal dos atores assusta de tão boa que é.

 Um espetáculo diferente
É provável que deixe os shakespeareanos ortodoxos de cabelo em pé

Como se não bastasse isso tudo, o cenário – montado em uma espécie de tenda de circo, que lembra o filme “Dr. Parnassus” – passa aquele ar charmoso da opção estética um tanto mambembe adotada pelo grupo. A impressão que passa é, como no filme, que ao se abrirem as cortinas, entraremos em um mundo diferente, povoado pela imaginação. Em Ricardo III o que vemos é uma platéia hipnotizada e encantada pelo universo cênico/circense que o grupo consegue criar.

Os elementos cênicos, preponderantemente, remetem à realidade nordestina 

As fórmulas criativas encontradas pelos Clowns para contar a história são outros aspectos que merecem destaque. Não há uma busca por uma espécie de vanguardismo hermético, mas soluções simples e bem pensadas para que os atores interpretem todos os personagens da adaptação. O resultado é uma obra de alto valor cultural, pela estética, pelo texto e pelas referências que agregam. E, de outro lado, um produto com um valor que encanta e agrada o público – do mais intelectualizado, até aquele que nunca foi ao teatro.

Montada pelo mineiro Gabriel Vilela – um dos expoentes do gênero teatral do Brasil. Pelas críticas que recebeu do Estadão, é provável que o espetáculo alcance repercussão semelhante que “O Capitão e a Sereia”, eleito pela Folha de S. Paulo um dos três melhores espetáculos de 2009. O sucesso dessas duas novas encenações só prova que quando se há criatividade, talento, inteligência com uma dose de perfeccionismo, reconhecimento é conseqüência.


...fonte...
Fabio Farias
Tácito Costa
www.substantivoplural.com.br

fevereiro 03, 2012

UM ANJO PARA SER ADOTADO...

 Casarão que abriga o Anjo Azul foi vendido 
...E  o destino da escultura de Jordão é incerto
 crédito: Aldair Dantas

O ANJO QUE NINGUÉM QUER

Por
Yuno Silva

A incerteza de um futuro tranquilo volta a rondar o Anjo Azul, escultura de 12 metros que serviu como ponto de referência para galeria de arte homônima que funcionou entre 2007 e 2010 no Tirol. Com 28 toneladas de ferro e concreto, a obra do artista plástico José Jordão precisa encontrar rapidamente um novo endereço para afastar o risco de ser demolida. O Anjo já foi oferecido como doação para as prefeituras de Natal, Maxaranguape no litoral Norte e a serrana Monte das Gameleiras, mas os custos com sua remoção, transporte (dentro do RN) e reinstalação, além da necessidade de se contratar uma equipe especializada para executar o trabalho, ainda não permitiram a concretização de um acordo. 

A construção do Anjo Azul consumiu cerca de R$ 190 mil, e o custo total para ele mudar de lugar está estimado em R$ 30 mil. O artista se comprometeu em acompanhar todas as etapas do processo do trabalho e estará a postos para efetuar qualquer reparo.

Receoso de ver seu trabalho reduzido a escombros, pois o imóvel onde está instalado foi vendido à empresa pernambucana Adroaldo Tapetes que pretende construir uma nova sede para a filial natalense da loja e o proprietário já adiantou que o projeto não inclui a escultura, Jordão está engajado para dar um destino digno ao Anjo Azul. "Se o problema é o custo, estou buscando apoio da Fundação José Augusto e vereadores de Natal prometeram ajudar a conseguir parte desse dinheiro. Não estou pedindo nada pela obra de arte, mas não quero deixar ela de qualquer jeito", disse, informando que prefere não levar a escultura para à beira mar - "com a maresia, a escultura não vai durar mais de 30 anos, no máximo 50 anos. É pouco, quero que ela dure pra sempre!"

Segundo o artista, o prazo combinado com o empresário Adroaldo Carneiro para remoção da obra já passou. "Ele está abrindo mão do prazo. Para evitar esse vai e vem, quero que ele formalize a doação com documentos", aponta.

Adroaldo disse que "a obra não tem nada a ver com a proposta da loja, mas gostaria bastante que a escultura ficasse em Natal." Para o empresário o Anjo Azul poderia ficar em alguma praça, na entrada da cidade e até no canteiro central da via em frente ao local onde está hoje. "Adotaria e manteria o lugar para onde o anjo fosse", garantiu.

"Espero encontrar alguém interessado que cuide bem dele"
José Jordão

Em 2010, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Natal (Semsur) chegou a ser contatada pela Galeria Anjo Azul, mas a doação não prosperou: "Quando a Galeria entrou em contato conosco, houve interesse e fomos até o local fazer uma avaliação técnica e chegamos a conclusão de que o procedimento seria dispendioso e arriscado", declarou a assessoria de imprensa da Semsur na época. Os técnicos identificaram dois problemas básicos: primeiro, a escultura foi construída no próprio local, fato que dificulta a remoção e transporte; segundo, a estrutura é oca e isso torna a obra mais frágil do que aparenta.

Em abril do ano passado, a vitralista curitibana radicada em Natal Analys Berti, amiga de Adroaldo Carneiro, aceitou ficar com o Anjo Azul e tinha a intenção de transformar a escultura em ponto de referência na praia de Caraúbas, no município de Maxaranguape, onde tem uma casa e mantém seu ateliê. Ela chegou a pedir apoio para a prefeitura local, e como não concordou com o local sugerido para instalação acabou recuando. "Não quero colocar a escultura no meu quintal, imagino uma praça bem cuidada, onde as pessoas poderiam se encontrar para tirar fotos", disse.

Diante do impasse, em julho de 2011 entra em cena outro personagem dessa novela: o empresário Walde Faraj. Responsável pela realização do Circuito de Festivais Gastronômicos do RN, Faraj teve a ideia de levar a obra para Monte das Gameleiras, município serrano da Borborema Potiguar, divisa com a Paraíba. O local já estava escolhido, havia planos de mudar a cor(!) do Anjo para melhor contextualização (camuflagem?) com a paisagem. Porém, mais uma vez, a proposta não avançou. "Temos interesse, mas não temos como cobrir esses custos de R$ 30 mil", justifica a prefeita Edna Régia Sales Pinheiro.

Para Jordão, o investimento não é alto quando analisado o custo e o benefício que o Anjo Azul pode trazer - é fato o apelo turístico que a obra sugere. "Estou em campanha, oferecendo o Anjo, e espero encontrar alguém interessado que cuide bem dele." Para entrar em contato com o artista, os telefones são 84. 9603-8876/ 84.9950-0957.

  José Jordão Arimatéia
O pai do Gigante Anjo Azul
 crédito: Danilo Guanabara

ENTRE HIPÉRBOLES E SUPERLATIVOS: JORDÃO

 Por
Filipe Mamede

Quem passa pela movimentada Avenida Hermes da Fonseca não tem outra coisa a fazer, senão contemplar um gigante Anjo Azul que, de tão imponente e chamativo, virou ponto turístico da cidade. Construído pelo artista plástico José Jordão Arimatéia, 61, para ser a principal peça do marketing de uma galeria de arte homônima, o Anjo Azul, feito, basicamente, de gesso e sustentando uma envergadura de cerca de 12 metros de altura, consumiu pouco mais de dez meses para ser concluído. Depois que ficou pronto, é comum ver as pessoas pararem para tirar fotografias ao lado da obra, cuja grandeza parece ser a maior virtude.

O autor dessa obra é autodidata. De origem humilde, filho de lavadeira e cozinheira, muito cedo, ainda com oito anos de idade, Jordão já tinha uma certeza, queria ser artista. “Eu gostava mesmo era de cantar. Eu queria ser artista de qualquer coisa, mas não deu pra ser cantor. Ai um dia, lá no campo do Rio-Mar... tinha chovido. Tava uma planície bonita... comecei a desenhar no chão”. Foi exatamente nesse dia que o escultor deu de cara com o labor criativo que o acompanha até hoje. “Vinha passando dois cidadãos e um disse assim: ‘Esse menino é muito bom desenhista. Parece coisa do artista Newton Navarro”. Com essa frase, Jordão resolveu definitivamente que iria ser àquilo. Iria ser artista.

DE COMO A GENTE SE TORNA O QUE A GENTE É

Depois do singelo desenho na areia do campo de futebol, ele não parou mais. Em pouco tempo já desempenhava o ofício de Santeiro. Fazia as figuras divinas com as sobras de cimento da fábrica de pré-moldados onda trabalhava. “Eu sempre dava um jeito da massa sobrar. Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono descobriu, primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar”.

Com o tempo, Jordão foi se moldando até se transformar em escultor e entalhador. Cada tipo de trabalho foi conseqüência do outro. “Depois do ‘entalhe’ foi que eu me soltei. Comecei a viajar e a fazer exposição... a primeira foi numa bienal lá em Fortaleza... acho que em 1974. Levei dois ‘entalhe’, duas esculturas e ganhei dois prêmios”. Jordão continuou viajando. Foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, onde trabalhou para um estrangeiro que lhe arranjou uma viajem para a França. “Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.

De volta ao Brasil, Jordão confessa que tentou viver de arte na região sudeste. Ele relata que até conseguiu, mas como a família “não cortou o cordão umbilical”, acabou voltando mesmo foi para Natal. “Quando minha família não quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com olhar remoto”.

JORDÃO, O ERRANTE

Assim como as viagens que fez por aí, a relação de Jordão com a arte também é repleta de idas e vindas. Na sua história de vida, o artesão confessa que o alcoolismo foi uma personagem persistente em várias ocasiões. “Já deixei muitas vezes a arte. A bebida faz a gente perder a criação. Eu trabalhava só pra manter o vício. Um trabalho que valia quinhentos, eu vendia por duzentos, né... a sede era maior”. Mergulhado num poço que parecia não ter fim, Jordão ficou 15 anos no limbo sem criar uma peça sequer. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”.

Depois do período nebuloso de auto-exílio, Jordão deixou de beber e se casou de novo. Apagou de vez o capítulo dedicado às bebidas. “A arte me chamou de volta. Hoje eu vivo pro meu lar, minha esposa e minha filhinha”. (Jordão conta isso segurando a pequena Lua no colo).

Arte hiperbólica... 
 crédito: Danilo Guanabara

MODUS OPERANDI

Como criador de formas diversas, o artesão deixa transparecer certa vaidade em relação às suas obras. Sobre o colosso angelical, o artista plástico se diz bastante satisfeito com o resultado. “Ah, eu gostei demais. Ficou do jeito que eu achava que deveria ficar”. A história da produção da escultura é muito curiosa. O projeto chegou a mudar algumas vezes. Inicialmente programado para ter dois ou três metros, a obra ganhou volume de uma hora pra outra. “Anchieta (Dono da Galeria O Anjo Azul) chegou lá em casa e me pediu pra fazer uma escultura. Ele disse que queria uma escultura grande. Eu perguntei: E o tamanho? - Ele disse: uns três metros. Comecei a fazer. Depois ele quis que eu aumentasse. Anchieta disse, “Eu quero uma graaaaande. Não sei nem de que tamanho”.

Como de costume, na hora de elaborar suas obras, Jordão dispensa qualquer tipo de esboço. Para ele, “a arte não precisa de projeto”. E com o “pequeno detalhe” do tamanho resolvido, Jordão botou a mão na massa, ou melhor, na argamassa. “Anchieta disse: “Vamos fazer um desenho”. Ai eu disse: “Vamo fazer sem. Com desenho demora muito”. Mesmo com liberdade para fazer do jeito que quisesse, e com o Anjo praticamente ‘nas alturas’, Jordão teve que vencer alguns percalços. “Quanto tava lá em cima, lá se vem confusão... a prefeitura chegou alegando que a estrutura podia cair”. Foi preciso, então, arrumar um engenheiro para tocar a ‘obra’. “Aí o engenheiro veio, calculou e disse: “Vamos botar mais ferragem”. Ai colocamos mais ferragem... aí eles (Agentes da Prefeitura) pararam de vir””.
  
Fachada do  Edifício Morada Rio Mar - Natal/RN
localizado o maior painel construído em concreto da América Latina
obra de Jordão devidamente registrado no livro de recordes

A ARTE COMO COISA PÚBLICA E OUTRAS OBRAS

O ensaio ‘A origem da obra de arte’ foi publicado pela primeira vez em 1977, pelo filósofo alemão Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Abordando a natureza e o enigma da obra de arte, Heidegger defende que obra se faz a partir de uma tríade: artista, obra e um terceiro elemento – o observador, aquele que olha para a o criador e a criatura. Instintivamente, Jordão acaba confirmando essa teoria. “A obra tem que ser pública... eu gosto de fazer arte para o povo”.

Contrariando uma premissa básica de todo artista, que só revela a obra quando o trabalho se encerra, ele oferece o dia-dia de suas invenções de artífice. Revelando uma sensibilidade rústica no traçado, o Anjo Azul, por exemplo, pôde ser acompanhado durante toda a manufatura por àqueles que transitaram pela Hermes da Fonseca entre os meses de dezembro de 2006 a meados de outubro de 2007.

As obras de Jordão, além da grandiosidade e do labor feito ao alcance dos olhos observadores, carregam histórias que, a cada vez que são recontadas, tomam ares de anedota. Foi assim também com uma obra que tem como personagem o Rei do Baião e um popular santo brasileiro.

Engendrada ao ar livre, o trabalho compreende algumas alegorias do imaginário e da cultura nordestina como a religiosidade, a música e o povo. “Chico Brilhante era doido pra fazer um trabalho grande. Mas o trabalho grande que ele queria era um santo. Frei Damião”. Jordão retrucou logo de cara, dizendo que Frei Damião não fazia. “Pra fazer só Frei Damião eu não quero fazer”. O artista plástico ainda arrematou com o chiste: “Bata uma fotografia do Frei e bote aí na parede”. Jordão, defendendo uma obra mais elaborada e contextualizada, se ofereceu para projetar uma coisa diferente. “Me dê uns três meses pra eu pensar o que é que eu vou fazer, que aí a gente faz”.

Com o prazo expirado, Jordão voltou ao encontro de Chico Brilhante. “Eu to com o trabalho feito aqui na minha cabeça”. Chico quis saber qual era o projeto do artista. “Eu vou fazer um Luiz Gonzaga, por que ele gostava muito de Frei Damião. Aí eu juntei... Luis Gonzaga com Frei Damião... Luis Gonzaga tocando a sanfona... arrastando seu povo ao encontro de Frei Damião, olha que negócio bonito?”, se diverte Jordão rememorando a resposta que deu à Chico Brilhante. Para quem tem curiosidade de ver Luiz Gonzaga e sua trupe indo até à presença de Frei Damião, basta um dia, encher o tanque ou calibrar os pneus do carro. Digo isso porque, Jordão fez todo esse trabalho em pleno um posto de gasolina, num bairro de Natal.  
  
Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião
crédito: Danilo Guanabara

MAIS ALGUMAS

E não é só o Anjo Azul e nem Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião que ostentam um tamanho fora do comum. A maioria das obras de Jordão apresenta um aparente ‘complexo de superioridade’. Todas elas são enormes, assim como o Pescador que enfeita a Praça da Praia da Pipa desde 2005. “Eu passei um ano morando em Pipa. Aí um dia, o dinheiro tava se acabando... resolvi oferecer meu trabalho ao prefeito. Ele queria um santo. Aí disse que em Pipa tinha muito crente e uma “imagem” poderia dar confusão. Fiz um pescador... pescador não tem religião”. A política da boa-vizinhança de Jordão lhe rendeu mais alguns frutos. Além do pescador, Jordão acabou fazendo a figura de um enorme golfinho que enfeita a frente da Prefeitura de Tibau do Sul.

É de autoria de Jordão o maior painel construído em concreto da América Latina. Localizado no prédio residencial Rio-Mar, o trabalho, que é uma verdadeira façanha, está devidamente registrado no livro de recordes. Mas quem vê os 1000 metros quadrados de obra de arte pronta, não imagina o trabalho que deu. “Quando eu cheguei lá na construtora dizendo que eu queria trabalhar no prédio, acharam que eu era um hippie, um louco. Depois de um chá de cadeira foi que me receberam e eu disse que queria trabalhar as fachadas do prédio”. Conversa vai, conversa vem, Jordão conseguiu vender o projeto.

Com a palavra empenhada pelos representantes da construção, o artista fez algumas exigências. “Eu disse: Eu quero uma bancada nova, lápis. Quero papel bom... de diversos tipos... só papel de linha pesada”. Os pedidos de Jordão foram atendidos. Depois de 15 dias projetando, o artista pediu para que fossem buscar o esboço do trabalho. De volta ao escritório da construtora, pediram para Jordão mostrar o que ele tinha feito. “Vamos ali na mesa de reunião”, disse um engenheiro. Sem a menor cerimônia, o artista explicou que ali não caberia. “Tem que ser lá fora, na rua... Aí eu saí estirando o projeto no meio da rua... do tamanho que era o edifício, era o tamanho do projeto”. Passados mais de 20 anos da elaboração do painel, Jordão acredita que este trabalho foi obra do acaso. “Foi sorte demais. Você levar um projeto desses sem trabalhar na firma, foi muita coragem”.

Um outro lugar onde é possível se esbaldar com as obras de Jordão, dada a grande concentração de trabalhos realizados pelo artista é o Centro de Convenções de Natal. Ao todo são seis painéis: o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas. No saguão de entrada, como não poderia deixar de ser, estão dando as boas vindas um enorme pescador e uma rendeira. Feito com cimento, o material preferido de Jordão, existe ainda um trabalho com motivos indígenas dominando uma das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau. “Mas o que eu mais gosto ali no Centro é o Bumba meu boi. Ficou muito bonito”, conta Jordão orgulhoso.

PALAVRA DE MESTRE

Nas suas andanças artísticas, Jordão teve a oportunidade de trabalhar com nomes consagrados como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas. O maior artista plástico em atividade do Rio Grande do Norte defende que a obra de Jordão ‘dispensa adjetivos’. “Tenho ele como o mais expressivo escultor. Ele tem uma expressão muito própria. Não imita ninguém”. Além de considerar Jordão como um bom pintor, Dorian o compara à unanimidades da arte mundial. “Ele é da mesma linguagem de Michelangelo, Leonardo (Da Vinci). Tem um traço instintivo... vocacionado. Uma pena ele não ter condições de trabalhar com materiais nobres. Ele merecia trabalhar com mármore... bronze...”.

O reconhecimento do valor como feitor de arte de mão cheia, não se restringe à Dorian Gray. No último mês de outubro Jordão desembarcou na capital do país para participar de uma exposição no Salão Negro do Palácio do Congresso. A entrada solene do Palácio, é destinado à mostras, eventos culturais, lançamento de livros, recepções e celebrações religiosas. Dividindo o Salão com artistas de várias regiões do país, o artífice nascido no Rio-Mar revela que a oportunidade de ir à Brasília, surgiu à partir do Anjo Azul. “A senadora Rosalba Ciarlini passou e viu o Anjo, aí me convidou pra ir á Brasília. Achei bom, mas o trânsito faz muito barulho. Prefiro Natal”, analisa Jordão.

Produzindo com a mesma freqüência de antigamente, Jordão conseguiu juntar dinheiro e comprou uma casinha simples na Rua do Motor com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde desenhou na areia e vendeu seus santinhos feitos ora de cimento, ora de “argila do padre”. Ele montou um ateliê improvisado nos fundos, onde, cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior. Bem maior. Tão grande quanto as colossais esculturas que inventa.

 ...fonte...
Yuno Silva 

...fotografia...
Aldair Dantas
Danilo Guanabara

fevereiro 02, 2012

NATAL: UMA CIDADE POÉTICA NA 2ª GUERRA

Década de 40, Av Rio Branco, nº 795,  Natal, Rio Grande do Norte
Nos intervalos dos combates no Atlântico, a boa vida dos norte-americanos
em um passeio pelo centro da capital potiguar, a principal  base
  aérea do hemisfério sul na Segunda Guerra Mundial
fotografia: Ivan Dimitri/Wittlesey House / NATIONAL GEOGRAPHIC

NATAL NA  SEGUNDA GRANDE GUERRA
O QUE HOJE NA CIDADE LEMBRA ESSE PERÍODO?

GUERA E PAZ

Por
Ronaldo Ribeiro
  texto reproduzido integralmente
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
 Edição 14/ Junho de 2001
 
Alvamar Furtado de Mendonça não se esquece da noite quente e estrelada de 8 de maio de 1945. Jovem morador de Natal, recém-formado em direito, ele fora convidado para elaborar um discurso no Dia da Vitória, parte de uma cerimônia de celebração do fim da Segunda Guerra no Teatro Carlos Gomes.

Da Times Square, em Nova York, à praça Vermelha, em Moscou, multidões em êxtase comemoravam a data. Alvamar vestiu sua melhor roupa e escolheu bem as palavras, mas, na hora em que espiou do palco, teve um choque: a platéia, estranhamente, estava quase vazia. Os organizadores do evento, em pânico, saíram pelo bairro da Ribeira e recrutaram uma legião de transeuntes – mendigos, boêmios, prostitutas – para ocupar ao menos uma parte dos 600 lugares disponíveis. Alvamar enfim falou, mas um tom melancólico já tomara conta do teatro, das ruas, das pessoas. A cidade parecia estar de luto. Porque a guerra havia acabado.

Assim foi a Segunda Guerra em Natal: um tempo de emoções intempestivas, de alegrias e tristezas fora de hora e de contexto. Entre 1942 e 1945, ali funcionou o principal quartel-general dos países aliados no hemisfério sul. Por sua localização, no extremo nordeste da América do Sul, a capital do Rio Grande do Norte é uma das cidades brasileiras mais próximas do continente africano – 3 horas de vôo em jatos de hoje. Por isso ela era uma “ponte” entre os Estados Unidos e a Europa, uma escala obrigatória para todos os vôos que seguiam rumo à África ou aos combates no Atlântico Sul. Outras bases controladas por americanos seriam montadas no Brasil, do Amapá a Santa Catarina, mas nenhuma delas rivalizou em movimento e importância com o Campo de Parnamirim e a Base Naval de Hidroaviões, os dois núcleos militares de Natal durante a guerra.

Aeroporto da Base Aérea de Parnamirim,  na época da 2ª  Guerra Mundial,
destacado como "Trampolin da Vitória" pelos americanos

Em 1943, no auge dos conflitos no Atlântico, Parnamirim era o mais congestionado aeroporto do planeta, com até 800 pousos e decolagens num dia de pico. Natal era tão decisiva que ficou conhecida como a “encruzilhada do mundo”.

A capital potiguar, contudo, jamais foi palco de qualquer combate. Os submarinos alemães não se aproximaram da cidade e nenhuma bomba inimiga foi lançada sobre suas belas praias ou ruas. Os únicos tiros ouvidos eram de treinamentos rotineiros dos americanos. A tensão da guerra estava no ar, o.k., mas os momentos mais assustadores foram, na prática, os exercícios de defesa civil, como os blecautes. Apesar da óbvia falta de estatísticas oficiais sobre o assunto, Natal foi, com certeza, o lugar de melhor qualidade de vida para um soldado na guerra. Os quase 50 mil natalenses da época, por sua vez, puderam descobrir um mundo de novidades. “As pessoas cantarolavam jazz nas ruas. A vida aqui era diferente, sofisticada, uma festa”, lembra-se Alvamar Furtado, hoje com 86 anos.

Natal tornou-se a cidade mais badalada do Nordeste. Os cinemas militares, não raro, e sem que ninguém soubesse fora dali, recebiam convidados especialíssimos: os próprios astros de Hollywood. “Humprey Bogart voou de Marrocos para animar uma sessão de Casablanca no teatro aberto da base de hidroaviões. Os artistas eram comissionados para viajar pelos fronts do mundo todo. A presença deles servia para elevar o moral das tropas”, diz o historiador local José Melquíades, de 76 anos. Bette Davis, lembra-se ele, também visitou Natal. E a orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex.

Para imaginar como foram aqueles anos loucos em Natal, é preciso observar a guerra como um momento de liberação, um evento protagonizado por uma legião de jovens reprimidos que nunca haviam saído de rincões rurais como Arkansas, Nevada ou Montana. De repente, no meio do horror de um conflito mundial, eles se descobriram num lugar amistoso, tropical, encantador. O mar, a luz, as relações pessoais, tudo era novo em suas vidas. Por vias tortas – a guerra –, eles foram encaminhados ao paraíso.

Soldados americanos em Ponta Negra na Segunda Guerra 
Os natalenses tinham o hábito de ir à praia apenas
na “temporada de banhos”, as férias, entre dezembro e janeiro

Os branquelos gastavam seus dias de folga em banhos de mar nas praias de Areia Preta, Ponta Negra ou num outro trecho da orla, menor e mais reservado, que foi batizado Miami. Muitos pagaram um preço salgado pelo programa – terríveis queimaduras de sol –, mas pode-se dizer que eles inauguraram as belezas naturais que, décadas depois, iriam consagrar Natal: o mar verde, quente e calmo, as dunas mutantes, o vento perene. Os natalenses tinham o hábito de ir à praia apenas na “temporada de banhos”, as férias, entre dezembro e janeiro. Nos dias da guerra, eles descobriram que sua rotina poderia ser bem mais agradável.

Os soldados, apesar da influência de seus hábitos, não foram pioneiros. Natal já havia testemunhado a conquista do Atlântico pelos raids aéreos, vôos exploratórios que demonstraram a viabilidade das travessias oceânicas – em 1933, Charles Lindbergh amerissou ali vindo da África. Companhias internacionais de correio aéreo basearam-se nas margens do rio Potengi bem antes da guerra. Nos anos 60 a cidade inaugurou a primeira rampa de lançamentos de foguetes da América do Sul, a Barreira do Inferno. “A história de Natal está ligada ao desejo de voar”, pensa o sociólogo Leonardo Barata, que trabalha na montagem de um museu sobre os antigos aviadores e a Segunda Guerra. Desde 1997 ele já passou oito meses confinado em arquivos federais de Washington, D.C., e do Alabama rastreando imagens raras e documentos confidenciais.

Barata resgatou quase 70 quilos de papéis que jogam um pouco de luz sobre um capítulo obscuro da história do Brasil. De acordo com um documento do Serviço de Inteligência Naval americano, as forças do Eixo (Alemanha, Japão e Itália) possuíam, em 1940, 2 mil bombardeiros em condições de invadir o Nordeste brasileiro – se Hitler tivesse conquistado o norte da África, Pearl Harbor poderia ter sido em Natal. O Departamento de Guerra dos EUA considerava a cidade um dos quatro pontos mais estratégicos do mundo, comparada ao estreito de Gibraltar e aos canais de Suez e Dardanellos, todos no mar Mediterrâneo. Diante da “posição política dúbia” do governo brasileiro, vários planos de invasão do Rio Grande do Norte chegaram a ser elaborados pelos americanos. Em agosto de 1942, o Brasil enfim declarou guerra ao Eixo, depois de vários navios mercantes terem sido atacados por submarinos alemães, com quase 700 mortes. Os Aliados já estavam a postos.

Segunda Guerra
Clipper camuflado no Rio Potengi, no cais da Rampa, Natal/RN

Em 11 de dezembro de 1941, apenas quatro dias depois do ataque japonês a Pearl Harbor, nove hidroaviões amerissaram no rio Potengi para reforçar uma tropa de observadores já baseada na cidade.

O Natal de 1943 registrou um movimento recorde: cerca de 5 mil militares acantonados e 5 mil em trânsito na cidade. Acidentes aéreos, muitos deles com vítimas fatais, tornaram-se freqüentes. Parnamirim era um lugar tão agitado que, em julho do mesmo ano, foi construída ali uma fábrica da Coca-Cola – a primeira da América Latina e a quarta do mundo, depois dos Estados Unidos, do Canadá e da Inglaterra. Uma lanchonete e uma cervejaria, a PX Beer Garden, abririam suas portas no mesmo dia. Para celebrar, o comando do campo organizou uma festa com shows, hambúrgueres e cerveja gelada, tudo de graça. Tinha tudo para ser um evento histórico – e foi, só que contra todas as previsões. Os convidados tomaram todas, quebraram garrafas, depredaram a lanchonete e destruíram as plantas de um jardim vizinho. Nos meses seguintes, os soldados fartaram-se do refrigerante, mas a promissora cervejaria fechou as portas para nunca mais.

No embalo dessa euforia estrangeira, os natalenses tornaram-se, digamos, brasileiros de vanguarda. Bebiam Coca-Cola e chocolate gelado. Fumavam Marlboro e Lucky Strike. Mascavam chicletes de tutti-fruti. Os homens aboliram a vestimenta formal do dia-a-dia e adotaram roupas cáqui, de inspiração militar-esportiva. Ou jeans. Aprenderam a tratar-se como “My friend!”, a comer um lunch, a dançar foxtrote. No supermercado de Parnamirim, um dos maiores do mundo, os negócios chegaram a girar 50 mil dólares num único dia. Viver na capital do Rio Grande do Norte era, enfim, um grande barato. “Natal era como uma moça pudica que, da noite para o dia, arrumou um namorado liberal, escolado. Éramos muito conservadores. Os gringos ensinaram nossas garotas a beijar!”, lembra-se Protásio Pinheiro de Melo, 86 anos, um dos raros natalenses vivos que viram de perto o cotidiano das bases. Autodidata e com inglês fluente, ele era professor de português dos soldados.

 Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt (à sua frente),
 visitam a base aérea de Natal, no RN, em 1943

Ganhava em dólar para ensinar a eles apenas o bê-á-bá da convivência social – cortejar uma garota, por exemplo.

De fato, as moças ditas pudicas de Natal namoraram como nunca durante a guerra. Os soldados gozavam de status na sociedade local, mas, com a gritante desproporção demográfica, eles foram obrigados a abdicar de qualquer parâmetro estético. Belas, feias, altas, baixas, gordas ou magras, todas se deram bem. “Foi um período bem complicado para os rapazes daqui. Não havia moças solteiras na cidade”, completa o professor Protásio. As mulheres, que antes só saiam de casa acompanhadas dos pais ou irmãos, eram convidadas vips dos bailes dos clubes militares. Foi a classificação desses eventos – for all (para todos) – que semeou um dos dogmas da guerra: o termo forró. Alguns historiadores contestam. Para eles, a palavra teria origem em “forrobodó”, os bailes populares onde se dançava essa variante do baião.

Os soldados cumpriam todos os protocolos para conquistar as cobiçadas moças solteiras de Natal. Algumas histórias de amor acabaram bem, caso do sargento Donald Wroblewski, que se casou com Guiomar Gomes e ficou na cidade. Na calada da noite, porém, oficiais e praças seguiam em bandos para os diabólicos bordéis de Natal. O quadrilátero do sexo era formado pelas ruas Doutor Barata, Chile, Tavares de Lira e Frei Miguelinho, na Ribeira, perto do porto. As madrugadas ferviam em prostíbulos como o Wonder Bar, a Casa da Maria Boa, a Pensão da Estela e o Bar Ideal – os preços das mulheres dali eram os mais baixos de toda a América Latina. O índice de doenças venéreas cresceu tanto que grupos de soldados passavam semanas de cama, afastados das operações. Foi preciso uma intervenção oficial, em caráter de urgência. Para as garotas saudáveis da zona do meretrício, os médicos americanos emitiam atestados de saúde, os famosos love cards.

 Grupo de militares americanos, década de 40,  bebendo no Grande Hotel, 
defronte a igreja de Bom Jesus, no bairro da Ribeira, em Natal/RN
 
Natal pode ser considerada o berço do imperialismo americano no Brasil, um laboratório do modelo cultural que o país iria adotar nas décadas seguintes. Naqueles loucos anos, contudo, essa era uma leitura impossível mesmo para o mais informado morador da cidade. Na prática, muita gente viu na guerra apenas uma chance de ganhar um bom dinheiro – em notas bem verdinhas, diga-se. A economia local passou por uma enorme transformação: o custo de vida aumentou, o dólar virou moeda corrente no lugar do mil-réis, havia mercados e valores diferentes para brasileiros e americanos. Muita gente fez fortuna. Theodorico Bezerra, dono do Grande Hotel, encheu os bolsos abrigando a elite dos oficiais estrangeiros. A viúva Machado, dona das terras onde foi erguido o Campo de Parnamirim, idem. Maria Boa, a cafetina, não deixou por menos.

Os dólares em circulação geraram cobiça e episódios ridículos. Por um tempo, alguns natalenses conseguiram vender urubus depenados como se fossem galinhas para o centro de provisões de Parnamirim. Pior era feito com os sagüis, bicho de estimação favorito dos militares. As crianças embebedavam o pequeno primata, que, parecendo ser manso, passava a ter melhor cotação. Os soldados sempre acabavam no prejuízo, pois os animais ficavam indóceis e fugiam assim que despertavam do pileque.

Outra folclórica interferência dos brasileiros no way of life dos soldados viria pelos pés. Logo nos primeiros dias em Parnamirim, os estrangeiros começaram a reclamar da falta de vegetais no cardápio. Na região de Natal, na época, havia pouca agricultura e era difícil encontrar folhas ou legumes em quantidade. A saída foi montar uma horta nas margens de uma lagoa. Os comandantes escolheram para a empreitada soldados com comprovada experiência agrícola, vindos do Tennessee, no sudeste dos Estados Unidos. Mas um novo problema surgiu: as botas militares revelaram-se desconfortáveis demais para o trabalho no campo.

O combate na América ficou restrito ao Oceano Atlântico;
enquanto estavam em terra e distantes da África, 
em Natal os americanos passavam o tempo das mais variadas maneiras. 
Uma delas era jogando baseball.

Os jovens não desanimaram. Levaram uma foto de uma tradicional bota rancheira americana para Severino Edízio de Silveira, o melhor sapateiro da cidade. Ele analisou o modelo, concebeu uma versão mais leve, caprichou. Resultado: as botas fizeram tanto sucesso que mesmo os soldados que não trabalhavam na horta acabaram aderindo. Todos os que chegavam a Natal, mesmo em trânsito para outros países, logo adquiriam o seu par. A fama correu o mundo, principalmente nos territórios tropicais classificados como “cinturão da malária”. Nos fronts, soldados se identificavam pelos pés – as botas indicavam quem havia passado por Natal. Encomendas chegavam à cidade de destinos impensados, como as ilhas do Pacífico, congestionando as linhas de rádio em momentos tensos, quando se desenrolavam combates no meio do Atlântico. Um caos. O comando de Parnamirim teve de regulamentar o comércio dos calçados, mas Edízio continuou a fabricá-los para os natalenses até sua morte, em 1982.

O controle das bases dos Aliados foi transferido aos militares brasileiros em 5 de outubro de 1946, numa discreta cerimônia em Parnamirim. Aos poucos a euforia da guerra esmaeceu. A população da então famosa Natal saltou de 50 mil para 400 mil moradores e, por alguns anos, a cidade ainda sustentou-se como a mais importante do Nordeste, antes de ser ofuscada por centros como Recife e Salvador. Hoje, no rio Potengi, onde tudo começou, a vagareza dos barcos de pesca imprime à paisagem um tom bucólico que não combina com as aventuras radicais dos pioneiros aviadores que pousaram em suas águas . Perto dali, prostitutas insistem em sondar os marinheiros estrangeiros que ainda perambulam pelas noites decadentes da rua Chile, na beira do cais. Parece que todo o glamour ficou no passado.

Fevereiro de 2012, Av Rio Branco, nº 795, Natal, Rio Grande do Norte
 "NATAL NA 2ª  GRANDE GUERRA"
O QUE HOJE NA CIDADE LEMBRA ESSE PERÍODO? 
VEJA O QUE RESTOU DO PRÉDIO RETRATADO NO INÍCIO DESTA POSTAGEM!
fotografia: José Carlos - Administrador do blog Potiguarte

Os aviões, no entanto, continuam pousando em Parnamirim. As pistas construídas para a guerra servem hoje aos Boeings e outros jatos do Aeroporto Internacional Augusto Severo (o pioneiro aeronauta local, que morreu em Paris na queda de um balão, em 1902). Os turistas que chegam à capital potiguar refazem o percurso dos C-47, dos B-25 e de outros aviões da década de 40. Aterrisam lado a lado com Tucanos e Xavantes, os modelos usados no treinamento dos pilotos da base da Aeronáutica que ocupa a área do Campo de Parnamirim. Esse intenso tráfego aéreo, simbolicamente, perpetua a ligação da cidade com os anos da Segunda Guerra. A diferença, quase 60 anos depois, é que vivemos tempos de paz. Em busca do sol de Natal, desembarcam felizes em Parnamirim agora não apenas viajantes americanos, mas também alemães, japoneses e italianos.

...fonte...
Ronaldo Ribeiro
  texto reproduzido integralmente
 REVISTA NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
 Edição 14/ Junho de 2001

...frase... 
 "Toda guerra termina por onde começou: a paz."
(Jules Barthélemy-Saint-Hilaire)