março 15, 2013

O GUARDIÃO DA MEMÓRIA POTIGUAR

 VALÉRIO MESQUITA
O escritor e articulista Valério Mesquita toma posse como novo presidente
 da mais antiga instituição cultural do Estado. Mesquita adianta que a meta
 é digitalizar o acervo, informatizar as pesquisas, climatizar as principais
 salas  e facilitar a consulta, inclusive via internet.
Fotografia: Arquivo/TN 

 INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE
 VALÉRIO MESQUITA ASSUME PRESIDÊNCIA

 Por
Dani Pacheco
JORNAL DE HOJE 

“O Instituto é o guardião do maior acervo histórico do estado. Ele detém a guarda de todas as Leis e Decretos de Governo de 1835 a 1952; documentos de demarcações de terras de 1615 a 1807; Sesmarias de 1702 a 1716 e de 1748 a 1754; o livro de Barleaus que fala da colonização holandesa e onde descreve os oito anos do governo de Maurício Nassau; Bíblias antigas, bibliotecas; mapas geográficos, objetos de museus, manuscritos e registros eclesiásticos, fotografias de personagens da história politica, jurídica, religiosa, social e cultural do Rio Grande do Norte dos períodos colonial, imperial e republicano, entre outros, conta em entrevista para O JORNAL DE HOJE Valério Mesquita.

O ex-deputado estadual, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e escritor Valério Mesquita vai ser empossado como novo presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte nesta sexta-feira, dia 15, a partir das 19h30, na sede da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Valério substitui o procurador aposentado Jurandir Navarro, que por sua vez assumiu o posto após o falecimento de Enélio Petrovich que esteve durante 42 anos à frente da instituição.

ENÉLIO LIMA PETROVICH
Esteve na presidência do IIHGRN  por 42 anos, 
onde desenvolveu um inigualável trabalho em favor da cultura do RN
Teve como missão de vida, o zelo pela memória potiguar
Fotografia: AG Sued

“Serei empossado no mês em que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte comemora 111 anos de sua existência. Os desafios são muitos que enfrentarei, mas, tenho bem claro como iniciarei essa batalha. O foco será modernização, visibilidade e acesso. E, claro com uma gestão compartilhada junto a nossa diretoria. Queremos nos aproximar mais da sociedade como um todo, ouvi-los, retomar o interesse da população e principalmente, mostrar a riqueza que é o nosso acervo”, declara.

O antigo prédio que fica no número 622 da Rua da Conceição, na Cidade Alta, abrigou inclusive a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, o Tribunal Eleitoral, a Academia Norte-rio-grandense de Letras, além de outras entidades culturais, passará por uma reforma. “Inicialmente e urgentemente começaremos restaurando toda a rede elétrica e o prédio. Para isso, já fomos pedir ajuda ao CREA que nos orientará junto ao IPHAN (porque o prédio é tombado) para que a reforma seja realizada da melhor forma possível”, disse Valério Mesquita.

Instituto Histórico do RN e Igreja de N. S. da Apresentação
 A Casa do IHGRN, na Rua da Conceição, nº 622, foi construída em 1906
Expressa arquitetura neoclássica, típica da européia da 2ª metade do século XIX
Fotografia: Acervo

Outra necessidade do Instituto é quanto a climatização do prédio para que abrigue melhor os documentos. Verdadeiras relíquias, registro da memória do Rio Grande do Norte que está correndo risco de se perder por falta de um cuidado adequado. “Temos que garantir a segurança do acervo. Hoje em dia, boa parte do acervo está em condições precárias e preocupantes, para se ter uma ideia, muitas estantes estão há mais de 40 anos sem um tratamento adequado. Sabe o que significa isso, são documentos seculares que registram a nossa história que estão em risco por falta de uma manutenção adequada”, destaca.

Como um dos objetivos é aproximar a instituição da população, outra ação proposta por essa nova diretoria é digitalizar todo o acervo, informatizar as pesquisas, climatizar as principais salas e facilitar a consulta. “Para isso, contaremos com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que numa parceria e cooperação técnica pretendemos desenvolver todo esse processo de digitalização do acervo para a preservação da memória”, disse o presidente eleito.     
 
  INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO  DO RIO GRANDE DO NORTE
 Os Institutos Históricos e Geográficos são instituições responsáveis
 pelos acervos documentais que guardam grande parte das fontes
 da história colonial, imperial e republicana brasileira
Fotografia: Acervo
 
Mas, não é possível esquecer que para realizar todas essas ações há necessidade de recursos financeiros. Diante desta questão, Valério Mesquista prontamente disse que, “a falta de recursos realmente é o nosso principal obstáculo. Diante deste fato, antes mesmo de tomar posse, conseguimos que Assembleia Legislativa aprovasse uma emenda no orçamento deste ano do Governo do Estado no valor de R$ 200 mil para o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Sei que não será suficiente para tudo o que pretendemos realizar, por isso, que estamos em busca de parcerias com instituições públicas e privadas. Como também, vamos criar e inscrever projetos em editais do Governo Federal”.

E, disse ainda que, “Estamos diante da Copa do Mundo, evento que se espera trazer um grande número de turistas. É preciso que o Governo considere a cultura como uma das prioridades do Estado. A nossa sede fica no corredor cultural da cidade que está praticamente abandonado. É essa a nossa história que queremos mostrar? Não me preocupo somente com o Instituto. Quero que todo o entorno da sede seja cuidado, aqueles prédios e praças são registros da nossa história que se encontram abandonados e se tornaram palco de consumidores de drogas “.

Confira a  nova diretoria do IHGRN: Valério Mesquita – presidente/ Ormuz Simonetti – vice-presidente / Carlos Gomes – secretário geral/ Odúlio Medeiros – secretário adjunto / George Veras – diretor financeiro/ Eduardo Gosson – diretor adjunto/ José Targino Araújo – orador / Edgar Dantas – diretor da biblioteca, arquivo e museu. Conselho fiscal: Eider Furtado, Paulo Pereira dos Santos, Tomislav Femenick e Lúcia Helena Pereira.

...fonte...
 Dani Pacheco
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março 14, 2013

"CORDEL É POESIA, É CULTURA POPULAR"

 “O cordel é poesia, é cultura popular, é história narrativa, é a arte de rimar, 
cordel é coisa da gente, é canção, rima e repente, tudo num mesmo lugar”
 (José Acaci)     
 
 CORDELÍRICAS NORDESTINAS
DOCUMENTÁRIO MARCA O DIA DA POESIA EM NATAL

 Por
Dani Pacheco 

Nesta quinta-feira, 14 de março, Dia da Poesia, a literatura de cordel ganha destaque especial com o lançamento do documentário Cordelíricas Nordestinas na Pinacoteca do Palácio da Cultura, às 19h. “Esta obra retrata a poesia popular como se fosse uma colcha de retalhos porque reúne depoimentos de poetas e pesquisadores sobre os aspectos e a história do Cordel, onde eles interiorizam e apresentam seus pontos de vistas sobre sua arte”, conta a diretora Bruna Mara Wanderley em entrevista para O JORNAL DE HOJE.

“O cordel é poesia, é cultura popular, é história narrativa, é a arte de rimar, cordel é coisa da gente, é canção, rima e repente, tudo num mesmo lugar”. Essa descrição em forma de versos do cordelista José Acaci, que também é entrevistado no documentário, resume de forma lírica as formas de expressão que a Literatura de Cordel abrange, um dos aspectos retratados na obra.     
 
 Pega do Boi no Mato em Acari/RN
  Fotografia: Divulgação      
 
Em aproximadamente 50 minutos de duração, o documentário destaca a figura do poeta sertanejo e os diversos aspectos que compõem a Literatura de Cordel. A tradição do cordel, as normas técnicas, a métrica, a poética, as xilogravuras, entre outros aspectos são evidenciados através de depoimentos de cordelistas e também de pesquisadores da cultura popular com foco no cordel nordestino.

Em um passeio poético, o cordel é apresentado em todas as suas formas de expressão no documentário. O caminho é repleto de versos, lirismo e depoimentos que levam a refletir sobre as diversas nuances dessa arte. E para guiar esse passeio, os produtores do vídeo foram em busca das vozes e vivências de quem produz e valoriza a Literatura de Cordel no Nordeste.

O documentário Cordelíricas Nordestinas, produzido pelo coletivo de produtores independentes Caminhos Comunicação & Cultura, é patrocinado com recursos do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel do Ministério da Cultura, na edição 2010, que homenageia o poeta Patativa do Assaré.     
 
 Crispiniano Neto também participa do documentário
  Fotografia: Divulgação      
 
  DEPOIMENTOS

O Cordel é uma arte popular caracterizada por uma seqüência de versos que se encadeiam para contar uma história, e geralmente divulgada em folhetos amarrados em cordões, em bancas de revistas ou nas feiras livres. No documentário, essa arte é retratada com o objetivo de valorizar a riqueza das raízes populares brasileiras de maneira lírica.

Cordelíricas Nordestinas aborda também a história do cordel, uma arte originária da trovadoresca Europa medieval, que há muito tempo foi incorporada e ressignificada se constituindo numa das identidades do povo sertanejo.

O reconhecimento que a mulher vem alcançando dentro da produção do cordel é outro aspecto evidenciado no vídeo. São destacadas a sensibilidade, a inspiração e também a luta pelo seu lugar na literatura popular, já que o cordel durante muito tempo foi uma atividade em que predominava a figura masculina.  

 “Na realidade a ideia do projeto já existia, inicialmente, era para ser um longa, um doc-tv, quando surgiu esse incentivo e pensamos que poderíamos adaptar. Porque o que desejamos com o nosso trabalho é democratizar e dar acesso as expressões e manifestações artísticas populares. A cultura popular na realidade é a nossa paixão. E, um dos focos é a cultura de cordel”, lembra Bruna.   
 
 Equipe grava com o cordelista José Acaci
  Fotografia: Divulgação      
 
O período de produção, incluindo pré-produção, filmagens, edição e finalização durou cerca de 1 ano e seis meses.  Foram entrevistados mais de 30 nomes representativos do cordel do Rio Grande do Norte e de outros estados nordestinos. Entre eles, os paraibanos Medeiros Braga, cordelista que publicou vários livros e mais de 80 títulos em cordel, e Bráulio Tavares, que além de compositor, também é cordelista e pesquisador dessa arte.

Guiando o passeio, os poetas potiguares Antônio Francisco, um dos cordelistas de grande destaque no Nordeste, e Crispiniano Neto, que escreve versos há cerca de 20 anos, falam a partir de suas vivências sobre as características do cordel nordestino.

A equipe também ouviu repentistas, com destaque para o pernambucano José Edinaldo dos Santos, mais conhecido como o Ceguinho Aboiador. Uma das gravações foi realizada na cerimônia de criação da Academia norte-rio-grandense de Literatura de Cordel, quando diversos membros da academia foram ouvidos pela equipe de produção.

No Rio Grande do Norte, além de Natal e Mossoró, foram realizadas filmagens em Parnamirim, Acari, Serra do Mel, Sítio Novo, Caraúbas, Santa Cruz e Venha-Ver. Além da gravação de depoimentos, foram acompanhados também eventos que fazem parte do universo dos cordelistas, cantadores de viola e repentistas. Em Mossoró, a equipe gravou durante o I Festival de Cantadores do Nordeste, evento que reuniu alguns dos melhores cantadores do Nordeste para apresentação de versos de improviso. E em Acari, a Pega do boi no mato também foi registrada pela equipe.     
 
 Equipe grava depoimento do poeta Antônio Francisco 
Mossoró/RN
 Fotografia: Divulgação 

 DIREÇÃO

O documentário Cordelíricas Nordestinas é fruto de uma parceria entre os jornalistas Alexandre Santos e Bruna Mara Wanderley, que pretendiam destacar a Literatura de Cordel em uma obra audiovisual e viram no edital do Ministério da Cultura, uma oportunidade de concretizar a ideia. Além da inspiração, os dois dividem a direção do documentário.

Além de jornalista, Alexandre Santos é fotógrafo e documentarista. Ele trabalha com produção audiovisual há nove anos e é um dos fundadores do coletivo de produtores independentes Caminhos Comunicação & Cultura, que realiza projetos com foco na valorização da cultura popular. Entre suas produções se destaca a série Alma das Ruas, que retrata, em cinco documentários de curta-metragem, aspectos da vida de personagens da vida real, que vivem nas ruas de Natal. Um de seus trabalhos mais recentes, o curta Maré Alta, foi selecionado em 1º lugar no III Festival internacional de Cinema de Baía Formosa, e será exibido no próximo mês de abril, no Festival Off Plus Camera, na cidade de Cracóvia, na Polônia.

A jornalista Bruna Mara Wanderley atua com produção cultural e musical, e estreia na direção audiovisual com o documentário Cordelíricas Nordestinas. Ligada às expressões artísticas pela vivência no teatro, música e dança, ela também integra o coletivo Caminhos Comunicação & Cultura, tendo atuado em diversos projetos culturais de capacitação na área audiovisual, realizados pelo grupo. Em sua experiência com a área audiovisual, destaca-se a produção do documentário ficcional Mais que um filme legendado, lançado em 2008, sobre os anseios da comunidade surda no Rio Grande do Norte.     
 
 Equipe registra o processo de produção do livreto de cordel 
 Natal/RN
Fotografia: Divulgação      
 
 DISTRIBUIÇÃO

O lançamento do documentário Cordelíricas Nordestinas contribui para a valorização da cultura popular através da difusão do vídeo no Estado. Serão feitas mil cópias do vídeo, que serão distribuídas em todos os municípios potiguares.

Além disso, o projeto contempla uma versão voltada para o público surdo, com o uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Nas cópias que serão distribuídas, também está prevista a inclusão da audiodescrição, um recurso de tecnologia assistiva que transforma o visual em verbal, contribuindo para a inclusão de pessoas cegas junto ao público de produtos audiovisuais.

Na estreia do documentário, a equipe do Coletivo Caminhos Comunicação & Cultura pretende reunir os entrevistados e pessoas que colaboraram para a obra ser realizada em uma noite que renderá homenagens à poesia popular nordestina.

...fonte...
 www.olharcultural.com

...visite...
 http://mundocordel.blogspot.com.br/
http://www.ablc.com.br/   
 
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março 13, 2013

UM JEITO DIFERENTE DE FOTOGRAFAR

 HENRIQUE JOSÉ FERNANDES 
Professor e fotógrafo reúne depoimentos e experiências de
 dezenove fotógrafos para nortear aqueles que estão começando
Fotografia: Eduardo Maia/NJ
 
... FOTOGRAFIA ... 
 
INSTANTÂNEOS PARA TODA A VIDA  
 
 Por
Dinarte Assunção 
NOVO JORNAL 
 
Lições para quem está iniciando a partir de relatos e sugestões de quem já está calejado, mas não por isso menos empolgado, com a fotografia. É o mote central de “Aos Novos Fotógrafos Brasileiros” (ZooN, 80 pág.), que o fotógrafo e professor Henrique José Fernandes lança hoje na Livraria Saraiva, no Midway Mall, a partir das 19h.

A ideia do livro surgiu em 2010, em Brasília, quando Henrique José estava ajudando a fundar a Rede dos Produtores Culturais da Fotografia Brasilieira (RPCFB). A proposta, conta, era reunir orientações para quem está se aventurando na fotografia e queria fazer dela um instrumento profissional.

Henrique, que ensina fotografia na UnP e no Senac, resolveu apresentar essas ideias a partir de duas formas. Na primeira etapa, ele revisita o marco zero da fotografia em sua vida e faz uma digressão até a década de 1980, quando teve seu primeiro contato com a área.

  LOMOGRAFIA
 A fotografia foielevada a novos patamares a partir da popularização
dos equipamentos digitais, mas há um movimento mundial 
de pessoas encantadas com as imagens capturadas em 
película pela maquininha automática russa Lomo
Fotografia: Divulgação
 
Nesse retorno, Henrique aproveita para resgatar uma técnica de que se valeu no início de tudo: a lomografia, tipo de movimento fotográfico que utiliza câmeras automáticas de baixo custo e ainda usa os filmes negativos. “Resgatar agora a lomografia foi uma brincadeira estética. Eu quis brincar com o filme num mundo em que tudo, hoje, é digital”, analisa Fernandes. 
 
Para o autor, a lomografia é considerada um novo fazer fotográfico que até já resultou numa comunidade internacional de seguidores. Atualmente, considera ainda Fernandes, as câmeras lomo são objetos de uma cultura retrô, vivida principalmente por aqueles que, nascidos da era digital, visitam o processo químico da fotografia.

“Meus primeiros contatos com a lomografia foram impulsionados pela diversidade de formatos e possibilidades estéticas das suas máquinas. Definitivamente, a característica mais marcante e atraente da lomografia são os diversos modelos e formatos de câmera”, considera o autor, que utilizou dois tipos de máquinas para captar as imagens que ilustram o livro.

 LOMOGRAFIA
  A 'lomomania' gerou a criação de uma estética própria e cunhou 
o termo 'lomografia' em 1995, na Áustria, e as possibilidades de
experimentar a fotografia  à moda antiga (com filme em vez de pixels) 
Fotografias: Ingrid 
 
A partir da articulação que deu origem à Rede Brasileira, Fernandes decidiu documentar em lomografia o encontro que seria sediado em 2010 em Brasília. “Aí a ideia final do livro veio na véspera da viagem, quando peguei um gravador MP3 e resolvi levar para registrar depoimentos de fotógrafos brasileiros”, observa Henrique. No próprio livro, contudo, ele destaca que os depoimentos não têm relação com a lomografia.

“Os depoimentos buscam construir um pensar sobre a fotografia brasileira, seu momento atual, sua organização enquanto movimento em rede e que contribuições estes profissionais podem dar para alguém que esteja iniciando na fotografia”.

Assim, Henrique foi ouvindo alguns dos 120 colegas que se reuniram para formar a Rede, aos quais fez três indagações: 1) Qual o panorama da fotografia brasileira hoje? 2) Como você vê a criação da RPCFB? 3) Qual sua mensagem para um novo fotógrafo? As respostas do último questionamento inspiraram o título do livro.

HENRIQUE JOSÉ
No livro, o fotógrafo apresenta um caderno de campo reunindo 
experimentos e entrevistas de adeptos da lomomania
 Fotografia: Eduardo Maia/NJ

FOTÓGRAFOS DÃO CONSELHOS AOS JOVENS

Ao todo, o autor coletou e editou 19 depoimentos de diversos fotógrafos brasileiros. A escolha dos profissionais, revelou, foi feita aleatoriamente. “Eram 120, então fui pegando os depoimentos à medida que eles surgiam“. Para criar um conteúdo amplo, diz que editou o material de forma que as sugestões não se repetissem. Assim, restaram 19 ideias que os novos fotógrafos podem seguir sem medo de se arriscar.

Dentre as falas dos colegas catalogadas, ele diz que se lembra especialmente de uma, do fotógrafo Miguel Chica Oca, do Pará. “Ele fala sobre a luz. Diz que ser fotógrafo significa conhecer os princípios e saber valorizar essa origem, e saber que a luz, antes da fotografia, é muito mais coisa. São muitas possibilidades, e que a luz é um elemento vital”.

O time de profissionais, no geral, cita ao longo do livro lições que podem ser desprendidas da fotografia, como valores. Outros preferem dar conselhos práticos, como Mateus Sá, fotógrafo pernambucano que orienta aos iniciantes que estejam abertos para escutar tudo e a partir daí decidir e escolher o caminho que irão traçar: “a fotografia é muito ampla e não podemos ficar restritos; , ela tem muitas possibilidades”.

Um dos conselhos mais simples dados aos novos fotógrafos vem de Iatã Canabrava, de São Paulo. Quando a terceira pergunta lhe foi apresentada, ele disse lacônico: “Se comunique muito e o tempo todo. Não pare de se comunicar”.

 UM ALERTA: INFORMAÇÃO NÃO SIGNIFICA CONHECIMENTO

Henrique José Fernandes analisa que o momento atual propiciado pela tecnologia – que oferece recursos fotográficos a qualquer um – sugere uma reflexão sobre a arte da qual resolveur viver. “É preciso pensar a fotografia como uma linguagem, e, portanto, formada por elementos complexos que devem, antes de ser questionados, ter seu funcionamento entendido”.

Na opinião do fotógrafo, há atualmente um culto ao instrumento, à máquina fotográfica. “Quando na verdade, o importante é quem opera. É um problema essa gestão. As pessoas têm acesso à informação e acham que isso é conhecimento. Conhecimento é outra coisa, exige maturação”, defende o autor, que ainda estabeleceu a seguinte comparação: “Qualquer um tem acesso a uma gramática e pode entender o funcionamento da escrita, mas nem por isso pode ser chamado de escritor”, raciocina o fotógrafo. 
 
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março 11, 2013

ENCANTOS POTIGUARES EM FLOR DO CARIBE

 
 FLOR DO CARIBE 
Oito cidades e cerca de dois mil quilômetros percorridos, 
em pouco mais de 40 dias, para gravar as cenas da novela
 "Flor do Caribe" (TV Globo) no Rio Grande do Norte
 Muito sol, praias e cenários paradisíacos!
 Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

FLOR DO CARIBE
PAISAGENS DO RIO GRANDE DO NORTE SÃO CENÁRIOS NATURAIS

Via
TV GLOBO
NOVO JORNAL
TRIBUNA DO NORTE
 
Passear pelas falésias de Pipa, no Rio Grande do Norte, cruzar as dunas de Jenipabu, as minas de sal em Areia Branca e terminar a viagem na zona de mineração de Currais Novos - e isso tudo em menos de um minuto? Bem, isso será possível em Flor do Caribe, a novela da Rede Globo que estreia nesta segunda-feira, às 18 horas. Todos os ambientes descritos acima fazem parte da “Vila dos Ventos”, uma cidade fictícia no litoral potiguar, dotada de praias paradisíacas e uma bem desenvolvida produção salineira e mineral.  

Em Flor do Caribe, Vila dos Ventos é um dos destinos preferidos dos turistas que visitam o Rio Grande do Norte. E os cenários incríveis que serviram de pano de fundo para os personagens da novela de Walther Negrão estão ao alcance de todos. Belas paisagens do litoral do Rio Grande do Norte foram a inspiração para dar vida às belezas de Vila dos Ventos.

DUNAS DE JENIPABU/RN
Fotografia: Divulgação Rede Globo
 Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

Logo no primeiro capítulo, todos estes cenários devem brilhar nas televisões brasileiras. A ideia da Rede Globo é recuperar a audiência da faixa das 18 horas. As duas novelas que antecederam “Flor do Caribe” – “Lado a Lado” e “A vida da gente” – não conseguiram superar a taxa de 25 pontos de audiência. A média ficou em 18 pontos, segundo o instituto de pesquisas Ibope.
A primeira parte das gravações em terras potiguares foi realizada nos meses de novembro e dezembro. As cenas devem corresponder aos primeiros 30 capítulos da história. Foram mais de 50 pessoas trabalhando nas locações produzidas no RN. Já entre os meses de janeiro e fevereiro, a equipe passou pela Guatemala, no Caribe, e gravou nas cidades de Chichicastenango, Tikal e Semuc Champey. Os telespectadores vão poder ver cenários com vulcões, catedrais, monastérios e ruínas da civilização Maia. 
 
 JENIPABU/RN
 Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

Oito cidades e cerca de dois mil quilômetros percorridos, em pouco mais de 40 dias, para gravar as cenas da novela "Flor do Caribe" (TV Globo) no Rio Grande do Norte. Esse foi o cronograma cumprido por elenco, direção e equipe técnica entre os meses de novembro e dezembro do ano passado para materializar o folhetim criado por Walther Negrão, mesmo autor da também praiana "Tropicaliente" (1994).

Nas primeiras cenas do capítulo de estreia, uma praia surge em primeiro plano. As imagens mostram quatro aviões da Força Aérea Brasileira sobrevoando o litoral sul do Rio Grande do Norte. Imagens cortam para um ambiente ensolarado e surge a “Vila dos Ventos”, uma cidade fictícia no litoral. São vistas casas rústicas de pescadores, jangadas, redes de pesca e alguns moradores. Ambientada em solo potiguar, a Vila dos Ventos  fica entre as dunas do Rosado e de Jenipabu, a base área de Parnamirim e o mar de Pipa e Baia Formosa.     
 
 FLOR DO CARIBE
Henri Castelli grava em mina, a 200 metros de profundidade
As gravações ocorreram em uma mina de tungstênio, em Currais Novos/RN
  e contou com a participação de 120 profissionais
 Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

Divergências geográficas à parte, a novela global vai levar o Rio Grande do Norte, ao longo de sete meses de exposição, com 50 minutos diários, para o lar de milhões de brasileiros. A tradicional imagem de turismo de praia, como a hoje degradada Ponta Negra, ganha a companhia de recantos até então restritos aos potiguares, como os cenários de extração mineral, na cidade de Currais Novos e das dunas do Rosado, em Areia Branca. As dunas, por sinal, se estendem por 10 quilômetros quadrados e impressionam pelas diversas tonalidades de cores.

Boa parte da novela será gravada no Rio de Janeiro, onde uma cidade cenográfica foi montada para recriar a vila. Este cenário deve abrigar boa parte dos diálogos. Na história, Vila dos Ventos é um dos destinos preferidos dos turistas que visitam o Rio Grande do Norte. A economia local é concentrada no turismo e extração de tungstênio e diamantes. 

 BASE AÉREA DE PARANAMIRIM/RN
Flor do Caribe apostando na adrenalina
Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

As belezas naturais são apenas o plano de fundo de uma história que casa bem com o enredo das 18 horas. As novelas desta faixa de horário têm enredo simples e tipicamente romântico, com duração média de 50 minutos por capítulo. “Flor do Caribe”, dirigida por Jaime Monjardim, não irá fugir deste roteiro.

O primeiro dia do folhetim toma emprestados vários destinos turísticos potiguares. A maior parte das gravações está situada nas Praias de Jenipabu e de Pipa. Também irão aparecer a Base Aérea de Natal, algumas minas do município de Currais Novos e as dunas do Rosado, em Areia Branca. Os cenários servem apenas de pano de fundo para os personagens criados pelo autor Walther Negrão.

FLÁVIO FREITAS
 Fotografia:Adriano Abreu

ARTISTAS POTIGUARES EM FLOR DO CARIBE

Outras cores e tons,  além daqueles do litoral potiguar, irão colorir "Flor do Caribe".  A produção global fez um acurado apanhado junto a artistas plásticos e grifes locais de vestuário que serão incorporados à trama, com a intenção de manter a identidade visual com o Estado. Telas de Flávio Freitas e Roberto Medeiros, imagens fotográficas de Candinha Bezerra, e moda praia/verão da Avohai e Areia Dourada poderão ser vistas ao longo dos capítulos, acrescentando mais detalhes potiguares na telinha. 

Flávio Freitas está com 38 trabalhos seus em "Flor do Caribe". Ele cedeu os direitos das imagens à emissora, e o que aparecerá na tela não serão as telas originais, mas reproduções em técnica de plotagem, ou seja, impressas em lona com alta qualidade. "Não me informaram onde as imagens serão usadas. As negociações comigo duraram uns seis meses. Uma pessoa da produção que é amiga dos meus amigos já tinha visitado meu ateliê e visto alguns trabalhos, e depois fez contato comigo por e-mails", conta. Flávio enviou 90 imagens para a Globo, das quais foram escolhidas 38.

Segundo Flávio Freitas, os critérios para a escolha das telas não foram ditos a ele, mas todas têm em comum as cores alegres que remetem às paisagens potiguares. "Acredito que eles procuraram pinturas que remetessem às cores do nosso litoral, já que a história se passa na praia", afirma. O artista acha que a exposição na novela é uma boa vitrine, em um ponto de vista comercial. "Não é algo que traria o reconhecimento artístico que eu sonho, mas é claro que é muito positivo", pondera. 
 
 
ROBERTO MEDEIROS
Fotografia: Acervo Partiular
 
Doze pinturas de temas regionais, cotidianos e ingênuos (naif), de autoria de Roberto Medeiros, foram escolhidos para ornar "Flor do Caribe". "São telas em que retrato folguedos populares e danças típicas como congados, pastoril e boi de reis, além de cenas urbanas em bares e chorinhos", explica. A produção de arte explicou a Roberto que suas telas serão usadas em ocasiões diversas. Uma delas seria um comércio de praia ao ar livre inspirado no que é visto em Ponta Negra, com as telas no calçadão. Outras serão usadas em cenários fechados.

Roberto Medeiros conta que a produtora de arte da novela conheceu suas telas através de uma exposição no Bardallos. Ele foi ao Rio de Janeiro para assinar a liberação das imagens. Esta é a segunda vez em que Roberto tem trabalhos seus numa novela. A primeira foi em "Caras & bocas", de 2009. Ele confirma a boa repercussão que a mostra nas telas tem para o artista, algo que vai além do dinheiro. "Ser vista nacionalmente é bom para a arte potiguar. E o reconhecimento é o que mais vale para todo artista", afirma.     
 
 
 GRAZI MASSAFERA
Fotografia: João Miguel Júnior/Rede Globo

FIGURINOS PRAIANOS

Parte do figurino que o elenco vestirá vem de Natal. A marca Avohai enviou mais de 300 peças para o Projac. A escolha foi feita pelo próprio figurinista da novela, com peças que pertencem às quatro últimas coleções da Avohai, em criações da estilista potiguar Eveline Santos. São peças inspiradas na praia da Pipa, com estampas de cajus, golfinhos e papoulas, na padroeira do Estado, e as belezas das praias de Macau, Ponta do Mel, Areia Branca e Galinhos. As estrelas Grazi Massafera, Débora Nascimento e Daniela Escobar já foram vistas em cenas com as roupas da marca.

Em uma trama com vista para o mar, não poderiam faltar a moda praia. Os biquínis, maiôs e sungas usados pelos personagens ficaram a cargo da marca Areia Dourada. "São peças da coleção verão 2013, chamada 'Uma pitada de sal'. São inspiradas em Galinhos, com estampas do farol, pássaros, redes de pesca, etc. Elas têm um regionalismo muito forte", explica Graça Menezes, dona da marca. Ela ressalta que o marketing paralelo à novela ficará por conta da própria empresa. "É uma oportunidade boa, porque a Globo é a Globo. Basta saber aproveitar", conclui.


Sol, praias paradisíacas e paisagens impressionantes. Com essa mistura fica impossível não se render às belezas do Rio Grande do Norte, que são estampadas em Flor do Caribe! As semanas de gravações no estado foram suficientes para que elenco e equipe se apaixonassem pelo local e guardassem as melhores lembranças daqui.

...fonte...
 http://tvg.globo.com/novelas/flor-do-caribe/index.html
JALMIR OLIVEIRA - NOVO JORNAL
http://www.novojornal.jor.br/_conteudo/2013/03/cultura/8512-a-gente-vai-se-ver-na-vila-dos-ventos.php
TÁDZIO FRANÇA - TRIBUNA DO NORTE
http://tribunadonorte.com.br/noticia/artistas-do-rn-em-flor-do-caribe/244611

março 08, 2013

UM NOME A FIGURAR NA HISTÓRIA POTIGUAR

    JÚLIA AUGUSTA DE MEDEIROS
 UM NOME PARA FIGURAR NA HISTÓRIA  POTIGUAR
 A COMOVENTE HISTÓRIA DE UMA CAICOENSE À FRENTE DO SEU TEMPO
 Fotografia: Acervo Particular

!!! EDIÇÃO ESPECIAL !!!

HOMENAGEM DO POTIGUARTE AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER 

 O TRISTE FIM DE JÚLIA AUGUSTA
 OU ROCAS-QUINTAS

Por
Itaércio Porpino
 
Natal, década de 60, em algum lugar entre os bairros das Rocas e Quintas.

Garotos se divertem provocando uma senhora trôpega, suja e maltrapilha. Os meninos fazem coro: "Rocas-Quintas"! E ela, com o dedo em riste, revida: "Me respeitem, que eu tive vida importante"! A zombaria continua, e a mulher, que se tornou folclórica por fazer todo santo-dia, a pé, o mesmo itinerário da linha de ônibus Rocas-Quintas (daí o apelido), retoma as passadas ligeiras e nervosas, parando sempre para catar lixo e restos de coisas podres.

Caicó, final da década de 50.

Júlia Augusta de Medeiros, uma das mulheres pioneiras no jornalismo e na educação no Rio Grande do Norte nos anos 20, feminista, mulher de idéias avançadas, com participação destacada na vida pública e política do RN, tendo sido uma das primeiras mulheres a votar no Estado e exercido dois mandatos como vereadora, começa a apresentar lapsos de memória e a perder a sanidade mental. O estado de saúde vai se agravando e ela, que desafiara a sociedade assumindo uma postura ousada, termina seus últimos anos deprimida em Natal, no mais completo ostracismo, perambulando pelas ruas feito mendiga.

Júlia Medeiros, educadora e jornalista que um dia teve lugar cativo nas rodas de intelectuais, gozando da amizade e apreço de gente como Câmara Cascudo e Palmira Wanderley, é a mesma Rocas-Quintas. Em um minucioso trabalho investigativo, o jornalista natalense Manoel Pereira da Rocha Neto,  conseguiu unir os dois capítulos extremos dessa história e contá-la na íntegra pela primeira vez. "Júlia teve um passado obscuro, que ficou perdido, pois enquanto Rocas-Quintas ela falava quem tinha sido e ninguém acreditava. As pessoas a insultavam e a depreciavam", diz Manoel.

O objetivo de sua tese de doutorado no Departamento de Educação da UFRN, dentro da base de pesquisa Gênero e Práticas Culturais, era (e foi) falar das práticas pedagógicas de Júlia enquanto educadora, mas o jornalista acabou também mergulhando fundo na vida da personagem à medida que descobriu história tão rica e dramática. 
 
O autor, além de conseguir conceito máximo com a tese, acabou quitando uma dívida com a memória de Júlia Medeiros. "Em cinco anos de pesquisa, não encontrei quase nada em livro, a não ser algumas poucas citações, e também uma monografia do curso de História, em Caicó, sobre Júlia, mas muito superficial. A casa em que ela morou em Caicó foi demolida e no lugar existe atualmente uma boutique. Já a casa em que ela viveu em Natal, na rua da Misericórdia, Cidade Alta, foi demolida para a construção de uma praça. Até o túmulo e seus restos mortais, no Cemitério Parque, em Caicó, foram violados e extraviados. Ela não tem direito sequer a ser lembrada como cidadã no Dia de Finados. Em sua cidade natal, deu nome a uma rua e a uma escola. Foi só", fala.     
 
  JÚLIA AUGUSTA DE MEDEIROS
 "O vestir-se bem - desejo de distinção social na Caicó de 1939"
Júlia era um referencial para as  moças da alta sociedade caicoense
  Fotografia: Acervo Particular

A história de Júlia Medeiros, do nascimento à morte (1896 a 1972), foi totalmente reconstituída pelo jornalista Manoel Pereira da Rocha Neto e contada com riqueza de detalhes em seu trabalho. A maior parte das informações ele coletou com pessoas que foram vizinhas de Júlia, em Caicó e em Natal, e com os ex-alunos dela. "Foi uma pesquisa difícil. A família dela ofereceu muita resistência. Somente uma sobrinha sua, Julieta Dantas, que vive em Caicó, ajudou, cedendo inclusive um farto material fotográfico", conta Manoel, que chegou a pagar para conseguir uma cópia do atestado de óbito de Júlia Medeiros/Rocas-Quintas.

"A família não quis ceder, então fui até o 4º Ofício de Notas e paguei por uma cópia", conta Manoel. O laudo deixa em dúvida se Júlia cometeu suicídio, mas o jornalista acredita que ela tenha mesmo se matado. "Acho que o ostracismo e a depressão contribuíram para isso. Há um detalhe importante: Júlia morreu na madrugada do dia seguinte ao seu aniversário. Acho que em sua loucura ela pode ter tido um momento de lucidez e lembrado a data".

E esse não teria sido o único momento de lucidez em sua fase de loucura e mendicância. Certa vez, conta Manoel, ela ficou parada observando por bastante tempo a vitrine de uma loja de roupas. Quase foi presa ao tentar entrar. Isso só não aconteceu porque na hora passou uma pessoa de Caicó que a conhecia e contornou a situação. "Penso que ela estava recordando sua época de moça. As moças da alta sociedade caicoense só vestiam as roupas feitas por Maria do Vale Monteiro, costureira mais famosa da cidade. Mas antes Júlia tinha que vestir e aprovar. Por causa do corpo bem feito, ela era uma espécie de manequim no município".
 
 
O jornalista conta que, antes disso, Júlia havia adquirido uma máquina Singer pensando em fazer os próprios vestidos, como forma de relembrar a época áurea. Ela comprou em dez vezes sem juros, na Loja Natal, o que já era um sinal também de sua fragilidade financeira.  
 
   JÚLIA AUGUSTA DE MEDEIROS
Votando em Caicó/RN -  Participação ativa na vida pública 
 Júlia questionava a condição da mulher da década de 20
 Fotografia: Acervo Particular    

"Júlia veio para Natal já doente e, aposentada e deprimida, começou a perambular pelas ruas, levando sempre junto ao corpo um monte de penduricalhos. A cada dia seu estado mental ia se agravando. Ela já não cuidava da higiene, catava lixo e andava com roupas em trapos. Ninguém acreditava quando dizia ter sido uma pessoa importante", diz Manoel.

A aposentada Lúcia Bruno Damasceno mora na rua da Misericórdia, onde Rocas-Quintas viveu de 1960 até 1972, e confirma a informação do jornalista: "Ela vivia na rua catando coisas e entulhava tudo num porão em casa. Costumava dizer que foi uma mulher de destaque em Caicó, mas ninguém acreditava".
 
Exceção entre as meninas de seu tempo, Júlia Medeiros teve a sorte de pertencer a uma família abastada e de visão pedagógica diferente da maioria das famílias do início do século 20. O pai, Antônio Cesino Medeiros, detentor de grandes propriedades de terra em Caicó, sendo a maior e mais próspera delas a fazenda Umari, onde Júlia nasce no dia 28 de agosto de 1896, cuida desde cedo para que a filha tenha acesso à educação. A menina aprende as primeiras letras em casa com um mestre-escola e depois é mandada para estudar em Natal. 
 
Júlia deixa Caicó no ano de 1910. Com 13 anos, enfrenta uma jornada de oito dias em lombo de burro. Era uma comitiva em que estavam outras duas moças, Olívia Pereira e Maria Leonor Cavalcanti. A futura feminista hospeda-se em uma casa na Ribeira - a do professor de português João Vicente - e passa a estudar no Colégio Imaculada Conceição, onde conclui o ginásio. Em 1920, faz a seleção para a Escola Normal de Natal.  
 
  JÚLIA AUGUSTA DE MEDEIROS
Uma mulher à frente do seu tempo
Um nome para figurar na história do Rio Grande do Norte
Fotografia: Acervo Particular     

Forma-se em 1925 e, um ano depois, volta a morar em Caicó, passando a lecionar no Grupo Escolar Senador Guerra, a mais conceituada instituição de ensino do município. A essa época já escrevia para o "Jornal das Moças", periódico que logo passa a redigir sozinha com a saída da fundadora, Georgina Pires. A publicação, um marco no jornalismo feminino no Rio Grande do Norte, dura de 1926 a 1932.

Júlia Medeiros também já participava ativamente da vida pública de Caicó, envolvida com a elite intelectual e política da cidade. Ela foi amiga, entre outros, de Juvenal Lamartine, senador e governador em meados da década de 20, e de José Augusto Bezerra de Medeiros, governador que dominou a política no RN até 1930.

Considerada exímia oradora, Júlia notabiliza-se por questionar, em seus discursos de improviso, a condição da mulher da década de 20 - cuja vida resumia-se aos afazeres domésticos. Em suas falas em público, exigia, principalmente, o direito à educação e à cidadania. Sua amizade com a feminista Berta Lutz e suas idas ao Rio de Janeiro - onde tomava conhecimento da modernidade - fortaleciam ainda mais seus ideais. Júlia choca a sociedade caicoense com seu comportamento avançado. Ela passa a usar roupa preta - cor condenável a não ser em ocasião de luto - calça jeans e costas nuas. Ao aparecer nas ruas dirigindo um automóvel - um ford 29 (baratinha) que compra no Rio de Janeiro com dinheiro do próprio trabalho - promove um escândalo. Choca mais uma vez a sociedade ao recusar um pedido de casamento e ao ir morar sozinha, na casa de número 157 da rua Seridó.

O preço da "ousadia" acaba sendo alto. Júlia passa a ser excluída e alvo de preconceito. Na rua, é perseguida pelas crianças, que entoam uma cantoria assim: "Júlia Medeiros no seu carro ford, virou a princesa do caritó".

Antes de aposentar-se como professora, em 1958, se candidata a vereadora, sendo eleita para dois mandatos, de 1951 a 1954 e de 1954 a 1957. É nesse período que começa a apresentar lapsos de memória e a ficar perturbada mentalmente. Em 1960, a família a leva para Natal, entendendo ser essa a melhor opção. Júlia passa a morar sozinha, por vontade própria, em uma casa de frente para o rio Potengi, na rua da Misericórdia. Seu quadro de saúde vai se agravando e, na madrugada do dia 29 de agosto de 1972, aos 76 anos, morre como a mendiga Rocas-Quintas. Louca, pobre, esquecida e insultada; excluída da sociedade e da história.
   

...fonte...
 Itaércio Porpino  
(Reportagem publicada no jornal Tribuna do Norte em 18 de setembro de 2005)

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