agosto 02, 2015

AS DOZE FASES DE ASSIS MARINHO

 
ASSIS MARINHO
Fotografia: Argemiro Lima/NJ
 
Um panorama da vida do artista Assis Marinho a partir de suas criações pictóricas mais famosas. Assim será construída a mostra “As Fases de Assis”  na galeria da Fundação José Augusto.. A mostra será composta de doze obras que representam os períodos mais marcantes na trajetória do artista nos últimos 20 anos e ficará em cartaz de 1º a 30 de agosto, em horário comercial.
 
Assis Marinho viveu sua infância entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Seu trabalho é reconhecido internacionalmente e seus quadros ornam até gabinetes na Esplanada dos Ministérios. Atualmente, vive frequentando ateliês, sebos e bares do Centro Histórico fazendo desenhos de rostos e santos em pedaços de folha e papelão.

AS DOZE FASES DE ASSIS MARINHO 
ARTISTA GANHA MOSTRA NA FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO

 Por
 Henrique Arruda
 Do Novo Jornal

São quase dez horas da manhã e cai uma chuva fina na Cidade Alta. Assis Marinho, 55, já está de pé, e a reportagem lhe acompanha de casa para sua outra casa, não muito distante dali, o Bar do Pedrinho, onde o artista plástico se sente mais a vontade para conversar. “Casa parece prisão”, argumenta no caminho.

Por ali todos conhecem o homem com alma inegável de artista e habilidade com pincéis, canetas, carvão ou qualquer material que possa expressar seus sentimentos nas telas. Ele inaugura uma nova exposição, “As Fases de Assis”, na galeria Newton Navarro, localizada na Fundação José Augusto (FJA), bairro de Tirol.

As doze telas que serão expostas, na verdade, foram criadas em 2013, durante uma de suas últimas internações em uma clínica de reabilitação localizada no município de Nísia Floresta, na tentativa de se desvencilhar de um vício que lhe acompanha desde os “30 e poucos anos”, o álcool.

Na época as telas lhe renderam uma primeira exposição bem sucedida, com mais de 40 novos trabalhos inéditos pintados durante a reclusão. Quase tudo foi vendido, restando apenas as poucas obras que o público poderá contemplar/adquirir a partir de hoje na FJA, com mais algumas recentes inspirações.

“São todas memórias de um período muito triste... porque o que muda com o passar dos anos é a sua técnica e não suas memórias. Todas as minhas pinturas saem delas, das mesmas memórias antigas”, considera emocionado já na cadeira do bar, sobre as telas que Atendem uma das maiores características de seu trabalho, a representação do sofrimento no olhar dos andarilhos da seca.

Muitos dos rostos que ele pinta até hoje, o artista plástico coleciona na memória desde a década de 60, quando   pequeno acompanhou a peregrinação da família ao partir de Cubati, na Paraíba, para São João do Sabugi, interior do Rio Grande do Norte. O trajeto foi feito a pé, cerca de 95 km sob o sol.

“Quando eu pinto, me sinto como uma mulher grávida porque converso com todos os meus personagens. Eu sei quem são os vários José, João ou Manel com aqueles olhares tristes, e não acho que pinte fragmentos do que vivi, porque fragmentos são pedacinhos, e meus personagens são inteiros”, poetiza Assis Marinho.

Na época da estrada, Assis tinha apenas cinco anos, mas já desenvolvia gosto pelo desenho, utilizando pedaços de carvão. Trocando o carvão por pinceis, hoje ele carrega também o gosto pela leitura das aventuras do Pateta e Mickey. “É massa demais. Eu leio desde garoto; o Pateta é o mais pateta que eu já vi”, comenta, dando uma gargalhada, junto com alguns outros comensais das mesas próximas.

“Em 69, quando eu finalmente saí de São João do Sabugi e vim para Natal, dormi na rua e via o que era tristeza todo dia”, complementa sobre suas memórias que parecem não se desgastar nem mesmo com o passar das telas. “Não faço ideia de quantos quadros já pintei nessa vida, mas podem tirar tudo de mim, menos os meus pinceis e a minha tinta”, ressalta.

A última internação na mesma clínica de reabilitação em Nísia Floresta aconteceu no ano passado, quando ficou cerca de “nove meses e dez dias” recluso, desta vez com uma severa restrição: a proibição de pintar novas telas. “O psicólogo recolheu todo o meu material”, relembra.

“Eu não pinto por elegância; eu pinto por sobrevivência revestida de ternura e afeto”, assegura Assis, mencionando que para esta exposição, aberta à visitação até o dia 30 de agosto, ele pretende iniciar um novo período criativo.

“To pensando em produzir novas telas todos os dias ao vivo na exposição. Vai ser muito bom para mim”, analisa, pedindo logo em seguida o caderno no qual eu escrevia a conversa até aquele momento. Em questão de minutos, Assis devolve o caderno, agora comigo mesmo pintado de caneta azul. “Para Henrique, com alegria”, assinou a caricatura no canto da página.

“Já teve jornalista que disse que o meu trabalho daria para ilustrar toda a obra de Graciliano Ramos ou de João Cabral de Melo Neto. Eu só sei que nunca vou esquecer dos rostos esquálidos quase mortos que vi pela estrada quando era menino”, conclui, se levantando em direção aos seus afazeres do dia.

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