abril 09, 2013

"A MEMÓRIA FOTOGRÁFICA POTIGUAR"

 BAIRRO DA RIBEIRA VISTA DO RIO POTENGI NO FIM DO SÉCULO XIX
Uma pesquisa com os pioneiros da fotografia em Natal/RN revela que
muito do acervo se perdeu com o tempo, mas que não falta
quem tente resgatar a imagem da capital potiguar
 Acervo de Tavares de Lyra Neto
 Fotografia: Bruno Bougard (1904)

OLHAR SOBRE A HISTÓRIA 

Por
Henrique Arruda
DO NOVO JORNAL

A imagem mais parece uma pintura ou uma captura exata retirada de um sonho. É preciso olhar com bastante atenção por alguns minutos na tela para enxergar além do retângulo borrado e perceber o que aquela fotografia bastante rudimentar representa: a fome. Fome de uma multidão de flagelados da seca de 1904, reclamando uma providência em frente à residência do Governador da época, Tavares de Lyra.

O NOVO JORNAL resolveu olhar para o fundo do baú e pesquisar o começo da história visual do Rio Grande do Norte. Embora haja certa polêmica sobre a primeira foto do Rio Grande do Norte, os especialistas na área concordam com um nome: Bruno Bourgard. O alemão é o autor da foto descrita acima, publicada pela primeira vez pela Associação Potiguar de Fotografia (Aphoto) em dezembro do ano passado, retirada do acervo de Tavares de Lyra Neto.

“Essa imagem é um marco histórico e podemos dizer que ela é a primeira pelo peso que representa. Estava no acervo de Tavares de Lyra Neto, que mora em Recife e deu autorização para nós da APHOTO publicarmos no ano passado. Boa parte do acervo de Bourgard, inclusive, está em Recife, na Fundação Joaquim Nabuco. Aqui ninguém tem preocupação de preservar nada mesmo, veja como está a situação do acervo do Diário de Natal”, critica o presidente da Aphoto, Alex Gurgel.

Mesmo que este seja considerado o primeiro registro fotográfico feito no Rio Grande do Norte, Bruno Bourgard já podia ser encontrado em terras potiguares bem antes, em 1889, quando ele ainda não residia oficialmente em Natal e percorria o Nordeste registrando diversas paisagens. Bruno só escolheu morar em Natal alguns anos depois para substituir seu irmão, Max Bourgard que possuía um estúdio de fotografias na cidade, o Photographia Alemmã.
 

“Em 1903, Bruno Bourgard, contratado pelo Governo do Estado, registra as mais remotas paisagens de Natal que temos notícias. Todos os arredores da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação: Praça da Alegria, Praça da Matriz com vistas de suas principais edificações, Ruas da Conceição e São Antônio e foz do Potengi, tudo a partir do alto da torre da Matriz”, complementa.     
 
BRUNO BOURGARD
 Em 1904, o governador Alberto Maranhão solicitou seu estúdio 
para fazer  imagens da capital Natal, quando Alberto 
deixava o governo para Tavares de Lyra.
Fotografia:Blog História e Genealogia

NATAL COMEÇA COM O FIM DO SALGADO

O valor da foto que mostra os flagelados da seca é tão grande que a Aphoto atualmente tenta instituir na Assembleia Legislativa, através do deputado Tomba Farias, o dia 26 de setembro como o dia do fotógrafo potiguar. “Acreditamos que Bruno tenha feito a foto neste dia”, explica Gurgel, lembrando ainda que o dia nacional da fotografia é comemorado no dia 8 de janeiro. “Foi quando D. Pedro II, entre 1839 e 1840, trouxe a arte para o Brasil. Ele foi o nosso primeiro fotógrafo”, considera.

Para o jornalista Eduardo Alexandre Garcia, que há cerca de dois anos pesquisa freneticamente o começo da memória visual da cidade e faz questão de postar todos os achados em sua página do Facebook, Natal só começa a existir mesmo após o aterro do “Salgado”, o braço do rio Potengi que invadia a Ribeira, transformando a capital potiguar em 2 núcleos isolados: Ribeira e Cidade Alta. 


“E essa foto de Bruno representa exatamente isso. Esses homens serão empregados justamente nas obras de emergência do aterro do Salgado. Perceba que as mulheres e as crianças estão mais preservadas à frente e que os homens estão mais próximos da casa do Governador”, conta, apontando para a foto que, revelada em um banner, cobre quase toda a parede da entrada da sua casa.

“Somente após o aterro do Salgado é que a Praça Augusto Severo foi inaugurada em 1904, mudando completamente a rotina bucólica da cidade. No lugar do alagado do Salgado, sujo, a trazer doenças, uma praça a encher de sonhos de modernidade uma gente que reivindicava o aformoseamento urbano para tão pequena capital, que tinha dez mil almas vivas a vagar, se muito”, considera sobre a foto.
 
 Área da Santa Cruz da Bica, Natal/RN,  no início do século XX
Fotografia: Manoel Dantas 

MEMÓRIA NA UNIVERSIDADE

Há 4 anos o professor de fotojornalismo da UFRN, Itamar Nobre, pesquisa as raízes do fotojornalismo potiguar. O interesse surgiu pela própria falta de material disponível para usar como referência em sala de aula e a ideia é que muito em breve o acervo possa ser consultado pelos próprios universitários, além dos que colaboram com a pesquisa como bolsistas.

O primeiro objeto estudado foi o jornal mais antigo de Natal, o extinto “A República”, fundado em 1889. “Estamos digitalizando todo o arquivo disponível para termos acesso às fotografias. Mas no início da República não havia fotos porque o acesso era muito difícil. Com o tempo, é que elas começaram a surgir por concessões de imagens, e posteriormente através do possível primeiro fotógrafo potiguar a registrar a própria cidade, Manoel Dantas, entre 1918 e 1922”, avalia.
 
MANOEL GOMES DE PEREIRA DANTAS
Educador, jornalista, advogado, juiz e fotógrafo
 Nascido a 26 de abril de 1867, em Caicó/RN
Faleceu em NatalRN  em junho de 1924
 Fotografia: Site Mensagem Espírita 
 
O PRIMEIRO FOTÓGRAFO NATALENSE

O nome de Manoel Dantas, que faleceu em 1924, vítima de um infarto, é lembrado, aliás, entre todos os entrevistados como uma referência para a memória visual da cidade. Suas fotos foram publicadas pela primeira vez somente em 1981 quando o arquiteto João Maurício Fernandes de Miranda teve acesso aos negativos originais do fotógrafo e reuniu as mais conservadas no seu livro “380 Anos de História Foto-Gráfica da Cidade de Natal (1599 - 1979)”.

 “Manoel andava pela cidade com uma máquina e registrava praticamente todos os locais. Mas antigamente o filme tinha que ir para Paris, de navio, e passava entre 5 e 6 meses para voltar com o negativo impresso no vidro. A foto só poderia ser vista através do Visorama que era um equipamento específico da época”, explica.

“A demora era tanta para esse filme voltar impresso no vidro de Paris que as pessoas até brincavam dizendo que ele andava pela cidade com uma máquina sem filme porque ninguém via essas fotos”, conta o arquiteto remexendo em seu vasto arquivo que guarda em casa, dividido entre negativos de Manoel Dantas, fotos reveladas e outras no computador. “Fiz todo o livro com a ajuda de Osório Dantas, filho dele, que me cedeu todo o acervo do pai na época”, lembra.

As fotos de Manoel Dantas serviram como um guia para que João Maurício pudesse “atualizar” a memória visual da cidade quando pensou no seu livro. “Eu saía sempre aos domingos cheio de câmeras e, com a ajuda da minha esposa, visitava todos os lugares fotografados por Manoel Dantas. E assim fiz um confronto mostrando o ‘ontem’ e ‘hoje (naquela época)’ desses lugares”, detalha sobre a publicação de 1981. Atualmente ele trabalha na finalização de um segundo volume para a obra.

“Em 2004 eu repeti esse trajeto e agora nesse segundo livro que eu ainda não sei quando vai sair, virão três épocas diferentes para algumas imagens, além de novas fotos antigas que só chegaram a mim depois que fiz o livro naquela época”, conta. “Acho que este meu livro é muito importante para contribuir com a preservação da nossa história. Mas a verdade é que ao longo dos anos fui me decepcionando muito com Natal. Ninguém respeita aspecto algum da história dessa cidade, a não ser Câmara Cascudo. Tô vendo a hora de pedirem a canonização dele ao Papa”, desabafa.

Rua da Conceição - Cidade Alta - Natal/RN
Fotografia: Manoel Dantas

O RESGATE DE MANOEL DANTAS

“Na minha opinião Manoel Dantas é altamente injustiçado, muitas das imagens da cidade que estão pela internet são dele, mas sem nenhum crédito”, explica Abimael Silva, editor do Sebo Vermelho, enquanto aponta para uma foto que mostra um belo casarão onde hoje funciona a loja C&A, na Cidade Alta. “É uma pena terem destruído”, lamenta enquanto folheia uma edição de 380 Anos de História Foto-Gráfica da Cidade de Natal no Sebo Vermelho.

Até o final do primeiro semestre, o Sebo pretende lançar uma série sobre a memória visual do RN. Entre os homenageados, além do próprio Manoel Dantas, João Galvão também será lembrado. “Vamos editar um livro com cerca de 60 fotografias feitas por ele entre 1910 a 1930. Ele fotografou a cidade inteira e é outro que tem várias imagens pela internet, mas que ninguém sabe que são dele”, diz. 
 
Ponta Negra - Natal/RN
Fotografia: Jaecy
 
“João fazia como Jaeci Galvão fazia também. Pegava o negativo do filme e assinava cada foto com o seu nome, para que a imagem fosse revelada já com a sua marca, mas mesmo assim ainda circulam fotos dele sem créditos na internet”, comenta Abimael contando ainda que os arquivos fotográficos da participação de Natal na 2ª Guerra Mundial também estão na mira da editora.

“Serão dois álbuns que estamos editando junto com a Fundação Rampa, em parceria com Augusto Maranhão e Fred Nicolau, o presidente da Fundação. Cada álbum deve ter cerca de 100 fotografias porque o material é realmente vasto”, explica.
 
Memorial Câmara Cascudo - Antiga Casa da Fazenda - Natal/RN
 Fotografia: Manoel Dantas

ARQUIVO DE EDUARDO SEABRA ESTÁ PERDIDO

Outro fotógrafo importante da “velha guarda” foi Eduardo Seabra, que atuou na área até 1978 quando faleceu devido a complicações em sua diabetes. Ele chegou a trabalhar para o Governo do Estado como fotógrafo oficial e estima-se que seu acervo também fosse composto por registros importantes, mas a família não tem mais nenhuma imagem.

“Tudo se perdeu quando nos mudamos há alguns anos”, conta o filho de Eduardo, Ricardo Seabra, 50, que trabalha como guia de turismo. No início, ele chegou a acompanhar o pai em algumas expedições fotográficas. “Eu achava muito interessante, tanto que saía com ele para ajudar e aprender a fazer fotos. Ele tinha um laboratório de revelação, começou no preto e branco e depois passou para o colorido”, lembra.
 
Instituto Histórico do RN e Igreja de N. S. da Apresentação
 A Casa do IHGRN, na Rua da Conceição, nº 622, construída em 1906
Arquitetura neoclássica, típica da européia da 2ª metade do século XIX
Fotografia: Acervo IHGRN

INSTITUTO HISTÓRICO TEM ACERVO PEQUENO

Ao contrário do que se imaginava, a reportagem não encontrou um arquivo fotográfico muito consistente no Instituto Histórico e Geográfico de Natal. A maioria do acervo é constituído por poucos álbuns específicos, como o que conta a história dos primeiros anos do Hospital Onofre Lopes, quando ainda era conhecido como Hospital da Caridade Juvino Barreto.

Uma das imagens mais curiosas do álbum também é uma das primeiras a aparecer: um grupo de freiras aparentemente chateadas reunidas na entrada do hospital, todas de preto e muito sisudas. Na legenda: “Irmãs de Santana”. A “Seção de Hidroterapia” é outra que também pesa no olhar. A imagem tem uma iluminação sombria e sugere um ambiente nada convidativo, capaz de colocar medo em qualquer paciente. Ainda no álbum, pode ser encontrado o vestíbulo do hospital e detalhes da fachada principal, lateral e dos consultórios médicos da época.

“Temos alguns álbuns do Padre Miguelinho e de Augusto Severo, mas eles estão misturados. A gente nomeia, na medida do possível, porque tem coisa que não tem referência nenhuma. Só se os mortos chegassem aqui para conversar com a gente mesmo”, brinca a responsável pelo acervo fotográfico do Instituto há 16 anos, Wilma Alves, enquanto abre algumas gavetas do armário onde ficam as fotos. Por coincidência, ao lado do armário, um busto de Manoel Dantas observa as imagens como se também fizesse questão de zelar pelo pequeno acervo.
 
 Bonde elétrico trafegando pelo bairro da Ribeira - Natal/RN
O sistema de bondes na capital potiguar foi extinto em maio de  1955
Fotografias da época estão em mãos de inúmeros colecionadores 
Fotografia: Acervo do americano Allen Morrison - New York/EUA
 
MAIOR ACERVO DE NATAL AINDA SEM DESTINO

Recentemente, a imprensa potiguar parou para refletir sobre o valor da nossa memória visual principalmente diante das incertezas com o destino do acervo do Diário de Natal. O jornal foi extinto em outubro do ano passado e desde então quase 74 anos de história permanecem em suspense. Por enquanto, todo o arquivo continua recebendo os devidos cuidados de preservação no prédio que pertencia ao Diário, localizado na Zona Norte.

De acordo com o ex-diretor institucional do jornal, Deliomar Soares, que se desligou do cargo há dois meses, até quando acompanhou a situação, o grupo Pernambucano “Diários Associados” não tinha a intenção de transferir o arquivo para Recife. “Isso nunca existiu, o que eles estão fazendo é estudar as possibilidades de convênio com alguma instituição”, esclarece.

Uma das propostas mais recentes foi feita em janeiro à Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN] pelo jornalista Albimar Furtado, acompanhado da deputada federal Fátima Bezerra e outros colaboradores. A comissão que se formou apresentou a importância do material e em contrapartida a universidade se comprometeu em avaliar a possibilidade de comprar o acervo. “O acervo reúne até mesmo os jornais dos pracinhas, dos americanos que estavam hospedados na base aqui de Natal na época da Guerra. Eles faziam um jornal todo em inglês, mandavam lá para os EUA e o Diário tem essa coleção completa”, detalha o jornalista Albimar Furtado.
  
 
...fonte... 
www.novojornal.jor.br

...visite...
 www.historiaegenealogia.com
 www.mensagemespirita.com.br
 Pesquisador  Allen Morrison, de New York/EUA

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