outubro 08, 2012

A VOLTA DO IMPACTO CINCO

   BANDA QUE ANIMOU OS GRANDES BAILES DA CAPITAL POTIGUAR
 E LANÇOU DISCOS PELAS MAIORES GRAVADORES DO PAÍS, 
ENTRE OS ANOS 70 E 80, PREPARA RETORNO AOS PALCOS

 A VOLTA DO IMPACTO CINCO

Por
Henrique Arruda para o Novo Jornal

Ganhar o Festival dos Festivais, realizado no Palácio dos Esportes, equivalia a aparecer em um programa da TV Globo. Era 1º de abril de 1969. A banda formada há apenas dois meses, agora tinha que dar conta de um mar de gente que lotava as arquibancadas do ginásio situado na Praça Pedro Velho, Petrópolis.

No repertório, a obrigatoriedade de tocar uma música instrumental, outra de algum compositor conhecido e, por fim, uma inédita. A vitória parecia recair sobre os principais concorrentes: Os Infernais ou os The Jetsons. Eis que no terceiro dia de apresentações, sai o resultado com o nome da banda vencedora. O “impacto” da conquista foi tão grande para os “cinco” componentes do grupo, que ficou evidente, naquela ocasião, como os garotos ficariam conhecidos dali pra frente: Impacto Cinco.

“Pra você ver como a disputa era coisa do tipo “América X ABC”: quando ganhamos, os amigos me levantaram no braço e uma fã do The Jetsons, que ficou com o 2º lugar, tacou um tamanco na minha cara”, recorda Etelvino Caldas, um dos fundadores da banda e membro original do quinteto, que agora vai retornar aos palcos. Nas últimas apresentações, em fins em 2005, o grupo tinha uma formação completamente diferente da original.

Os ensaios estão sendo realizados todas as segundas e quartas, à noite, na casa de Etel, que tem um estúdio no quintal. Boa parte dos velhos amigos que uma hora ou outra fizeram parte da banda está reunida novamente: Etel Caldas [teclado], Ribamar Cabral [guitarra base], Prentice Bulhões [guitarra solo], Marcos Farias [baixo], Inaldo [violão] e, possivelmente, Ferrinho [bateria]. “Estamos ainda procurando alguém para a bateria, mas provavelmente será Ferrinho”, complementa Ribamar, o Riba.

Por sinal, quando os amigos se reuniram para um churrasco informal na granja de Prentice, este ano, foi de Riba a ideia de reativar novamente o grupo musical que embalou a dança e os sonhos da juventude natalense em idos passados. Durante a vitória “impactante” da banda, ele, Riba, ainda fazia parte dos Infernais, mas continuou com os concorrentes por pouco tempo.

Voltando à vitória de 1969. Os cinco amigos, que moravam próximos uns dos outros, continuaram com suas rotinas após a inusitada performance. Todos já estavam na Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN], menos Riba, que cursava escola técnica.

“A banda teve que parar com os shows, mesmo com os milhares de convites que recebemos, porque Marcos não dava conta do curso de medicina e da banda ao mesmo tempo; então, passamos uns dois meses parados, procuramos novos integrantes e voltamos”, lembra Etel.

Ser uma uma banda de baile, título que o Impacto Cinco ostenta até hoje, naquela época era algo como ser uma banda de elite. “Tocávamos de tudo, mas o grande espelho era Renato e seus Blue Caps, Beatles, The Fevers e Golden Boys”, definem.

No repertório (ai deles se esquecessem!): “Menina Linda”, “Quando o Sol Chegar”, “Te Amo”, “Só Penso em Você”, “Sábado” ou “Mãos de Cera e Coração de Ferro”. Os palcos eram sempre os das domingueiras realizadas no Clube Atlântico, ABC, América e Aeroclube.

“Tinha época que a gente tocava quatro horas por show e viajávamos demais. A banda se tornou muito conhecida na Paraíba, fizemos Ceará também, Maranhão… todo o Nordeste praticamente”, recorda Etel, afirmando ainda que eles são da época em que nem mesmo as rádios ditavam moda.

“Quem apresentava ‘a música da vez’ eram os representantes das gravadoras, que repassavam a música pra gente, em primeira mão, para que a gente tocasse nos bailes e, somente depois, ela chagava na rádio e se tornava conhecida do grande público. Hoje em dia não, é a TV e a internet que tem esse papel”, avaliam.

PRIMEIRO LP SAIU COM O SELO DA CBS

1973. A maior gravadora da época, a CBS, estava precisando de um grupo no segmento jovem para competir com “Renato e Seus Blue Caps”. Foi quando um grande amigo da banda, o cantor Leno, da dupla “Leno e Lílian”, indicou os impactantes rapazes para gravar um LP. “Na época, Leno era da CBS e se tornou o nosso produtor”, conta Etel.

A passagem para o Rio de Janeiro, onde o LP foi gravado, eles não pagaram, já que essa foi a única ajuda da gravadora. “Nós ganhávamos 20 centavos por LP vendido, enquanto Roberto Carlos, que também era da CBS, tirava 5 reais por LP”, detalha Etel.

O primeiro trabalho, batizado com o mesmo nome da banda – Impacto V – vendeu cerca de 80 mil cópias e modificou definitivamente os rumos dos garotos, que rodaram todo o Nordeste com os sucessos de estreia: várias versões e duas músicas inéditas.

“A gente é que se bancava literalmente, aí a alternativa era comprar os próprios LPs da gravadora e revender nos shows; assim a gente conseguia pagar passagem, hospedagem e alimentação”, lembram.

Os garotos conquistaram o público com o lado A e B do trabalho de estreia, de onde saíram clássicos como Quando o Sol Chegar e Te Amo. Na época, a formação era a seguinte: Prentice, Joca, Idalmir, Etel, Clauton “Neguinho”, Ivan, Genilson e Paulo índio.

LÁGRIMAS AZUIS

Atualmente, considerado um dos 10 discos mais raros do Brasil, Lágrimas Azuis foi gravado também pela CBS, no Rio de Janeiro, em 1975. Para o segundo trabalho, o foco foi investir nas composições próprias, o que inicialmente não deu muito certo.

“O disco foi inteiramente rock e conseguimos vender somente umas 3 mil cópias”, contam, culpando a mudança brusca pelo baixo desempenho. “Esse álbum tem um som muito personalizado, diferenciações na bateria, coisas que só o ACDC e os Mutantes faziam na época”, explicam.

O contraste já começava na capa do disco. Se “Impacto V” trazia os integrantes em um descontraído cartoon, a capa de “Lágrimas Azuis” estampava uma fotografia mais sombria com todos os integrantes fumando. “Menos eu”, observa Etel.

ANOS 80
MUDANÇA DE GRAVADORA E DE NOME

O início dos anos 80 trouxe também a mudança de gravadora. Dessa vez era a RCA, que buscava uma banda para competir com a “Cor do Som”, grupo de sucesso da Som Livre.

Mais uma vez Leno entra em ação e indica o Impacto Cinco. “Gravamos uma demo com músicas de Babau e mandamos para eles avaliarem”, lembram.

Com toda a cúpula reunida, Leno colocou play na demo e de imediato os chefões da RCA aprovaram os potiguares com uma única condição: eles teriam que mudar de nome. “Cactus”, foi a primeira sugestão, mas como já existia uma banda chamada assim, a solução foi “Flor de Cactus”.

“Porque era um olhar urbano para o sertão”, explica Etel. A renovada no repertório ficou a cargo de Leno, que incluiu para os meninos nomes como Dominguinhos e Geraldo Azevedo. “Era um trabalho mais regional e, naquela época, somente Alceu usava essa roupagem mais moderna”, explicam.

Dessa vez as gravações, que duraram 15 dias, aconteceram em São Paulo, porque no Rio de Janeiro não havia estúdio livre. “A gente fez tudo sozinho, quando o diretor artístico chegou para ver o que tínhamos feito, ficou irado porque não queria nada daquilo, mas como era o último dia, não pôde mudar nada”, conta.

“Em compensação, os executivos da gravadora amaram as músicas; se você for analisar, é um disco que até hoje continua extremamente moderno”, complementa. Com a aprovação da gravadora, o tal diretor artístico se desculpou por carta, semanas depois, elogiando o trabalho.

A proximidade com as gravadoras do Sudeste fez com que a banda se mudasse para o Rio de Janeiro. Seis dias em uma kombi, pelo que eles se lembram. “Juntamos todo mundo e ficamos em um apartamento de um tio meu, em Copacabana, depois conseguimos um apartamento em Jacarépaguá”, conta Etel.

Logo após a gravação do segundo LP, “Pepitas de Fôgo”, pela RCA, Etel teve que voltar para Natal, por motivos familiares. Seu pai e maior incentivador dos garotos estava com câncer. “Ele é que vendia CD’s nos shows, se largava de onde estivesse para nos ajudar, mas infelizmente não aguentou e faleceu”, recorda.

Com o acontecimento, os amigos ficaram tentando conquistar espaço no Rio de Janeiro com o Flor de Cactus, enquanto Etel remontava o Impacto Cinco, em Natal, para poder se sustentar. Com a nova formação, o Impacto gravou, em 1983, o disco “Rio Potengi”, através do Projeto Memória da UFRN, que reunia artistas da terra.

“Esse disco lembra um pouco até o Flor de Cactus, por ser mais regionalista; naquela época, Natal tava estourando em festivais”, analisa. Os amigos ficaram no Rio por mais algum tempo e o Impacto Cinco, em Natal, prosseguiu até 2005 com mais algumas mudanças de componentes.

O RETORNO
DE VOLTA MAS SEM PRESSA DE FAZER A COISA ACONTECER

Agora, boa parte da velha guarda está de volta, mas sem pressa nenhuma de fazer “a coisa acontecer”. Muito embora obedeçam uma regra fixa de ensaios – acontecendo sempre às segundas e quartas na casa de Etel – eles não estão apressados para montar um novo álbum ou o show de retorno.

“Desde que a gente retomou a rotina de ensaios, já montamos um repertório de umas 35 músicas, entre as nossas próprias canções e coisas que gostaríamos de tocar”, comenta Riba. “O problema é que tava todo mundo enferrujado né?”, rebate Etel.

O álbum, que começa a ser vislumbrado, deve conter algumas versões de antigos sucessos, além de canções inéditas da época. “A gente tem um material que nunca foi gravado e, quando voltarmos, também vamos trazer essas músicas”, afirmam.
 
“A gente pensa em fazer um show de retorno no Clube de Engenharia, mas não queremos marcar data nenhuma, por enquanto. Sabemos apenas que, quando acontecer, vamos chamar todos os amigos”, concluem.

LENO
PRODUTOR MUSICAL DO DISCO "LÁGRIMAS AZUIS"

O cantor Leno, produtor do disco Lágrimas Azuis, considera que o álbum é um registro precioso de um momento raro vivido por artistas natalenses. Na época, a gravadora CBS deu carta branca para Leno formar o seu cast e ele aproveitou a liberdade para contemplar alguém de Natal. “Sou meio mulher de malandro. Por mais que eu apanhe de Natal, por causa da falta de apoio à cultura, eu sempre tive fixação pela cidade”, emenda. Sempre que dava um pulo à capital potiguar, via o Impacto Cinco tocando. “Eles eram bons pra cacete!”, observa Leno.

O primeiro fruto dessa empatia foi o disco “Impacto-V”, ainda marcado pela sonoridade da Jovem Guarda, apontado por Leno como um trabalho “bem comercial”, na linha de Renato e Seus Blue Caps e The Fevers e o resultado das vendas foi bom.

Na experiência seguinte, tanto Leno quanto a banda estavam cheios de ideias. “Foi quando eu e a banda decidimos ter uma sonoridade própria”, afirma. Eles vieram para Natal e ficaram ensaiando no antigo clube do ABC, em Petrópolis, gravaram o disco rapidinho e em uma semana concluíram o trabalho. A banda ainda chegou a viajar para o Rio de Janeiro, mas teve de voltar rápido para Natal por causa de sua agenda de shows. “Eles eram muito organizados, era impressionante. Talvez por isso tenham ficado tanto tempo unidos. Estavam sempre juntos, era um lance muito profissional”, descreve Leno.

O álbum trazia faixas instrumentais, como a própria música título, um rock funkeado, muito parecido com o que a banda Maria Fumaça fazia na época, e tinha um longo solo de guitarra.Era um nova vertente do rock que começava a se estabelecer, com letras mais consistentes e arranjos variados, com uma nova exploração de timbres e melodias.  “Eu sou suspeito para falar, mas o disco ficou sensacional e construímos uma boa relação de amizade. Quando eu ia fazer show em Natal, eles me acompanhavam”, conclui. 
 
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4 comentários:

  1. voces esqueceram de comentar outros integrantes que comtribuiram para o crescimento do grupo do nivel de Eudes Nazareno e Poty Lucena,que ao meu ver anbos são músicos de alta qualidade.

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  2. E falo isso por conhecê-los pessoalmente e acompanhar o trabalho dos dois.

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  3. Alguém tem novidades sobre isso? se chegaram mesmo a se reunir se deu certo se não deu como anda as coisas?

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  4. OS BONS TEMPOS ESTÃO DE VOLTA COM ESSA BANDA LEGAL !

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