abril 11, 2013

CURTA POTIGUAR TIPO EXPORTAÇÃO

 
 Realizadores potiguares embarcam para a Polônia, 
onde participam do Festival Off Plus Camera, na cidade 
de Cracóvia, dedicado ao cinema independente
Fotografia: Magnus Nascimento

CURTA POTIGUAR TIPO EXPORTAÇÃO

 Por
Alexis Peixoto 
Tribuna do Norte

O audiovisual potiguar está de malas prontas para a Europa. O curta-metragem “Maré Alta”, de Alexandre Santos e Dênia Cruz, foi selecionado para o Festival Off Plus Camera, em Cracóvia na Polônia, que será realizado entre os dias 12 e 21 de abril. Os videomakers vão exibir o filme para o público europeu e proferir palestra sobre a produção audiovisual potiguar, principalmente o realizado dentro da UFRN, além de participar de oficinas e debates. A oportunidade de apresentar o filme na Europa surgiu através da participação no III Festival Internacional de Cinema de Baía Formosa (Finc), onde “Maré Alta” conquistou o primeiro lugar dentro da temática “Minuto Verde” proposta pelo festival em Baía Formosa. O prêmio foi o passaporte para o evento no país europeu.

Além de “Maré Alta”, também foram selecionados para o festival na Polônia outros dois vídeos potiguares: “Natural” e “Mergulho no verde”. A equipe de “Maré Alta” é composta por cinco pessoas, sendo que uma, a editora Fernanda Pires, está estudando na Europa - os outros são Élmano Ricarte e Rômulo Sckaff. Como o prêmio só bancava uma viagem, os três membros restantes, estudantes de pós-graduação da UFRN, conseguiram as passagens com a UFRN – que por sinal mantém convênio com a Universidade Jaguelônica, de Cracóvia.

Para os documentaristas, a contrapartida será apresentar um seminário na universidade polonesa, apresentando a produção audiovisual acadêmica dos alunos de Comunicação Social da UFRN, além de programas e documentários produzidos pela TV Universitária. 


Alexandre e Dênia vão aproveitar a oportunidade da participação no Festival Off Plus Camera, que é totalmente dedicado ao cinema independente, para produzir um curta sobre as condições de produção dos cineastas independentes da Europa.  

“Diferenças culturais à parte, acredito que as dificuldades deles em relação à produção não é muito diferente da nossa”, diz Santos. “Queremos produzir um curta mostrando essa realidade e aproveitar para trocar experiências e ideias”.

A LENDA DO POÇO FEIO

Na volta, os realizadores pretendem entrar no terreno da ficção. O grupo já tem prontos o roteiro e uma pesquisa preliminar para o curta “A lenda do poço feio”, baseado em uma lenda do município de Governador Dix-Sept Rosado, o que faltam são recursos. Santos diz que as dificuldades enfrentadas na produção do curta refletem os motivos pelos quais a ficção audiovisual não decola no RN. Para ele, faltam políticas públicas que facilitem a captação de recursos, como pessoal qualificado e acesso a equipamentos de qualidade. “Uma coisa está relacionada à outra: não adianta ter os recursos se não existem bons atores ou profissionais capacitados para operar os equipamentos”.
 
A situação poderia ser remediada se o poder público investisse na classe audiovisual, com editais de produção, cursos profissionalizantes e oficinas. “É preciso que o governo comece a enxergar os produtores audiovisuais como uma cadeia produtiva. Não estamos aqui pra ficar brincando: queremos realizar”, afirma, cheio de convicção.
 
MARÉ ALTA

Filmado no distrito de Sagi, em Baía Formosa, o curta “Maré Alta” trata dos efeitos do avanço do mar sobre as casas dos moradores da praia. O filme tem um minuto de duração e é estruturado a partir da perspectiva de Dona Jacira, uma moradora do local.

Dênia Cruz conta que a intenção inicial do grupo era produzir um curta de seis minutos. Os planos mudaram quando o festival de baía Formosa lançou o concurso “Minuto Verde”, para premiar filmes de temática ecológica, com até sessenta segundos de duração. “Como já havia a ideia de inscrever o filme no Festival de Baía Formosa, resolvemos adaptar para não perder a oportunidade. Foi difícil, mas valeu a pena”, conta a produtora.

O grupo não descarta voltar ao tema e examinar os danos que o avanço da maré provocou em outros locais do litoral potiguar. Caiçara e São Miguel do Gostoso são algumas das locações que estão na mira do coletivo.

Mais do que filmar o movimento das ondas, os cineastas estão interessados em provocar reflexões sobre a relação homem-natureza. “A gente fala que o mar invade, mas na verdade foi o homem que se instalou ali, que foi se aproximando do litoral”, observa Alexandre Santos. “O tema é bastante universal. Acredito que isso inclusive vai facilitar a  aceitação do nosso filme na Europa”.

...fonte...
 www.tribunadonorte.com.br

...visite...
 www.offpluscamera.com

   Se copiar textos e ou fotografias, atribua os créditos!   
Os direitos autorais são protegidos pela Lei n° 9.610/98, violá-los é crime!

abril 09, 2013

"A MEMÓRIA FOTOGRÁFICA POTIGUAR"

 BAIRRO DA RIBEIRA VISTA DO RIO POTENGI NO FIM DO SÉCULO XIX
Uma pesquisa com os pioneiros da fotografia em Natal/RN revela que
muito do acervo se perdeu com o tempo, mas que não falta
quem tente resgatar a imagem da capital potiguar
 Acervo de Tavares de Lyra Neto
 Fotografia: Bruno Bougard (1904)

OLHAR SOBRE A HISTÓRIA 

Por
Henrique Arruda
DO NOVO JORNAL

A imagem mais parece uma pintura ou uma captura exata retirada de um sonho. É preciso olhar com bastante atenção por alguns minutos na tela para enxergar além do retângulo borrado e perceber o que aquela fotografia bastante rudimentar representa: a fome. Fome de uma multidão de flagelados da seca de 1904, reclamando uma providência em frente à residência do Governador da época, Tavares de Lyra.

O NOVO JORNAL resolveu olhar para o fundo do baú e pesquisar o começo da história visual do Rio Grande do Norte. Embora haja certa polêmica sobre a primeira foto do Rio Grande do Norte, os especialistas na área concordam com um nome: Bruno Bourgard. O alemão é o autor da foto descrita acima, publicada pela primeira vez pela Associação Potiguar de Fotografia (Aphoto) em dezembro do ano passado, retirada do acervo de Tavares de Lyra Neto.

“Essa imagem é um marco histórico e podemos dizer que ela é a primeira pelo peso que representa. Estava no acervo de Tavares de Lyra Neto, que mora em Recife e deu autorização para nós da APHOTO publicarmos no ano passado. Boa parte do acervo de Bourgard, inclusive, está em Recife, na Fundação Joaquim Nabuco. Aqui ninguém tem preocupação de preservar nada mesmo, veja como está a situação do acervo do Diário de Natal”, critica o presidente da Aphoto, Alex Gurgel.

Mesmo que este seja considerado o primeiro registro fotográfico feito no Rio Grande do Norte, Bruno Bourgard já podia ser encontrado em terras potiguares bem antes, em 1889, quando ele ainda não residia oficialmente em Natal e percorria o Nordeste registrando diversas paisagens. Bruno só escolheu morar em Natal alguns anos depois para substituir seu irmão, Max Bourgard que possuía um estúdio de fotografias na cidade, o Photographia Alemmã.
 

“Em 1903, Bruno Bourgard, contratado pelo Governo do Estado, registra as mais remotas paisagens de Natal que temos notícias. Todos os arredores da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação: Praça da Alegria, Praça da Matriz com vistas de suas principais edificações, Ruas da Conceição e São Antônio e foz do Potengi, tudo a partir do alto da torre da Matriz”, complementa.     
 
BRUNO BOURGARD
 Em 1904, o governador Alberto Maranhão solicitou seu estúdio 
para fazer  imagens da capital Natal, quando Alberto 
deixava o governo para Tavares de Lyra.
Fotografia:Blog História e Genealogia

NATAL COMEÇA COM O FIM DO SALGADO

O valor da foto que mostra os flagelados da seca é tão grande que a Aphoto atualmente tenta instituir na Assembleia Legislativa, através do deputado Tomba Farias, o dia 26 de setembro como o dia do fotógrafo potiguar. “Acreditamos que Bruno tenha feito a foto neste dia”, explica Gurgel, lembrando ainda que o dia nacional da fotografia é comemorado no dia 8 de janeiro. “Foi quando D. Pedro II, entre 1839 e 1840, trouxe a arte para o Brasil. Ele foi o nosso primeiro fotógrafo”, considera.

Para o jornalista Eduardo Alexandre Garcia, que há cerca de dois anos pesquisa freneticamente o começo da memória visual da cidade e faz questão de postar todos os achados em sua página do Facebook, Natal só começa a existir mesmo após o aterro do “Salgado”, o braço do rio Potengi que invadia a Ribeira, transformando a capital potiguar em 2 núcleos isolados: Ribeira e Cidade Alta. 


“E essa foto de Bruno representa exatamente isso. Esses homens serão empregados justamente nas obras de emergência do aterro do Salgado. Perceba que as mulheres e as crianças estão mais preservadas à frente e que os homens estão mais próximos da casa do Governador”, conta, apontando para a foto que, revelada em um banner, cobre quase toda a parede da entrada da sua casa.

“Somente após o aterro do Salgado é que a Praça Augusto Severo foi inaugurada em 1904, mudando completamente a rotina bucólica da cidade. No lugar do alagado do Salgado, sujo, a trazer doenças, uma praça a encher de sonhos de modernidade uma gente que reivindicava o aformoseamento urbano para tão pequena capital, que tinha dez mil almas vivas a vagar, se muito”, considera sobre a foto.
 
 Área da Santa Cruz da Bica, Natal/RN,  no início do século XX
Fotografia: Manoel Dantas 

MEMÓRIA NA UNIVERSIDADE

Há 4 anos o professor de fotojornalismo da UFRN, Itamar Nobre, pesquisa as raízes do fotojornalismo potiguar. O interesse surgiu pela própria falta de material disponível para usar como referência em sala de aula e a ideia é que muito em breve o acervo possa ser consultado pelos próprios universitários, além dos que colaboram com a pesquisa como bolsistas.

O primeiro objeto estudado foi o jornal mais antigo de Natal, o extinto “A República”, fundado em 1889. “Estamos digitalizando todo o arquivo disponível para termos acesso às fotografias. Mas no início da República não havia fotos porque o acesso era muito difícil. Com o tempo, é que elas começaram a surgir por concessões de imagens, e posteriormente através do possível primeiro fotógrafo potiguar a registrar a própria cidade, Manoel Dantas, entre 1918 e 1922”, avalia.
 
MANOEL GOMES DE PEREIRA DANTAS
Educador, jornalista, advogado, juiz e fotógrafo
 Nascido a 26 de abril de 1867, em Caicó/RN
Faleceu em NatalRN  em junho de 1924
 Fotografia: Site Mensagem Espírita 
 
O PRIMEIRO FOTÓGRAFO NATALENSE

O nome de Manoel Dantas, que faleceu em 1924, vítima de um infarto, é lembrado, aliás, entre todos os entrevistados como uma referência para a memória visual da cidade. Suas fotos foram publicadas pela primeira vez somente em 1981 quando o arquiteto João Maurício Fernandes de Miranda teve acesso aos negativos originais do fotógrafo e reuniu as mais conservadas no seu livro “380 Anos de História Foto-Gráfica da Cidade de Natal (1599 - 1979)”.

 “Manoel andava pela cidade com uma máquina e registrava praticamente todos os locais. Mas antigamente o filme tinha que ir para Paris, de navio, e passava entre 5 e 6 meses para voltar com o negativo impresso no vidro. A foto só poderia ser vista através do Visorama que era um equipamento específico da época”, explica.

“A demora era tanta para esse filme voltar impresso no vidro de Paris que as pessoas até brincavam dizendo que ele andava pela cidade com uma máquina sem filme porque ninguém via essas fotos”, conta o arquiteto remexendo em seu vasto arquivo que guarda em casa, dividido entre negativos de Manoel Dantas, fotos reveladas e outras no computador. “Fiz todo o livro com a ajuda de Osório Dantas, filho dele, que me cedeu todo o acervo do pai na época”, lembra.

As fotos de Manoel Dantas serviram como um guia para que João Maurício pudesse “atualizar” a memória visual da cidade quando pensou no seu livro. “Eu saía sempre aos domingos cheio de câmeras e, com a ajuda da minha esposa, visitava todos os lugares fotografados por Manoel Dantas. E assim fiz um confronto mostrando o ‘ontem’ e ‘hoje (naquela época)’ desses lugares”, detalha sobre a publicação de 1981. Atualmente ele trabalha na finalização de um segundo volume para a obra.

“Em 2004 eu repeti esse trajeto e agora nesse segundo livro que eu ainda não sei quando vai sair, virão três épocas diferentes para algumas imagens, além de novas fotos antigas que só chegaram a mim depois que fiz o livro naquela época”, conta. “Acho que este meu livro é muito importante para contribuir com a preservação da nossa história. Mas a verdade é que ao longo dos anos fui me decepcionando muito com Natal. Ninguém respeita aspecto algum da história dessa cidade, a não ser Câmara Cascudo. Tô vendo a hora de pedirem a canonização dele ao Papa”, desabafa.

Rua da Conceição - Cidade Alta - Natal/RN
Fotografia: Manoel Dantas

O RESGATE DE MANOEL DANTAS

“Na minha opinião Manoel Dantas é altamente injustiçado, muitas das imagens da cidade que estão pela internet são dele, mas sem nenhum crédito”, explica Abimael Silva, editor do Sebo Vermelho, enquanto aponta para uma foto que mostra um belo casarão onde hoje funciona a loja C&A, na Cidade Alta. “É uma pena terem destruído”, lamenta enquanto folheia uma edição de 380 Anos de História Foto-Gráfica da Cidade de Natal no Sebo Vermelho.

Até o final do primeiro semestre, o Sebo pretende lançar uma série sobre a memória visual do RN. Entre os homenageados, além do próprio Manoel Dantas, João Galvão também será lembrado. “Vamos editar um livro com cerca de 60 fotografias feitas por ele entre 1910 a 1930. Ele fotografou a cidade inteira e é outro que tem várias imagens pela internet, mas que ninguém sabe que são dele”, diz. 
 
Ponta Negra - Natal/RN
Fotografia: Jaecy
 
“João fazia como Jaeci Galvão fazia também. Pegava o negativo do filme e assinava cada foto com o seu nome, para que a imagem fosse revelada já com a sua marca, mas mesmo assim ainda circulam fotos dele sem créditos na internet”, comenta Abimael contando ainda que os arquivos fotográficos da participação de Natal na 2ª Guerra Mundial também estão na mira da editora.

“Serão dois álbuns que estamos editando junto com a Fundação Rampa, em parceria com Augusto Maranhão e Fred Nicolau, o presidente da Fundação. Cada álbum deve ter cerca de 100 fotografias porque o material é realmente vasto”, explica.
 
Memorial Câmara Cascudo - Antiga Casa da Fazenda - Natal/RN
 Fotografia: Manoel Dantas

ARQUIVO DE EDUARDO SEABRA ESTÁ PERDIDO

Outro fotógrafo importante da “velha guarda” foi Eduardo Seabra, que atuou na área até 1978 quando faleceu devido a complicações em sua diabetes. Ele chegou a trabalhar para o Governo do Estado como fotógrafo oficial e estima-se que seu acervo também fosse composto por registros importantes, mas a família não tem mais nenhuma imagem.

“Tudo se perdeu quando nos mudamos há alguns anos”, conta o filho de Eduardo, Ricardo Seabra, 50, que trabalha como guia de turismo. No início, ele chegou a acompanhar o pai em algumas expedições fotográficas. “Eu achava muito interessante, tanto que saía com ele para ajudar e aprender a fazer fotos. Ele tinha um laboratório de revelação, começou no preto e branco e depois passou para o colorido”, lembra.
 
Instituto Histórico do RN e Igreja de N. S. da Apresentação
 A Casa do IHGRN, na Rua da Conceição, nº 622, construída em 1906
Arquitetura neoclássica, típica da européia da 2ª metade do século XIX
Fotografia: Acervo IHGRN

INSTITUTO HISTÓRICO TEM ACERVO PEQUENO

Ao contrário do que se imaginava, a reportagem não encontrou um arquivo fotográfico muito consistente no Instituto Histórico e Geográfico de Natal. A maioria do acervo é constituído por poucos álbuns específicos, como o que conta a história dos primeiros anos do Hospital Onofre Lopes, quando ainda era conhecido como Hospital da Caridade Juvino Barreto.

Uma das imagens mais curiosas do álbum também é uma das primeiras a aparecer: um grupo de freiras aparentemente chateadas reunidas na entrada do hospital, todas de preto e muito sisudas. Na legenda: “Irmãs de Santana”. A “Seção de Hidroterapia” é outra que também pesa no olhar. A imagem tem uma iluminação sombria e sugere um ambiente nada convidativo, capaz de colocar medo em qualquer paciente. Ainda no álbum, pode ser encontrado o vestíbulo do hospital e detalhes da fachada principal, lateral e dos consultórios médicos da época.

“Temos alguns álbuns do Padre Miguelinho e de Augusto Severo, mas eles estão misturados. A gente nomeia, na medida do possível, porque tem coisa que não tem referência nenhuma. Só se os mortos chegassem aqui para conversar com a gente mesmo”, brinca a responsável pelo acervo fotográfico do Instituto há 16 anos, Wilma Alves, enquanto abre algumas gavetas do armário onde ficam as fotos. Por coincidência, ao lado do armário, um busto de Manoel Dantas observa as imagens como se também fizesse questão de zelar pelo pequeno acervo.
 
 Bonde elétrico trafegando pelo bairro da Ribeira - Natal/RN
O sistema de bondes na capital potiguar foi extinto em maio de  1955
Fotografias da época estão em mãos de inúmeros colecionadores 
Fotografia: Acervo do americano Allen Morrison - New York/EUA
 
MAIOR ACERVO DE NATAL AINDA SEM DESTINO

Recentemente, a imprensa potiguar parou para refletir sobre o valor da nossa memória visual principalmente diante das incertezas com o destino do acervo do Diário de Natal. O jornal foi extinto em outubro do ano passado e desde então quase 74 anos de história permanecem em suspense. Por enquanto, todo o arquivo continua recebendo os devidos cuidados de preservação no prédio que pertencia ao Diário, localizado na Zona Norte.

De acordo com o ex-diretor institucional do jornal, Deliomar Soares, que se desligou do cargo há dois meses, até quando acompanhou a situação, o grupo Pernambucano “Diários Associados” não tinha a intenção de transferir o arquivo para Recife. “Isso nunca existiu, o que eles estão fazendo é estudar as possibilidades de convênio com alguma instituição”, esclarece.

Uma das propostas mais recentes foi feita em janeiro à Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN] pelo jornalista Albimar Furtado, acompanhado da deputada federal Fátima Bezerra e outros colaboradores. A comissão que se formou apresentou a importância do material e em contrapartida a universidade se comprometeu em avaliar a possibilidade de comprar o acervo. “O acervo reúne até mesmo os jornais dos pracinhas, dos americanos que estavam hospedados na base aqui de Natal na época da Guerra. Eles faziam um jornal todo em inglês, mandavam lá para os EUA e o Diário tem essa coleção completa”, detalha o jornalista Albimar Furtado.
  
 
...fonte... 
www.novojornal.jor.br

...visite...
 www.historiaegenealogia.com
 www.mensagemespirita.com.br
 Pesquisador  Allen Morrison, de New York/EUA

  Se copiar textos e ou fotografias, atribua os créditos!  Os direitos autorais são protegidos pela Lei n° 9.610/98, violá-los é crime!

abril 05, 2013

O CHARMOSO CASARÃO DA DEODORO

O casarão número 479 da Av. Deodoro da Fonseca, em Petrópolis, Natal/RN
um dos últimos prédios de Natal a manter características da arquitetura 
neoclássica e art nouveau, passa por restauração.
Fotografia: Adriano Abreu/TN 

CASARÃO DA DEODORO EM PROCESSO DE RESTAURAÇÃO

 Por
Alexis Peixoto
 Tribuna do Norte

O casarão número 479 da Av. Deodoro da Fonseca, em Petrópolis, um dos últimos prédios de Natal a manter características da arquitetura neoclássica e art nouveau, passa por restauração. O imóvel, que é tombado pelo patrimônio estadual desde 1989, foi adquirido pelo empresário Flávio Azevedo, que pretende instalar no local um escritório da empresa Dois A Engenharia. Azevedo garante que a estrutura original da casa não será alterada e que a restauração está autorizada pelos órgãos competentes. No entanto, de acordo com o chefe do setor de patrimônio da FJA, Sérgio Wycliffe, a instituição que  tem responsabilidade sobre o prédio desconhece a obra.

As obras no casarão da Deodoro começaram há cerca de cinco meses. Segundo Flávio Azevedo, que na manhã de ontem acompanhou a reportagem do VIVER em uma visita ao imóvel, após a restauração, a casa se tornará um misto de espaço social e acervo da história da empresa, com biblioteca técnica e mostruário dos serviços realizados. Nos fundos do terreno da casa – que tem cerca de 1000 m² – será erguido um  segundo prédio com dois pavimentos e garagem, onde funcionará o escritório da empresa.  
 
O empresário garantiu que o  novo prédio não irá alterar a estrutura da casa principal. “Tivemos o cuidado de não usar   máquinas para cavar os alicerces, por medo de abalar as estruturas da casa. Todo o trabalho foi feito de forma manual”, disse Azevedo. Ele ressalta ainda que a altura da segunda edificação será levemente inferior à da casa principal, de modo a não comprometer a visão do prédio histórico. 

 A intenção do empresário Flávio Azevedo, proprietário do imóvel, 
é preservar ao máximo os traços originais do casarão, tombado em 1989.
 Imóvel pertenceu à família do médico Varela Santiago
 Fotografia: Adriano Abreu/TN 

AÇÃO DO TEMPO

Flávio Azevedo diz que as únicas alterações feitas no prédio original até o momento foram pequenos reparos no reboco e a reposição das telhas quebradas, para “prevenir contra as chuvas”. A parte interna da casa está nas mesmas condições em que foi deixada pelos proprietários anteriores.

Entre os aspectos originais  do casarão que não foram totalmente destruídos ao longo do tempo pela má conservação, ainda é possível ver parte do piso de madeira, o que sobrou do forro metálico desenhado em relevo que reveste dois cômodos e alguns pedaços dos vidros das portas e janelas.

A escada de alvenaria que dá acesso à casa pela fachada lateral também continua de pé, embora tenha perdido os ornamentos originais. O imóvel foi construído em 1916.

Flávio Azevedo diz que até o próximo mês um especialista em restauração irá visitar a casa, para elaborar um relatório. “Vamos nos esforçar em preservar todos os aspectos originais da casa, inclusive buscando materiais semelhantes aos originais para reparar os danos”, diz.        
 
 RESPONSÁVEL PELO TOMBAMENTO, ESTADO DESCONHECE RESTAURAÇÃO

Informado pela reportagem sobre o andamento da obra no casarão da Deodoro, o chefe do setor de patrimônio da Fundação José Augusto, Sérgio Wycliffe, disse desconhecer a realização do serviço. “Não fui informado sobre isso e acredito que não passou pelo nosso setor”, afirmou, para logo em seguida reconhecer as dificuldades de administrar os imóveis históricos sob a tutela do Governo do RN. “A FJA tem mais de 500 prédios tombados, é impossível tomar conta de todos”.    
 
Caso a obra realmente esteja sem o parecer técnico favorável, Wycliffe diz que o proprietário será chamado para prestar esclarecimentos junto à Fundação. “Vou checar os documentos relativos a essa obra para verificar se está tudo certo, caso contrário o proprietário terá que responder à Fundação”.

 INICIATIVA PODE ESTIMULAR OUTROS PROPRIETÁRIOS
 
Para o superintendente estadual do Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan-RN), Onésimo Santos, a  restauração do casarão da Deodoro pode trazer resultados positivos para a memória histórica da cidade. “A atitude do proprietário de restaurar o prédio é louvável e pode estimular outros a fazer o mesmo”, afirma.

Embora desconheça os detalhes da obra, já que o imóvel não está sob a competência do Iphan-RN, o superintendente afirma que o instituto está pronto para oferecer uma assessoria técnica na restauração da obra.  “Caso sejamos solicitados, estamos à disposição para ajudar no que for possível”, disse.

...fonte... 
Alexis Peixoto
www.tribunadonorte.com.br

 Se copiar textos e ou fotografias, atribua os créditos! 
Os direitos autorais são protegidos pela Lei n° 9.610/98, violá-los é crime!

abril 04, 2013

LUZ E AÇÃO PARA A CINEMATECA POTIGUAR

 
CINEMATECA  POTIGUAR
Projeto em desenvolvimento no IFRN-Cidade Alta, Natal/RN,
abre espaço para produções audiovisuais com pretensões de se 
transformar em local para pesquisas, exibições e debates
Arte: Reprodução/Divulgação

 CINEMATECA ABRE ESPAÇO PARA O AUDIOVISUAL POTIGUAR

Por
Alexis Peixoto
Tribuna do Norte

Imagine um espaço onde qualquer interessado em cinema possa assistir ou pegar emprestado filmes potiguares. Imaginou? Essa ideia está prestes a sair do papel graças à iniciativa da videomaker e jornalista Maryland Brito, que dá os toques finais no projeto da Cinemateca Potiguar em andamento na unidade Cidade Alta  do Instituto Federal do RN (IFRN). A criação do espaço coincide com a formatura da primeira turma do curso de Cinema da Universidade Potiguar (UnP), onde menos de um terço da turma original concluiu o curso. Os dois fatos, embora apontem em direções distintas, reaquecem a discussão em torno do audiovisual no Rio Grande do Norte.

Em linhas gerais, a Cinemateca Potiguar vai funcionar como uma videolocadora só de vídeos potiguares, onde qualquer pessoa interessada pode retirar os filmes, mediante cadastro e de forma gratuita. O espaço também funcionará como ponto de exibição e local de pesquisa. Para este último fim, uma pequena hemeroteca será montada no local, reunindo material publicado na imprensa sobre o audiovisual potiguar.

Maryland Brito explica que a ideia de criar o acervo de vídeos potiguares partiu da dispersão entre as pessoas que compõem o setor. “Em conversas com outros realizadores  fui percebendo que nós mesmos, que militamos no audiovisual potiguar, desconhecemos muita coisa que se produz aqui no Estado”, disse. “A ideia é centralizar as informações  para facilitar o acesso e promover a difusão”, explicou.

 NATAL/RN
A Capital potiguar está  inserida no Sistema Nacional de Cultura do MINC
Um dos fatos mais relevantes para a política cultural da cidade 
Fotografia: Canindé Soares   
 
MOSTRA NO MINC NORDESTE

Para compor o acervo da Cinemateca Potiguar, Maryland Brito pede a colaboração dos próprios realizadores: os filmes podem ser entregues durante o horário comercial na chefia de gabinete do IFRN-Cidade Alta. No envelope, deve constar ficha técnica e quatro cópias do vídeo em formato DVD: uma para empréstimo, outra para exibição na Cinemateca e uma terceira para reserva técnica.

A quarta cópia poderá ser enviada para a Sede Nordeste do Ministério da Cultura, em Recife, onde uma mostra dedicada ao audiovisual norte-riograndense vem sendo articulada.

A oportunidade já pode ser considerada uma conquista da Cinemateca Potiguar. Ao saber sobre o processo de criação do espaço, o Minc Nordeste abriu dois meses de pauta em sua sede para exibição de vídeos potiguares. Em troca, a Cinemateca Potiguar receberá uma mostra de filmes pernambucanos.

“Temos até o final de abril para enviar uma lista com os filmes selecionados para a mostra. Já conseguimos o espaço, só falta o pessoal enviar os filmes”, pede Maryland Brito.    
 
  "VIVA O CINEMA BRASILEIRO"
Quiteria Kelly no Longa de Buca Dantas
Fotografia: Divulgação 
 
PÚBLICO TEM INTERESSE

Como parte do projeto da Cinemateca Potiguar, uma pesquisa foi realizada entre espectadores de cinema para medir o interesse e conhecimento  sobre a produção local. O resultado foi surpreendente: mais da metade dos entrevistados se mostrou interessada no cinema potiguar.

De um universo de 56 entrevistados, 43 disseram ter assistido filmes potiguares recentemente.  Desses, 15 lembraram do nome dos filmes que assistiram – o documentário “Sangue do Barro” de Maryland Brito e Fabio DeSilva e o longa “Viva o Cinema Brasileiro”, de Buca Dantas foram os mais citados - fotos acima. Todos os entrevistados se disseram interessados em conhecer a produção cinematográfica potiguar.

A pesquisa foi feita pelo estudante de Produção Cultural do IFRN Cristiano Micussi, durante a edição 2012 do Goiamum Audiovisual e nas duas redes de cinema de Natal, nos horários de maior movimento. Micussi também conduziu uma pesquisa semelhante com realizadores potiguares, que elencaram algumas das principais dificuldades na produção. Captação de recursos, acesso à equipamentos e distribuição dos filmes foram os problemas mais citados.

 
  MARY LAND BRITO
Luz, câmara mas falta ação!
Produtores natalenses reconhecem que faltam apoio
 do poder público, cursos de formação e interação 
entre eles para fomentar a cena local
Fotografia: Divulgação 
 
HÁ MERCADO PARA CINEMA

Se a Cinemateca Potiguar gera otimismo, a formatura da primeira turma de Cinema da UnP tem um sabor melancólico. Dos 25 alunos que se matricularam em 2009, apenas quatro se formarão no final desse semestre.

O coordenador do curso e cineasta Fabio DeSilva admite que o número é pequeno, mas chama atenção para o fato de que muitos dos desistentes continuam trabalhando na área. “Mesmo os que desistiram continuam produzindo com a experiência adquirida no curso”, diz.

Em 2012 e 2013, o curso de Cinema não abriu novas turmas por falta de demanda. DeSilva lamenta, mas diz que o “hiato” será aproveitado para reestruturar o curso e que, em breve, novas turmas serão ofertadas.

Apesar da aparente falta de interesse de novos estudantes, o coordenador acredita que existe mercado para os formandos em cinema – em especial na área de publicidade e nas emissoras de televisão locais. Para ele, o problema mais grave do setor é a falta de organização.

“Enquanto o setor não se organizar, não vamos conseguir crescer. Se formos comparar com outros estados, estamos muito atrás da Paraíba, por exemplo”, afirma. “A criação da Cinemateca Potiguar é um ótimo momento para que possamos aprofundar as discussões em torno da captação de recursos, mecanismos de produção, distribuição e capacitação de pessoal”. 

Maryland faz coro com o colega cineasta. Para ela, a falta de organização se reflete na pouca variedade da produção. 


Se copiar textos e ou fotografias, atribua os créditos! 
Os direitos autorais são protegidos pela Lei n° 9.610/98, violá-los é crime!

abril 02, 2013

JENIPABU, HOJE E SEMPRE

  
 JENIPABU
Os empresários do setor turístico potiguar alertam gestores públicos
 sobre a necessidade de investir na melhoria da infraestrutura das praias 
do litoral Norte inseridas na Região Metropolitana de Natal/RN
  fotografia: Hélio Duarte

 JENIPABU, HOJE E SEMPRE

Por
Moura Neto
DO NOVO JORNAL

Contrariando as expectativas geradas com a inauguração da Ponte Newton Navarro, há pouco mais de quatro anos, as praias do litoral Norte inseridas na Região Metropolitana de Natal ainda sucumbem pela deficiência de infraestrutura e serviços básicos, o que afasta investimento privado e, consequentemente, os turistas que injetam vigor na economia da região.

Exemplo típico é Jenipabu, em Extremoz, a 20 KM de Natal, retratada pelo NOVO JORNAL na edição do último domingo. Empresários, comerciantes e bugueiros amargam a pior alta estação dos últimos anos, iniciando a partir dos prejuízos financeiros um movimento para exigir das autoridades providências que possam reverte o quadro sombrio.

Jenipabu despontou como combustível para a incipiente indústria do turismo potiguar ainda nas décadas de 70 e 80, quando o Morro do Careca, em Ponta Negra, figurava como cenário solitário entre os cartões postais que divulgavam as belezas naturais do Rio Grande do Norte para o resto do país.

 
 As águas da praia de Jenipabu são mornas, calmas e limpas
fotografia: Canindé Soares
  
Naquela época, porém, chegar à praia exigia espírito de aventura; o abastecimento de água era precário; a iluminação era a gás; o comércio só oferecia o básico. Mas era esse tipo de isolamento do centro urbano que atraia os poucos aventureiros que por lá chegavam, de transporte ou caminhando pela beira-mar a partir da Redinha, passando por Santa Rita, ainda mais paradisíaca do que a praia vizinha.

O Bar do Porra (assim chamado porque seu proprietário, Albino, só se referia aos clientes com o impropério na ponta da língua, mas com “todo respeito”, como gostava de frisar), nas proximidades das dunas por onde hoje trafegam bugues e dromedários, era o único reduto salutar para quem gostava de comer peixe frito e tomar cerveja jogando conversa fora com os amigos.
 
Um  passeio nas dunas de Jenipabu, divertimento e  fotos inesquecíveis
 os dromedários chegam a dois metros de altura e a pesar até 500 kg
fotografia: Ângelo Cabral

No início de 80 surgiu o Bar do Pedro, comandado por Pedro Vale, que oferecia melhor atendimento aos clientes e mais opções no cardápio em que se destacavam os frutos do mar. O negócio prosperou rapidamente, passando a receber famílias de veranistas e turistas, que ali chegavam de carro ou ônibus fretado pelas operadoras que começaram a explorar o litoral junto com os bugueiros.

Daí pra frente a comunidade desfrutou algum tempo de pujança econômica: havia emprego nos restaurantes, nas pousadas, nas barracas de quitutes e artesanato. Os pescadores passaram a navegar em suas jangadas com os turistas deslumbrados com a natureza do local.

O boom foi interrompido pela falta de visão dos gestores públicos, que não dotaram a praia de condições adequadas para atender ao turista exigente. O projeto de reurbanização não sai do papel, repelindo investidores. Se vivo fosse, Albino não deixaria por menos: e não vão fazer nada seus Porras? Com todo respeito.

...fonte... 
 Moura Neto

abril 01, 2013

ANGICOS: UM EXEMPLO MUNDIAL

EDUCADOR E FILÓSOFO PAULO FREIRE
Fotografia: Divulgação 

UM MÉTODO REVOLUCIONÁRIO EM EDUCAÇÃO
  
“É uma experiência. Uma experiência revolucionária”.  Foi assim que o jornal carioca Tribuna da Imprensa, em matéria datada de 1963, classificou o método de alfabetização de adultos do educador pernambucano Paulo Freire, posto em prática na cidade de Angicos, sertão do Rio Grande do Norte.

Em 2013, comemora-se o aniversário de 50 anos da experiência de Angicos. No dia 2 de abril de 1963, ninguém menos que o então presidente da República, João Goulart, deposto um ano depois por um golpe militar, esteve na cidade para o encerramento das atividades dos Círculos de Cultura, acompanhado pelo governador à época, Aluízio Alves.

Desde então, Angicos se tornou um símbolo para todos os interessados em educação popular. Os objetivos essenciais da experiência se constituíam num verdadeiro desafio: fazer com que os participantes aprendessem a ler, escrever e viessem a se politizar em 40 horas. A proposta era de uma educação para a democracia e construção da cidadania efetiva.  

O Governo do Estado decretou 2013 como o Ano Paulo Freire da Educação do Rio Grande do Norte. O decreto institui uma Comissão Executiva com a finalidade de cumprir algumas metas, entre elas, destacar a memória e a experiência na cidade de Angicos.  

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife em 1921, ficou órfão aos 13 anos e enfrentou uma infância difícil. Formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Em 1960, desenvolveu um método “simples e revolucionário” de alfabetização para adultos. Durante o governo do presidente João Goulart, coordenou o Programa Nacional de Alfabetização, que tinha o objetivo de alfabetizar cinco milhões de pessoas. Em 2 de maio de 1997, aos 75 anos de idade, um infarto silencia o educador e sua morte foi lamentada em todos os continentes.
 
  Alunos da primeira turma de alfabetização de Angicos/RN,
 reunidos para receber certificados
 Fotografia: Divulgação

ANGICOS
AS 40 HORAS QUE MUDARAM VIDAS

Por
Cledivânia Pereira 
Secretária de Redação
Tribuna do Norte

Das 380 palavras usadas pelos moradores do município de Angicos – localizado a 194 km de Natal – em 1963, FELICIDADE não foi identificada pelo grupo de educadores que implantaram na época o método de alfabetização “40 Horas de Angicos”, pensado e implementado pelo educador Paulo Freire. Nas palavras usadas no dia a dia das 300 pessoas que se matricularam na primeira turma da experiência, DEUS, PROMESSA, ESMOLA, CHUVA, BRANCO, PRETO, TRISTE, ALVOROÇO, MEDO, CORAGEM, CONFORMAÇÃO e INVERNO eram algumas das que se destacavam. Esse universo restrito de formação ortográfica (assim como a falta de outras, como FELICIDADE) podem construir, ainda hoje – com uma distância de exatos 50 anos – o cenário social, cultural e religioso do grupo que conseguiu decodificar, após as 40 horas de estudo, muitas das palavras que verbalizava no cotidiano.

 Paulo Freire (esq.) explica o projeto em solenidade de entrega
 dos diplomas no dia 2 de abril de 1963
 Fotografia: Divulgação

 OUSADIA
ALFABETIZAR MUITOS EM POUCO TEMPO

Pensado e estruturado pelo educador pernambucano Paulo Freire, o método  de alfabetização testado em Angicos tinha um objetivo ousado: alfabetizar adultos de forma rápida e barata. E o primeiro passo era o de catalogar as palavras usadas pelo grupo de alunos, pois essas embasariam as aulas. Nesta terça-feira, dia 2 de abril de 2013, a entrega dos diplomas de alfabetização dessa primeira turma completa meio século.

A comemoração da data será bem mais singela que o evento montado no dia da formatura – 2 de abril de 1963. Na solenidade estavam presentes o presidente da República, João Goulart, o governador do RN Aluízio Alves, o secretário estadual de Educação, Calazans Fernandes,  ministros de Estado, governadores do Nordeste, os 12 monitores do projeto – entre os quais o advogado Marcos Guerra –, os 300 alunos e suas famílias.

 
  A EDUCAÇÃO, A META - ANGICOS, O FOCO

No grupo das autoridades uma presença chamava a atenção. Fardado, lá estava o general Castelo Branco, que um ano após aquela aula de conclusão de curso assumiu a presidência da República com o golpe militar de 1964. Ele não fez pronunciamento público no encontro, mas disse a Calazans Fernandes que o projeto estava “engordando cascaveis”. Um ano depois, um dos atos de Castelo Branco após sua posse foi o de desarticular o grupo do educador Paulo Freire, que foi preso e exilado. O advogado Marcos Guerra, coordenador do projeto de Angicos, também foi preso e exilado.

Com a prisão dos educadores e a desarticulação do grupo, o projeto foi impedido de ser expandido no Brasil e as primeiras experiências do RN foram extintas.

Nesses últimos 50 anos a experiência de Angicos foi base de alguns estudos acadêmicos, citados milhares de vezes nas cadeiras de Educação nas universidades pelo mundo, tida como referência por, pelo menos, 50 países, mas não houve, até agora, uma releitura ou apropriação do método para a implementação em grande escala como era o objetivo da época. “O projeto é atual, precisa ser revisitado e atualizado. Mas está lá, pronto. Porque Paulo Freire não preparou um método de alfabetização. E sim um método de aprendizagem. De como conhecer. E isso não mudou”, avalia Marcos Guerra.

 
Antônio Silva estava entre os 300 aprovados pelo projeto
  Fotografia: Arquivo Tribuna do Norte 
 
ESTUDO

Em 2002, a educadora Nilcéa Lemos Pelandré analisou os “efeitos a longo prazo do método de alfabetização”. Após entrevistar alunos que se alfabetizaram em 1963, a estudiosa descreveu que os participantes aprenderam a escrever palavras isoladas e frases simples e curtas. A aprendizagem mais significativa, sendo a pesquisadora, foi a elevação da autoestima e a consciência de não se sentirem mais excluídos do mundo letrado.   

ESPERANÇA estava entre as palavras catalogadas pelos coordenadores do curso de alfabetização em Angicos. ESPERANÇA de dias melhores, ESPERANÇA de entender melhor o mundo, como bem sintetizou o aluno Antônio Silva, à época com 51 anos, que falou em nome da turma às autoridades presentes: “Temos muita necessidade das coisas que nós não sabia, e que hoje estamos sabendo. Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos mais, estamos sendo povo”. 

Presidente dos EUA, John Kennedy, esteve com Calazans Fernandes,
 Secretário de Educação do Rio Grande do Norte, 1962
  Fotografia: Arquivo Tribuna do Norte

ANGICOS VIROU EXEMPLO MUNDIAL

Até ser extinto, em 1964, o projeto “40 Horas de Angicos” ganhou repercussão nacional e internacional. No dia 2 de julho de 1963, o jornal New York Times apresentou o sucesso do projeto ao mundo. Depois disso, os holofotes da imprensa internacional foram voltados para a pequena Angicos que, à época, tinha pouco mais de 9 mil moradores, dos quais 75% moravam na zona rural. Nessa época, pelo levantamento da equipe de Paulo Freire, 75% da população era analfabeta. Para Angicos se deslocaram representantes de outros jornais, tais como: Time Magazine, Herald Tribune, Sunday Times, United e Associated Press e Le Monde.
 
 Registro de um círculo de cultura no Gama/DF (1963) 
com a presença de Paulo Freire, onde um alfabetizando 
carregando o filho,verbaliza e mostra sua descoberta - TU JÁ LÊ - 
no uso dos "peda­ços" (sílabas) da palavra TIJOLO.
 Fotografia: Divulgação

 PROJETO SERIA DIFUNDIDO EM TODO O PAÍS

Após a turma de Angicos, o projeto foi expandido para outras cidades do RN (Natal-Quintas, Mossoró, Caicó e Macau) e de outros Estados do país: Ubatuba (SP), Osasco (SP), Rio de Janeiro, Brasília, Aracaju (SE) e Porto Alegre (RS).

Em janeiro de 1964, um decreto federal instituiu o Programa Nacional de Alfabetização consagrando o “Sistema Paulo Freire para alfabetização em tempo rápido”. O programa previa a criação de 60.870 círculos de cultura, para alfabetizar, em 1964, 1.834.200 analfabetos. Nesse mesmo mês, o MEC designa o educador pernambucano para a Comissão Especial do Programa.

Mas a experiência exitosa de Angicos não conseguiu ser nacionalizada. No dia 14 de abril de 1964, apenas 13 dias após o Golpe de Estado, o Decreto nº 53.886, de 14 de abril de 1964, extingue o Programa Nacional. Dois meses depois, em 16 de junho, Paulo Freire foi preso, acusado de “subversivo e ignorante”. Marcos Guerra lembra que já no dia 2 de abril – um dia após o Golpe, a sede do projeto no RN foi totalmente desarticulada pelos militares.  Marcos Guerra também foi preso e exilado. “Mas eu faria tudo novamente. Fui preso algumas vezes, pois conseguia habeas corpus para sair da prisão... essa tentativa de sair da cadeia eu não repetiria mais hoje... a minha família sofreu muito com isso... se fosse hoje, eu teria saído para o exílio com maior rapidez. Mas, no mais, teria feito tudo novamente”.

...fonte...
Assessoria Mandato Mineiro
 www.mineiropt.com.br
 Cledivânia Pereira 
Secretária de Redação

www.tribunadonorte.com.br     
  
 “Alfabetizar-se não é aprender a repetir palavras, 
mas a viver a sua palavra, criadora de cultura.”
Paulo Freire     
   
 Se copiar textos e ou fotografias, atribua os créditos!
Os direitos autorais são protegidos pela Lei n° 9.610/98, violá-los é crime!